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A cena do açambarcamento no supermercado sempre me causou alguma confusão. Vejamos: precisamos de manter um sistema imunitário saudável para, caso adoecermos, termos capacidade de recuperar. Mas a primeira coisa que esgota são enlatados e comida pré-feita?! E depois há a eterno mistério do papel higiénico… Ora, quem já teve que cuidar de um bebé sabe que há ocasiões críticas, extremamente frequentes, em que a única solução é mesmo um banho integral. Foi uma das coisas boas que aprendi na minha curtíssima e longínqua estadia na Tunísia: a água dá para tudo! E não há nada que um bom jato de água não consiga remover.

Sabem o que se acaba com uma rapidez avassaladora e que destabiliza completamente o meu sistema? Cebolas… É o pânico! Cheguei à conclusão que não consigo viver sem um qualquer refogado! Há sempre a hipótese da comida crua, mas meto lá cebola na mesma e parece que sem ela o sabor não fica igual…

Quando preciso de cebolas ou de outro produto qualquer, aproveito a minha “saída higiénica” e vou ao supermercado aqui ao lado de caso. Demoro menos de 15 minutos e faço questão de não falar com ninguém. Finalmente a minha timidez social serve para alguma coisa. Antes era considerada totó, agora sou considerada pessoa civilizada.

Realmente a vida dá muitas voltas!

Armada com o meu desinfetante, a minha dúvida emerge quando tenho de pegar na fruta. Pego com um saco? Ou mesmo com a mão? Será que parece mal desinfetar as mãos de cada vez que toco num legume?

Por causa destas cenas já fui enganada nos iogurtes! Num esforço para não agarrar em nada, fiz um ângulo de 180ºC com o pescoço e confiei no “0% de açúcares adicionados”. Só comecei a estranhar quando reparei na velocidade a que o meu filho acabou com aquilo e finalmente me lembrei de ir ver o rótulo. Bolas…

Lá faço as minhas compras o mais rápido que consigo e vou para a caixa.

Outro grande mistério é a senhora da caixa insistir em me tratar por “tu” como se me conhecesse de há muito. Nada contra! É só estranho. Outra coisa estranha é a vontade dela de conversar e as minhas respostas monossilábicas não funcionarem. Devem de andar a ser uns dias solitários, julgo eu.

Este confinamento por outro lado está a ser bastante benéfico para a minha filha. O seu desenvolvimento verbal anda a crescer a olhos vistos e estamos todos orgulhosos (e de certa forma a respirar de alívio!). No outro dia o papá estava no seu passatempo juvenil e a boca fugiu-lhe para a verdade. A nossa filha não se fez de rogada e repetiu perfeitamente a sua primeira asneira! Tão bom vê-los crescer…

Ao mesmo tempo anda toda senhora do seu nariz. Vai para a casa de banho e fecha a porta. É preciso intimidade para ir ao penico! Já o contrário não se verifica. Continuo a ter de fazer o que tenho de fazer no wc com os dois putos em cima de mim.

O puto continua com as suas crises de clausura. Já percebi que o rapaz precisa de correr para estar funcional. Tento magicar boas desculpas para sair com ele à rua, caso um agente de autoridade nos aborde. Infelizmente ter um miúdo de 5 anos não é, só por si, uma desculpa válida.

Também não temos cães (impressionante a quantidade de cães que tenho visto na rua). E não estamos perto de nenhum sítio isolado que não deixe de ser isolado a partir do momento em que lá estejamos nós. A minha filha tentou enfiar-se pela cerca da última vez que estivemos no parque infantil e verificámos que estava fechado. Ficou entalada. Foi triste…

Nos meus dilemas existenciais de mãe intelectual, vou pensando que, quando o reguila for para a escola, quero fazer questão de que perceba bem matemática e consiga fazer uma análise crítica de História. Já agora, ali logo com 10 anos é pegar no doutoramento da tia e ler a obra de Hannah Arendt de uma ponta à outra. Já sabe mais de epidemiologia e virologia com 5 anos do que eu com 20, por isso não deve ser difícil.

Ficar fechado em casa a absorver tudo o que vem da televisão e das redes sociais é perigoso. Ficamos muitas vezes com a sensação de que o mundo vai acabar. Não é verdade. Neste dias já meti conversa com cinco pessoas diferentes, que não conheço de lado nenhum, via facebook, só para ter a certeza de que não estava louca.

Ok, posso estar na mesma… Mas ao menos assim já não me sinto sozinha e, se morrer, morro com a vaga desconfiança de que tinha razão.

Marta Gameiro Branco

Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura.
(E lavem os dentes todos os dias!)

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