Maria Arminda, conhecida como "Bruxa do Pego", tem 86 anos e desde os 16 que dá consultas, dizendo ter "a missão de ajudar" a resolver os males de quem a procura. Créditos: mediotejo.net

Maria Arminda é pegacha – e corresponde ao perfil das mulheres desta aldeia do concelho de Abrantes. É frontal e destemida, tem personalidade forte e uma genica invulgar para os seus 86 anos. De estatura baixa, olhos castanhos pequenos, sobrancelhas grossas e longos cabelos que já foram negros (alguns ainda são) enrolados no cimo da cabeça, numa espécie de coque, continua a trabalhar a tempo inteiro – e a fazer até “horas extraordinárias”, porque são muitas as aflições e urgências de quem a procura, vindos de todo o país e também do estrangeiro.

Mãe de 10 filhos, não passou para eles qualquer misticismo ou esoterismo. O que tem em seu poder, diz, é uma herança que não se transmite, nasceu com ela, sendo “um dom” que a ultrapassa e que tem dificuldade em explicar, sobretudo a quem não acredita no mundo espiritual. Assegura que nem tudo é luz e contemplação; ter um dom como o seu “é doloroso e sofrido”. Mas, se tivesse podido optar, escolheria a mesma vida, entregue à “missão” que sente ser a sua, e que pretende manter enquanto puder: ajudar o próximo.

O oculto é, por definição, um mundo à margem, misterioso. Apesar disso, Maria Arminda desvenda sem constrangimentos o que faz. Lê as pessoas nas mãos e no rosto, diz que “basta olhar para elas”. Mesmo através de uma fotografia percebe se “tem mal que a apoquente”.

A fama desta mulher – que tem como nome “oficial” Maria Hermínia Lopes Correia, por um erro de registo que só descobriu quando se casou, aos 15 anos – levou até ao Pego milhares de pessoas nos últimos 70 anos, de Norte a Sul do País e até do estrangeiro, à procura de soluções para os mais variados problemas.

Por certo não haverá na região quem não tenha algum dia ouvido falar na “Bruxa do Pego”, epíteto do qual Maria Arminda confessa não gostar, devido ao significado pejorativo – diz que, a ser bruxa, é “das boas”. O seu mundo não é sombrio, assegura, passando sobretudo por “desfazer a maldade em oração” ou “curar doenças com ervas e plantas” do seu conhecimento. “Curandeira” é uma designação que aceita bem, uma vez que é sobretudo a esperança de uma cura que coloca as pessoas no seu caminho.

Num mundo dominado pela tecnologia e naquela que é a sociedade mais informada de sempre –em que a crença na mediunidade, outrora respeitada na cultura popular, foi-se esbatendo –, afirma ver “para além da vida terrena”.

No seu quintal avistamos um gato preto, mas logo a seguir passa um totalmente branco, e depois outro cinzento e um malhado. Maria Arminda aponta o futuro mas não tem bola de cristal, não utiliza caldeirões nem profere palavras mágicas. O que faz, então, e como o faz?

Maria Arminda na sala onde dá as suas consultas. Fotografia: mediotejo.net

Começa por contar-nos a sua história de vida. Nascida a 1 de julho de 1936 na aldeia do Pego, filha de carvoeiros, diz que o pai e uma tia “também tinham condão”. Maria Arminda ganhou consciência da sua diferença muito cedo: teve a sua primeira “visão” aos três anos e meio. 

“Os meus pais foram cortar eucaliptos, tirar cortiça à falca, para a Asseiceira, em Rio Maior, e estava lá uma senhora também do Pego, que cozinhava para todos, e ia à água a uma fonte, no fundo da barreira. Eu ia com ela mas tinha medo, agarrava-me à saia da mulher e recusava avançar porque via lá um homem de chapéu que me fazia sinal de silêncio e prometia-me uma palmada se eu falasse”, lembra. “Não fiz caso e contei”.

