Mais de um terço dos 308 presidentes de câmara estão impedidos de uma recandidatura nas próximas eleições autárquicas devido à limitação de mandatos. No distrito de Santarém, são 11 os municípios que vão mudar de presidente (sete do PS, três do PSD e um do PCP-PEV), entre os quais cinco do Médio Tejo; Entroncamento (PS), Mação (PSD), Sardoal (PSD), Torres Novas (PS), e Vila Nova da Barquinha (PS). Também Vila de Rei (Castelo Branco), Gavião e Ponte de Sor (Portalegre) vão eleger novos presidentes em 2025. Tem a palavra Pedro Ferreira, presidente da Câmara de Torres Novas desde 2013.
Pedro Ferreira, 73 anos, nasceu em Torres Novas a 2 de janeiro de 1952, sendo licenciado em Ciências Sociais. Foi técnico de contas e inspetor de seguros, até ser convidado em 1993 a integrar as listas do PS, ganhas naquele ano por António Rodrigues. Entre 1993 e 2013 (cinco mandatos) Pedro Ferreira foi vice-presidente do município, tendo vencido as autárquicas em 2013 para presidente da Câmara, cargo que desempenha até aos dias de hoje. Casado, com três filhos, quatro netos (e mais um a caminho), Pedro Ferreira vai dedicar mais tempo à sua família e também às causas da solidariedade social.

Este é o seu último mandato, em 2025 não poderá recandidatar-se. Fica até ao final do mandato?
Fico até ao final.
Quais são os seus sentimentos e pensamentos, a poucos meses de se retirar da politica ativa?
Eu julgo que, fruto da idade, tenho de falar na questão familiar, já com vários netos. Portanto, é a família a desenvolver-se e a precisar também, como qualquer ser humano, de conhecer bem a história de cada um e a receber um abraço, um carinho e um ensinamento da vida… eu acho que estou também nesse papel. Estarei sempre disponível, isso estarei, enquanto tiver consciência, inteligência e saúde, estarei sempre disponível, já o disse várias vezes, para se me quiserem considerar quase um guru da vida política e precisarem de algum conselho, que será sempre dado no melhor sentido, eu estou cá, até já o disse inclusivamente à oposição. A bem da minha terra, vamos supor que, mesmo perdedores ou mesmo ganhadores, que sejam oposição, mas que seja para bem da minha terra fazerem-me alguma pergunta face à experiência que tenho e que possa enriquecer ideias, a bem da minha terra, eu estou cá completamente disponível.
Mas a sobre a questão da vida autárquica e pertencer à Câmara seria impossível ou vir a pertencer a uma Assembleia Municipal, tudo depende agora do desenrolar de todo este processo eleitoral próximo. Portanto, aí, como militante estou atento para acompanhar, também votei, na regra democrática de quem é que nós iremos candidatar para o município e onde foi eleito e eu aplaudo e abraço o José Trincão Marques. Portanto, também participei nesse ato e estou disponível para colaborar, para ajudar, também por uma coisa que eu tenho… eu vou sair da Câmara, não sei o que é que a população pensa, eu sei o que é que a população pensou em três votações que fez na Câmara e em mim e por ganhar quer dizer que a população estava agradada do trabalho feito. Eu não vou esquecer isso, não sei o que é que seria se eu me candidatasse novamente, mas a noção com que fico e é uma coroa de glória para qualquer autarca, é que em oito mandatos, também fui vice-presidente cinco mandatos, em oito mandatos ter sido sempre ganhador com uma equipa. Portanto quero acreditar e vou defender, saio com algum júbilo e consciente de que muita coisa foi feita, algumas mal feitas, mas isso é a vida. Também assumo as partes negativas que qualquer autarca também tem no meio da vida autárquica. Nunca é fácil.
Depois de 20 anos como vice-presidente e agora quase 12 anos como presidente de Câmara de Torres Novas e no serviço público à sua comunidade, pensa na hora de saída como um alívio ou gosta do que faz e gostava de continuar? O que vai fazer? O que se vai seguir na sua vida?