O tal homem era invisível aos olhos de todos exceto aos de Maria Arminda. Aparecia-lhe recorrentemente, até que começou a ter “ataques”, ou seja, a “incorporar espíritos”, o que a fazia perder os sentidos e estrebuchar em alvoroço desmedido, mudando de voz. “Falava pelo Dr. Sousa Martins, Padre Cruz, Rainha Santa, São Miguel Arcanjo, São Rafael… um Jacinto de Santa Margarida, um rapaz do Pego e outros que as pessoas traziam”, recorda. Ainda trazem, assegura, mas não como antes. “Já foi pior!”

Com uma infância “muito atribulada”, confessa que tinha vontade de cantar e aprender tudo o que podia. “Com o dom, não pude fazer mais nada”, desabafa, sublinhando que também ajuda por gosto, e não apenas por missão.

Era muito jovem quando começou a ter “ataques”, ou seja, a “incorporar espíritos”, o que a fazia perder os sentidos e estrebuchar em alvoroço desmedido, mudando de voz.

Aos oito anos foi trabalhar para casa de familiares lavradores, em Vale de Feto, onde hoje está situada a Central Termoelétrica do Pego. Casou muito jovem, aos 15 anos, porque aquele que viria a ser o seu primeiro marido “não parava” de a perseguir, como explica, para referir a iniciação na vida sexual. Os sogros, conta, recusavam o matrimónio, devido à diferença entre classes sociais.

“Ele era rico e eu pobre mas os meus pais foram Abrantes falar com um advogado” e, após uma consulta com “um médico de revista da honra”, o juiz do Tribunal determinou o casamento, por Maria Arminda ser menor. “Um casamento que não foi feliz”, lamenta, mas a vida viria a dar-lhe um segundo amor. “O destino marca a hora”, justifica.

Maria Arminda recebeu no seu consultório o nosso jornal numa terça-feira, um dos seus dias de folga. Fotografia: mediotejo.net

O oculto é, por definição, um mundo à margem, misterioso. Apesar disso, Maria Arminda desvenda sem constrangimentos o que faz. Lê as pessoas nas mãos e no rosto, diz que “basta olhar para elas”. Mesmo através de uma fotografia percebe se “tem mal que a apoquente”.

Sem saber ler nem escrever – não frequentou a escola devido à pobreza da família – interpreta o que diz receber de Deus e criou dezenas de orações em função do mal de cada um: amor, negócios, inveja… Essas orações, que Maria Arminda tem impressas em folhas de papel e devidamente separadas e empilhadas no seu consultório, prontas a serem distribuídas, podem, segundo a curandeira, ser proferidas por qualquer um, e não apenas por quem “sofre do mal”, o que simplifica o processo.

Maria Arminda diz desatar os nós da vida, fazer exorcismos, cortar todo o mal de assombramento ou mau olhado e curar o cobrão – para esta doença, diz, basta pau de figueira, óleo de amêndoas doces e uma reza.

São as situações de desespero relacionadas com a saúde, o trabalho e a vida familiar que causam maior instabilidade espiritual nas pessoas, levando-as a procurar ajuda. Mas cada caso é mesmo um caso – e Maria Arminda lida com muitas situações invulgares.

“Já andei 400 km para ir benzer um rebanho de cabras… Já me passaram pelas mãos tantos casos complicados, mas graças a Deus resolvem-se, as pessoas ficam bem”, afirma, explicando que, no caso de uma situação mais complexa, “alerta” sem “escancarar” a real gravidade do problema, para “não magoar ninguém”.

Maria Arminda diz ter “licença” de ervanária desde os 16 anos e criou receitas de várias mezinhas. Fotografia: mediotejo.net

Dá consultas todos os dias da semana, exceto às terças e sábados – a não ser que surja uma aflição. Aquando da nossa visita a casa de Maria Arminda, numa terça-feira, duas mulheres aguardavam para vê-la. Tinham vindo de Castelo Branco: uma por problemas de saúde; outra por estar desempregada e sem rendimentos.