A questão do alívio tem peso, porque ser autarca hoje, desde presidente de Junta Freguesia, a presidente da Câmara ou de Assembleia Municipal tem enormes responsabilidades. Não tenho dados concretos sobre isso, mas presumo que a maioria da população portuguesa não tem a noção da grande responsabilidade que cai sobre os ombros de qualquer autarca. Portanto, em momentos de grandes decisões, muitas vezes não é isolado porque eu tive sempre maioria na Câmara, não é? E este último resultado que tive, de cinco eleitos do Partido Socialista, um do PSD e outro do Movimento P’la Nossa Terra, obviamente que a responsabilidade maior sempre coube ao Partido Socialista e neste caso, quem está à frente. E quem está à frente sensibiliza os seus camaradas, os seus colegas, vereadores, para votarem em determinadas situações e às vezes são votações difíceis, votações polémicas, votações em que por vezes ficamos sempre na dúvida se no futuro vão ser auditadas e que podem correr mal. Portanto, não é fácil.
Parece que há sempre uma lupa maior para os autarcas do que há para o resto dos governantes. Digo isto com todo o à-vontade pela observação que tenho feito ao longo da vida, por quem está no Governo e quem está… as autarquias são a infantaria, são os que estão ali no chão e a enfrentar-se com maiores dificuldades até na defesa. Por isso, é para mim um alívio nessa parte de não ter que assumir grandes responsabilidades, que assumi com convicção de que está tudo bem e a bem da terra e por essa convicção, por um lado.
Agora, desejo de continuar, como eu ainda há bocado também frisei, eu gosto disto, continuo a gostar disto e continuarei a gostar sempre, mas também reconheço que com 73 anos, com jovens a terem todo o direito e o entusiasmo de politicamente apresentarem as suas ideias mais rejuvenescidas, do que a minha. Sobretudo com o sentido de dever cumprido, disponível para continuar esse sentido de dever cumprido, nessa linha não há idade, portanto, é sempre disponibilidade para ajudar, no que puder.
A minha família… há 32 anos que a minha mulher e os meus filhos têm sofrido, entre aspas, com ausências do pai em muitos momentos. Apesar de, sou um homem sortudo, os meus filhos já praticamente todos com filhos, vivem todos ao pé de mim, vivem em Torres Novas e ao viverem em Torres Novas, vivem ao pé de mim. Portanto, tenho acompanhado ao dia o crescimento deles, das novas famílias que engrossaram a minha família e, portanto, é uma felicidade isso. Mas sinto que muitas ausências, muitas preocupações que levei para casa e que muitas vezes conseguia disfarçar, outras vezes não, e eles passaram por isso tudo. Por isso é um ad aeternum de agradecimento aos meus filhos, também aos meus netos, embora ainda não percebam bem isso e à minha mulher, sobretudo, como é óbvio.
Tem ambição de trabalhar em cargos governativos ou ser candidato a câmaras de outros municípios? E mais tarde regressar?
A um município ou outra Câmara não. Partindo do princípio que o Partido Socialista ganha as próximas eleições, eu tinha quase 80 anos, não. Eu sei que há um caso, pelo menos que eu conheço no Alentejo, de uma pessoa com 78 anos que ganhou a Câmara. Mas não, só se caísse absolutamente na desgraça, um município no meu concelho, onde nasci, tenho muito orgulho de ter aqui nascido, verde e amarelo… não, isso é impensável. Agora disponível, havendo saúde para… a política não se restringe só a governação, a governação restringe-se a um Governo e às autarquias, sejam elas municipais ou de freguesia e ou assembleias municipais, mas há muitas outras funções indiretamente ligadas aos governos, a comissões, a conselhos económicos e sociais. Eu já fiz parte de um conselho económico e social, não a representar nenhum partido político, mas a representar a deficiência neste país. Portanto, houve um problema em que a Associação Portuguesa de Deficientes não pôde estar presente no Conselho Económico e Social, eu era presidente da UNICRISANO, da União dos Centros de Recuperação Infantil do distrito de Santarém e outros, estive lá seis meses, adorei, era um lugar que eu não me importava, por exemplo, dentro do associativismo, da parte de solidariedade social. Aliás, solidariedade social, sempre disponível.
Porque escolheu esta vida de autarca? O que o motivou? Como é que chegou à Câmara?
Eu comecei a sentir, sobretudo, como inspetor de seguros, que foi uma lição de vida enorme para mim, a correr todo o distrito de Santarém, que eu tinha alguma apetência que eu ainda não tinha descoberto, porque comecei como empregado de escritório, numa empresa que já não existe, depois cheguei a chefe de escritório, estive lá quase 20 anos e, portanto, estava restringido a uma administração. Depois, quando fui convidado, porque a companhia de seguros… porque o meu pai era agente de seguros e eu passei a funcionário e passei a técnico comercial e atiraram-me…. A minha companhia de seguros era a Zurich Seguros, passo a publicidade e teve sempre, hoje já não, mas tinha um dirigente estrangeiro, suíço, porque a origem é suíça e eles chamavam-nos, em francês, os homens do “tortoir”???, os homens do passeio, os homens que andavam nas ruas e nas ruas aprende-se muito. Eu tinha, desde o Entroncamento ao Sardoal, a granjear agentes e fazer contas com eles, aumentar a carteira de seguros e aprendi imenso, com muita humildade. Não havia A23, eu saía à meia-noite e à uma da manhã do Crucifixo ou de Vila de Rei, ainda dentro dos pinhais, ainda sem incêndios, depois apanhei um incêndio em 82 brutal, que parecia a paisagem lunar depois do incêndio que houve. Também passei por fumo atrás e fumo à frente, para onde é que eu vou? Lembro-me perfeitamente de ter passado por uma cena dessas.
Aprendi imenso, aprendi a entrar na casa das pessoas, casa humilde, casa média, casa rica e a tirar partido disso tudo, a aprender muito com o que eles me diziam.
As coletividades, os escuteiros, o CRIT que que eu ajudei a criar. Dizem sempre que eu é que criei o CRIT, não fui só eu sozinho. Num ano conseguimos mil associados e passado um pouco já tínhamos ser cerca de sete mil num concelho, naquela altura, de 32 mil pessoas e era muito. Ficámos a segunda coletividade, comparativamente com os Bombeiros e hoje o CRIT é o que é e é um orgulho enorme que eu levo comigo para toda a vida e isso ensinou-me imenso. Quando as pessoas são conhecidas e eu fui conhecido, não pela causa política, foi pela causa social, alguém me convidou e foi o Rodrigues, a quem eu agradeço naquela época o que ele apostou em mim e quem, ligado ao PS, apostou em mim e para fazer uma lista com ele. Ele também foi a primeira vez que concorreu, alguém lhe deve ter dito “eh pá, leva o Pedro, se calhar levas mais uns votos” e ganhámos por 60 votos ou 66. Foi apresentado primeiro o Arnaldo na televisão como ganhador e, no fim, deram a volta outra vez, faltava a freguesia de Assentis, e tudo isso faz parte da vida. Foi isso que me deu um gozo enorme. Depois comecei a gostar muito de contactar com as juntas de freguesia, com a população, passei por vereador da cultura, passei por tudo o que era coletividades, que era realmente também… tive sempre a parte financeira. Há 32 anos que eu tenho a parte financeira.
Há dois pelouros que eu nunca deixei, a parte financeira e a parte social, nunca deixei em 32 anos. Por isso, senti-me sempre muito à vontade. Entrei há 32 anos para a Câmara, a contabilidade até era diferente… hoje é praticamente igual, a contabilidade pública e a contabilidade das empresas, podem-lhe dar um nome diferente, uma sigla qualquer, mas é muito igual. Eu era técnico de contas, portanto, só tive que me encaixar da melhor maneira, com grandes professores e professoras que tenho tido nesta casa. Normalmente o funcionário público é maltratado, a imagem é que fazem pouco e levam o dinheiro do povo. Não é assim, há gente boa e má em todo o lado. Há malta que adormece e há outros que não adormecem, que levam trabalho para casa e que ainda fazem mais do que fazem durante o dia. Identifico-os todos, hoje a Câmara tem 600 e tal funcionários e tenho orgulho e a consciência de como é que eles funcionam. Olho para eles e já os conheço e trato-os todos bem, mas também conheço as limitações de cada um e algumas limitações também naturais. Todas as câmaras têm funcionários e a própria lei prevê e eu acho bem que são limitados, mas têm o direito também ao trabalho e eu também os conheço, também colaboro com eles e aceito-os como outros qualquer.