Não pede dinheiro a ninguém, assegura, porque “Deus não quer” um negócio. Ela “cura, incorpora, concentra-se, ouve, tem intuições, reza” e recebe em troca o que dita a carteira ou a consciência de cada um. Mas diz lamentar o “cinismo” de alguns que a procuram. “Sabem que não vivo do ar… vêm pedir-me ajuda, mas depois não me ajudam.”

No seu processo de “ajuda” recorre a rezas, mezinhas, orações, ervas, lamparinas de “luz sagrada” e suplementos alimentares – diz que tem um certificado e “licença” de ervanária desde os 16 anos. Não obstante essa autorização, em jovem foi presa, acusada de falta de pagamento das devidas contribuições financeiras ao Estado, quando já se assumia como curandeira da muita clientela que a procurava, após espalhar-se a notícia da sua particularidade de mulher com poderes místicos inexplicáveis.

Não pede dinheiro a ninguém, assegura, porque “Deus não quer” um negócio. Ela “cura, incorpora, concentra-se, ouve, tem intuições, reza” e recebe em troca o que dita a carteira ou a consciência de cada um.

No pátio da sua casa passara a ser normal ver pessoas à espera, de noite e de dia, para serem observadas, lidas ou benzidas. Havia até quem dormisse por lá, à espera de uma consulta. Certo dia, três polícias deslocaram-se a sua casa para dar ordem de prisão às pessoas que estavam por ali, recorda. “Mas eu disse-lhes que não prendiam ninguém. ‘Quem vai presa sou eu!’ Quando estavam para ir embora, a mota deles não pegou”, recorda, com um sorriso malandro. “Voltaram para perguntar o que é que eu tinha feito, e eu disse: ‘Nada… rezei um Santo António’.”

Acabou mesmo presa e não esquece o estalo que lhe deu o polícia “Botas” por ter “incorporado” na prisão um espírito que cantava. Esses, diz, são momentos em branco, dos quais não se lembra. “Usam o meu corpo para transmitir”. Depois, sente muito cansaço ou sede. “É desgastante e doloroso… isso ninguém sabe compreender. Agora já me defendo melhor, tive de aprender e rezar muito”, refere. “A carga é muita, mas Deus é grande e ajuda, por isso ainda posso com ela. Tenho as minhas forças e orações.”

Maria Arminda explica ter “a morada [ou cofre] aberta” e por causa disso “incorpora” espíritos, “do melhor e do mais ruim”, mas não é ela que decide quem, como ou onde. A escolha faz-se noutra dimensão, por quem fez a passagem para o lado dos mortos, diz.

Os relatos que vão passando de boca em boca repetem os testemunhos de gente que garante ter assistido no Pego a episódios paranormais. A tal “incorporação” leva à modificação da mulher, quer na voz, quer na figura corporal.

Na sua casa, no Pego, há imagens de santos em todos os recantos. Fotografia: mediotejo.net

Afirma-se católica, vai à missa regularmente, crê na aparição da Nossa Senhora na Cova de Iria, e é presença assídua em Fátima desde 1942, quando testemunhou um “episódio” com a irmã Lúcia. No espaço onde dá consultas abundam imagens de Maria, de Jesus Cristo e dos mais variados santos. Em cima da mesa tem sempre um crucifixo.

Aberta para o pátio da sua casa há uma sala de espera também pejada de imagens de santos, onde não faltam os três pastorinhos de Fátima, e à entrada existe uma pequena divisão com uma mesa redonda, com apetrechos de prováveis benzeduras, tigelas com azeite e lamparinas, fotografias, velas, e igualmente diversas imagens de ícones e santos, incluindo São Lázaro, o leproso, e o cão que lhe lambeu as feridas.

Conhece de cor e salteado as histórias que envolvem cada um dos santos e disponibiliza-se a contar detalhadamente cada uma delas, caso alguém lhe pergunte sobre a figura, tal como conhece a história dos videntes de Fátima, Francisco, Jacinta e Lúcia, os três segredos e do que diz “ainda por publicar”.