A Câmara tem crescido, esta Câmara tem crescido imenso dentro das câmaras do distrito de Santarém. Há situações que me orgulham imenso. Deve ser dos municípios com menor índice de desemprego, deve ser, em termos de IMT, em termos financeiros, um dos mais equilibrados e pronto, isto faz o equilíbrio das coisas e a possibilidade de fazer coisas e muitas coisas se fizeram, como é óbvio e hoje é um grande concelho, como grandes concelhos que estão no Médio Tejo, aplaudo-os a todos e boa vizinhança, que não havia há 32 anos, quando eu entrei. Longe, qual comunidade intermunicipal? Olha, aquele tem uma piscina, eu tenho que fazer uma piscina, olha aquele tem um pavilhão, eu quero um pavilhão… hoje também olhamos para quem tem e o que não temos também queremos ter, mas já não é a jogar à chapada, nem em termos públicos como é a vossa função de… chegou mesmo a haver afrontas escritas de porque é que aquele e porque é que o outro…. Não, hoje a Comunidade intermunicipal não funciona assim e ainda bem que não funciona assim. Somos grandes amigos, independentemente das cores políticas, quais cores políticas… eu fiquei imensamente satisfeito, merecidamente o Vasco Estrela vai para a CCDR, porque estes lugares de quem passou… estou-me a lembrar de outro, não é da CIM, mas o de Faro, o Rogério Bacalhau, que vai tomar conta das Águas do Algarve e que é meu colega na Associação Nacional de Municípios… palmas, porque são pessoas que fizeram o seu trajeto, a passar pelas autarquias. Não são aqueles jotas e com todo o respeito pelos jotas, falam sempre nos jotas, há jotas bons e outros assim assim, mas os jotas podem ser todos bons e devem ser todos bons, mas têm que fazer o seu trajeto de infantaria, palmilhar os terrenos lamacentos e difíceis de de ultrapassar para serem jotas valentes no futuro.

Foi 20 anos vice-presidente, conhece este concelho como poucos. Está a cumprir o seu terceiro e último mandato, portanto, soma mais 12 anos como presidente. Sendo natural de Torres Novas, ser eleito pelos seus e desenvolver este trabalho no município é motivo de orgulho e de satisfação para si? Porque fala muitas vezes em equipa, do trabalho da equipa, mas com certeza ser presidente da Câmara é também, muitas vezes, isolado…
Muitas horas de pensamento, muitas horas sozinho, quando digo sozinho, porque cada um de nós temos seus momentos sozinho, é óbvio. A maior fortaleza de qualquer presidente de Câmara, tenho a certeza, são as convicções que ele próprio tenha e a defesa dos valores que entende valorizar. Eu nunca fui chateado para casa com nenhum dos meus vereadores. Ralhamos, por vezes, levanto a voz, por vezes, mas, no fim, corre sempre tudo bem. Por isso é que tenho de agradecer a eles essa disciplina sem desvirtualizarem a personalidade de cada um, mas reconhecerem que a última palavra é minha e que se o presidente pensa assim, mesmo que eu não concorde muito, é porque ele tem lá as suas razões. Eu tenho tido sempre essa manta quente em cima dos ombros, o que me dá uma satisfação enorme e nunca os esquecerei, desejo o melhor da vida para eles todos, todos os que já passaram.
Mas ser presidente da Câmara é também, muitas vezes, estar isolado, apesar de toda a envolvência da comunidade?
Claro que sim, não é fácil, nem sempre é fácil, mas também há muitos momentos de alegria, de júbilo e de muita satisfação, de sentido de dever cumprido e isso alimenta a alma e quando se alimenta a alma, quando sentimos essa fortaleza, venha quem vier, não nos derrubam.
Sente que o concelho está melhor depois do seu trabalho? As populações têm melhor qualidade de vida? Qual foi a primeira grande empreitada que decidir encetar, quando foi eleito há 12 anos?
O concelho está muito melhor, anos luz, desde nos primeiros 20 anos. Aí ficou logo muito melhor. Estes últimos 12 anos tem vindo a melhorar também… Quanto à empreitada, antes de dizer qualquer empreitada, dizer que no outro dia, por outras vias, respondi a uma coisa relativamente parecida… Para mim é muito difícil distinguir entre o que é a maior empreitada ou a maior componente social, que não que não tem cimento e que é importante ou mais importante que muitas empreitadas.
Empreitadas obviamente que embelezam, que proporcionam espaços para seja o que for, mas o nosso partido fez um trabalho nestes 12 anos que a par de grandes obras que fizemos e que podemos falar nelas, capricharam em coisas que não tinham sido nos 20 anos anteriores.
Aumentar os subsídios às Juntas de Freguesia, por exemplo, que eram muito apagadas e começaram a ter valores mais significativos para, nas suas freguesias, desenvolverem atividades que nem sonhávamos, mas que eram importantes para eles. Retomámos, porque estavam parados por não haver dinheiro, tudo o que é coletividade. Expandimos as coletividades, através de subsídios às bandas, às partes desportivas, aos ranchos folclóricos. Estavam todos a morrer, não tinham subsídios mensais, nem para pagar ao mestre, nem para pagar ao treinador do Futsal, nem para outras coisas. Enriquecermos toda essa parte e para as IPSS a mesma coisa. Anos-luz o que era dado de apoio e depois o que demos.
Portanto, houve sempre uma… aos bombeiros, a proteção civil, nós estamos começámos a subsidiar a corporação dos bombeiros de Torres Novas em 500.000 euros por ano, nunca tinha acontecido uma verba destas, mas também estão melhor apetrechados, têm uma parte do quartel novo que fomos nós, a parte não comparticipada, que comparticipámos. Depois apostámos em zonas que estavam lúgubres na cidade, como o parque Almonda. Aquilo até parecia mal, na cidade para Torres Novas, junto ao mercado estar como estava. Hoje está uma zona lindíssima, aprazível, que as pessoas utilizam com as crianças, com as bicicletas, com tudo e mais alguma coisa.

Portanto, tudo o que eram zonas verdes, tínhamos uma obra parada, que era a Zona Industrial de Riachos. Hoje é digna de ser vista, foi ampliada, está melhorada em termos de infraestruturas, temos gente a querer concorrer para lá.
A parte da saúde estava coxa, hoje temos a USF Cardilium a desenvolver-se junto ao hospital, entrámos no projeto Bata Branca e acabou a discussão em Assentiz, acabou a discussão na Brogueira. Nós olhamos para a televisão e eu tenho pena que o país esteja a sofrer como está, a nível da saúde, mas as notícias que saem diariamente sobre a saúde e a questão, sobretudo, dos médicos de família, e espero que isto nunca venha a acontecer outra vez, mas em Torres Novas ninguém fala da falta de médicos de família. Ainda não estão todos os que queríamos, mas está garantido, freguesia a freguesia, a questão dos médicos de família.
Mas não tem sido um processo fácil…
Não tem sido. Mas agora está estável e sobretudo desde que as ULS substituíram os centros de saúde.
Ao nível do saneamento básico, qual é a taxa percentual?
O saneamento básico, neste momento deve estar nos 75%. Portanto, em 2011, ainda dentro dos 20 anos que falámos há pouco, aderimos às Águas do Ribatejo. Foi a salvação da pátria, como se costuma dizer. As Águas do Ribatejo é a única empresa intermunicipal com capital 100% público, a nível das águas, não há mais nenhuma, é a única a nível nacional…
As Águas do Ribatejo estavam coxas, em termos de número de contadores, para terem sustentabilidade da receita e foi a adesão de Torres Novas, que foi o último a entrar e é o único do Médio Tejo, que conseguiu dar a sustentabilidade que era preciso para equilibrar o barco. A partir daí, até agora, as Águas do Ribatejo em termos de água e saneamento, já investiram talvez mais de 40 milhões de euros, que a Câmara de Torres Novas não tinha capacidade para investir.
Hoje, em termos de águas, direi que estamos a 100%. Em termos de saneamento, falta-nos sobretudo alguns focos, tirando um foco ou outro que a própria Comunidade Europeia põe em causa… por exemplo, onde é mais difícil chegar a água e estão lá meia dúzia de pessoas a residir, uma fossa séptica bem gerida, resolve o problema na mesma, desde que tenham água.
Portanto, a zona que eu não vou conseguir ver realizada até ao final do meu mandato, mas que está em vias de ser iniciada, é a parte a parte sul do concelho, nomeadamente Parceiros de Igreja, Liteiros e Parceiros de São João. É a zona que ainda falta, porque ainda são uns milhões que vão ser necessários e tem havido a estratégia, da parte das Águas do Ribatejo, de procurar também arranjar respostas em fundo comunitários, candidaturas e tem conseguido.