Maria Arminda diz desatar os nós da vida, fazer exorcismos, cortar todo o mal de assombramento ou mau olhado e curar o cobrão – para esta doença, diz, basta pau de figueira, óleo de amêndoas doces e uma reza.

Os católicos apostólicos romanos assumem dúvidas relativamente à veracidade do esoterismo e portanto, “na sua missão” de crenças e práticas, Maria Arminda procura evitar atritos com a Igreja Católica. Mas, certa vez, “brigou” com um padre por este recusar dar-lhe a hóstia, por falta de confissão.

Comunicou-lhe que “antes de vir para a Igreja” já se havia confessado a Deus. “Se não me der absolvição é o senhor quem fica com esse encargo”, avisou. O padre perguntou-lhe onde estava a pedra de ara e Maria Arminda debitou-lhe rapidamente uma oração. Ele terá sofrido, depois, alguns azares… “Tive grande debates”, admite, dizendo perdoar “mais depressa a ignorância do que a maldade”.

Toda a gente no Pego a conhece por Maria Arminda, mas o nome que consta no Cartão de Cidadão é Maria Hermínia Lopes Correia. Créditos: mediotejo.net

Por companhia, além de uma empregada que ajuda nas tarefas domésticas, conta com os muitos gatos que deambulam pelo pátio e se espreguiçam o sol, ao lado de um frigorífico e de uma máquina de café, abrigados num alpendre rodeado de flores e arvoredo. Maria Arminda vê pouca televisão – só à noite “um bocadinho da novela”, porque não aprecia as “tricas políticas”, diz.

Considera que o primeiro-ministro, António Costa, “tem bom coração” mas, apesar disso, discorda da decisão do encerramento da Central Termoelétrica do Pego (a carvão) e opina que “estão a ir por caminhos tortos”.

Sobre o ano que agora começa, deseja que não haja tanta ambição e que possa haver mais tolerância no seio familiar e prevê que “vai ser melhor” se o Presidente da República colaborar, porque, segundo nota, “entra-lhe num ouvido e sai-lhe no outro”. Quanto ao cenário internacional, vaticina que a guerra na Ucrânia “vai acalmar”.

Com 86 anos de vida e 70 de profissão, não pensa reformar-se. Vai continuar a dar consultas enquanto puder. E, apesar de acreditar que há vida para além da morte, não deixa de confessar um desejo: chegar aos 116 anos, à semelhança da sua avó.

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Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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9 Comentários

  1. Sempre ouvi falar desta mulher e sempre tive curiosidade em saber mais coisas sobre ela.
    E vocês fizeram esta reportagem impecável. Muitos Parabéns Assim vale a pena ler um jornal como o vosso.

    1. E há. Todos somos médiuns uns mais outros menos mas todos temos essa percepção dentro de nós. O mundo é o que tem que ser. Tudo está como deveria estar, nós é que temos um olhar limitado a está vida e julgamos injustiça e injustiçados. Há no mundo muita injustiça mas não há um só injustiçado. Só colhemos o que plantámos nesta ou noutras vidas.

  2. Boa reportagem. Eu sei que há pessoas que têm esses dons, mas há quem os use para o bem e outros infelizmente não ! Parabéns por ter tido a coragem de trazer a público este tema. Não sabia da existência dessa senhora mas , quiz o destino, que tenha comprado há pouco tempo uma casa na zona , que ando a recuperar , o que me faz deslocar aí várias vezes. Já conheço o restaurante Tulipa, quem sabe um dia irei conhecer a D. Arminda :)

  3. Parabéns pela reportagem, é muito importante que mais pessoas possam compreender que existe muito mais além do que podemos ver e tocar…
    Eu creio na força da oração e do benzimento, vida longa a Dona Arminda.

  4. Bom dia gostaria de ter consulta com a senhora se faz favor vou enviar o meu Emal. Agradeço resposta. Um beijinho.

  5. Boa tarde gostava de ter uma consulta com essa senhora,gostaria de saber se será possível me dar o contacto, obrigada

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