Mas foi um bem e todos os torrejanos se devem orgulhar as Águas do Ribatejo. A Câmara de Torres Novas tem 25% do capital das Águas do Ribatejo e não pôs em dinheiro. As Águas do Ribatejo receberam fundos que a Câmara tinha, equipamentos que a Câmara tinha, alguns até os devolveram novamente à Câmara, porque houve opção pelas Águas de Castelo de Bode, pela EPAL, que já vêm meio tratadas e acabam por se traduzir em uma forma mais barata para as Águas do Ribatejo, completando o tratamento e mesmo assim atingimos 99,5% por cento de qualidade de água em tudo o que é Águas do Ribatejo, o que é muito bom, é um espetáculo.

Torres Novas tem sido governado quase sempre pelo PS, com exceção de dois mandatos, em 85 e 89, em que venceu o PSD, desde que há eleições livres. Há alguma explicação para estas vitórias consecutivas dos socialistas? Em 2025 como será? Acredita que será o candidato anunciado do PS, José Trincão Marques, vai vencer as eleições e suceder-lhe no cargo? Como o define?
Eu começo pelo fim. Tenho uma grande esperança, mas uma grande convicção, que o Trincão Marques vai ganhar as eleições por dois motivos. Ele já deu provas como Presidente da Assembleia Municipal, já deu provas como cidadão, deu provas como homem ligado às coletividades a nível do desporto, foi um grande praticante de desporto a nível da natação, sobretudo, do polo. É um nome mais do que conhecido em termos de Torres Novas, já o pai era. Portanto, estamos a falar de uma figura de prestígio em termos de Torres Novas e depois recebe um legado que só quer é continuidade. Damos provas, demos provas, até ao último minuto deste mandato vamos dar provas… Portanto, as pessoas de Torres Novas, de pais para filhos, de avós para netos, já se aperceberam do que o Partido Socialista tem vindo a fazer, caso contrário não vinham consecutivamente a apostar no Partido Socialista.
À parte disto, vale o que vale, mas é um sinal… é um bocadinho mais arriscado o que vou dizer, mas tenho que o dizer. Nas últimas eleições governamentais em Torres Novas e não tinha nada a ver com a Câmara, ganhou o PS. Fugiu à regra a nível nacional. Isto vale o que vale para as autárquicas, mas alguma coisa se calhar também poderá valer.
Nestes três mandatos como presidente de Câmara, 12 anos, portanto, qual foi a maior dificuldade e aquilo que mais o marcou pela positiva? E como foi lidar com a oposição neste mandato, nomeadamente com o anterior presidente de Câmara, António Rodrigues, que havia sido eleito pelo PS e concorreu contra si por um movimento independente?
É um bocado anómalo o que eu vou dizer, mas é o que sinto mesmo. Eu não tive dificuldades de trabalhar com a oposição, passando pela CDU, pelo Bloco de Esquerda, pelo PSD. Nunca tive problemas nenhuns daqueles de levantar a voz, de me exaltar… Não, sinceramente não tive. Não sei se é por ter alguma experiência de vida com essas pessoas, até antes de vir para a Câmara, para a maior parte delas, não sei se teve influencia ou não. Nunca fui maltratado por eles, a discussão política é discussão política, uma ideia contra outra ideia.
Agora, em relação ao movimento e sobretudo a figura de António Rodrigues. A figura de António Rodrigues, não tenho problema nenhum de relacionamento pessoal com António Rodrigues. A figura que ele teve contra o partido, eu até acho que foi quase mais pessoal do que em relação ao partido. Quem sai de uma presidência, como eu vou sair, se calhar vou ver coisas mais bem feitas do que eu fiz, vou ver outras piores do que eu fiz. Depois é uma questão de feitio de cada um, ninguém me vai ler ou ouvir a criticar severamente como o António Rodrigues me criticou. Mas o António Rodrigues, quem o conhece como eu conheço, quase como de família. Eu nasci primeiro que ele, ele nasceu na minha rua, ainda me lembro dele de calções, sou um bocadinho mais velho. Portanto, eu conheço o feitio dele como ninguém. Até durante 20 anos também não foi fácil, no sentido de não ser fácil para algumas pessoas adaptarem-se ao feitio dele e eu 20 anos que me adaptei ao feitio dele. Ele tem muitas coisas positivas, é muito inteligente, tem muita criatividade… a forma como trabalha as coisas nem sempre caem da melhor maneira.
Para mim, e desejando-lhe o melhor do mundo para ele e para a família dele, ele sabe que é verdade, que eu sinto isso, e com um abraço para ele, a coisa que mais me chocou e já lhe disse pessoalmente, foi o slogan que ele pôs na campanha dele. Uma coisa era ele criar o movimento e avançar com ele, quando ele pôs “Um presidente a sério”, pôs em causa a minha figura e isso não fui só eu, foi a minha família que também não gostou nada de ver.

Nestes três mandatos, embora o último ainda não tenha terminado, qual foi a maior dificuldade, o momento mais difícil e qual é que foi aquele que mais o marcou pela positiva?
A maior dificuldade foi logo no princípio do mandato, foi o conciliar eu presidente de Câmara e o António Rodrigues, presidente da Assembleia Municipal, que ele acabou por sair. (…) Ele não percebia atitudes ou deliberações que tomávamos e que ele se calhar tomaria outras, mas há diferença… eu estava como presidente de Câmara e ele como presidente a Assembleia Municipal. Acabou por tomar a iniciativa de sair.
O mais positivo foi estabilizar as finanças da Câmara, a tesouraria da Câmara. Tinha recebido cerca de 40 milhões de euros de dívida e com limitações da parte do Tribunal de Contas e da Inspeção de Finanças e ter conseguido ultrapassar… Condicionava tudo, qualquer gesto, qualquer passo que a Câmara quisesse avançar, em termos financeiros estava muito condicionado. Hoje conseguimos pagar no mínimo espaço de tempo possível, portanto, nos prazos absolutamente normais. Temos servido como referência no Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses, Torres Novas está sempre bem colocado, nunca está dentro dos 35 piores em qualquer coisa. Por isso foi sem dúvida nenhuma… porque sem isso nada se fazia, reconheço que essa foi a parte mais positiva que eu tenho que reconhecer, que foi precisamente o equilíbrio financeiro do município.
Deixa uma boa herança financeira?
Deixo, não deixo dinheiro a prazo, mas deixo, dentro da lei do cumprimento de prazos de pagamento da LCPA, que desde que seja cumprida, não temos restrições em determinados limites, que tinha que ser pedida autorização para se conseguirem alguns contratos.
Este último orçamento foi o maior de todos, em 32 anos, é de 59 milhões de euros, quase 60 milhões de euros. Uma grande componente é do PRR e dos fundos comunitários, portanto, não é isso que vai agravar situação nenhuma da Câmara. Não vou conseguir, mas também não me incomoda, inaugurar obras que vão ser iniciadas este ano, mas que elas se desenvolvam para ter alegria de as ver a desenvolver e vou ver, se Deus quiser. Portanto, o presidente que vier a seguir vai encontrar a Câmara absolutamente tranquila para, com regras, assim a Europa não se complique mais, assim o Governo não ponha mais restrições e que os governos que sucederem, que cumpram a lei das Finanças Locais, que ainda está longe de ser cumprida e que está mais do que provado que a administração local, quer Juntas de Freguesia, quer as Câmaras, os municípios, a gerem muito melhor, com mais equilíbrio, do que os próprios governos. Digo isto à-vontade porque está mais do que provado. Portanto, que qualquer governo continue a apostar em aumentar os financiamentos para as câmaras, porque elas sabem gerir bem o seu território, sabem gerir melhor o país.

Há 12 anos herdou uma situação difícil, mas o senhor era o responsável pelas contas, pela economia.
Os primeiros 20 anos tiveram desafios feitos pelos próprios governos à época, que levaram muitos municípios a entrar nessa decadência financeira, porque incentivavam mesmo, por causa dos fundos comunitários, a entrarem em financiamentos e empréstimos, que depois foi muito difícil de cumprir. Sobretudo o cumprirem com os fornecedores, era um bate à porta quase diário, de empresários, por todo o país não era só aqui em Torres Novas, mas foi fruto também disso. Não é para culpar ninguém em especial, mas também foi uma época do país com grandes obras, é verdade, hoje era impensável serem possíveis fazer… estou-me a lembrar aqui do Palácio dos Desportos, de grandes apostas que se fizeram. Hoje era muito complicado, mesmo as CCDR, as exigências que faziam em termos documentais, não têm nada a ver com o que pedem hoje.
Enquanto era vice-presidente, se fosse presidente se calhar não se faziam…
Se fosse presidente, não sei. Porque como digo, vi aprovações de obras em termos de fundos comunitários que hoje era impossível, com alguma fragilidade de serem aceites. Mas ainda bem que foram feitas e ainda bem que se conseguiu pagar. Eu não aponto muito… só não posso é esconder que tive essa dificuldade no início de mandato, como é óbvio. Nesse endividamento, obviamente que não está só a Câmara, também estão assembleias municipais que aprovaram empréstimos, que aprovaram relatórios, que aprovaram muita coisa.
Qual é a herança de que se orgulha? Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?
Uma obra de que me orgulho, parece que não é importante, mas eu vou ter que referir esta como grande exemplo. A cidade está toda melhorada, está rejuvenescida, uma das heranças que recebi, porque era impossível também entrar-se na reabilitação com tanta força, foi o centro histórico da cidade, o casco histórico da cidade. Estamos a falar de 600 e tal habitações que, por toda a cidade, deixavam ali um casco negro, com desalento para viver, com falta de investimento para recuperar. Foi uma das promessas que fiz a mim mesmo, que fiz à população de Torres Novas, foi olhar para o centro histórico e olhámos. Hoje vai-se ao centro histórico de Torres Novas vão se lá encontrar mazelas, casas velhas, mas vai-se encontrar também muita reabilitação que foi feita não só pela Câmara, como a grande aposta de privados. Tem havido muito investimento na recuperação de casas velhas, compras, vendas, o IMT tem sido uma fonte de receita formidável para as finanças da Câmara. Iniciámos o ano, para lá do que recebemos em 2024 do IMT, começámos em janeiro a foi uma boa prenda de anos que eu tive, 600 mil euros para as finanças da Câmara.
Tudo isto reflete, em termos de IMT, muito investimento de privados em Torres Novas e a habitação, agarrámo-nos logo questão da Estratégia Local de Habitação por todo o concelho, não só aqui há na cidade sobretudo, mas também quer com rendas controladas, rendas acessíveis, quer com casa própria nas Lapas, no Pedrógão, na Meia Via e aqui na cidade.
Mas no meio da cidade há um cantinho, que se calhar nem vocês conhecem, que era chamado o Bairro dos Pobres. Que é desde a zona alta da cidade, perto do café Planalto, depois há uma zona muito antiga, histórica, que é calçada António Nunes, que vai dar ao centro histórico da cidade. Ao lado direito, no meu tempo de escola primária, vinham colegas meus da escola primária descalços. Era o bairro dos pobres, em 1950 e carqueja ou 1960. Foi e é um orgulho para mim enorme ter retirado de lá as famílias que estavam, descendentes desse meu tempo, filhos, sobrinhos, netos, que saíram de lá e que estão neste momento em casas que a Câmara está a pagar rendas até a obra estar pronta. A obra está pronta, até março fica concluída e vai ser um orgulho enorme, com a lágrima no olho, que eu vou entregar as chaves de novo, àquelas famílias, mas com casinhas bonitas e é o Bairro da Calçada António Nunes. Acabou o Bairro dos Pobres.

Essa é a herança de que se orgulha. Que obra gostaria de ter realizado e que por algum motivo não conseguiu realizar?
Tenho pena de não conseguir realizar a reabilitação do CIGA – Centro de Interpretação das Grutas do Almonda, no vale da Serra, mas está bem encaminhado, através do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, através de candidaturas, quero acreditar que aquilo vai ser reabilitado.
Há sempre muita coisa que fica… tenho pena da zona industrial da Zibreira, embora esteja a contribuir para ela, mas de não a ver já realizada, de não de não ter concretizado ainda, mas está no bom caminho, o entendimento com os proprietários. Está o Plano de Pormenor a decorrer da Zona Industrial da Zibreira, não dito pelo presidente Pedro Ferreira, mas dito pelos presidentes de outras entidades, que é o melhor centro do país para desenvolver qualquer zona industrial, por causa das autoestradas, da A1, A23, A15, A13. A zona industrial da Zibreira – Videla, que temos um protocolo com Alcanena, são muitos hectares que vão ficar ali absolutamente disponíveis… e então o estrangeiro agora cada vez se quer implantar mais, estrangeiro ou português. Já agora, dizer que estamos ansiosos que tudo se concretize, porque até temos uma fábrica de pastelaria de grande escala. Espero que se concretize, que é uma fábrica de pastéis de nata. Há muita coisa que não vou ver, mas vou ver iniciada… o estádio, a pista de tartan…
Torres Novas é uma das cidades referência no Médio Tejo, com um forte cunho identitário, histórico e patrimonial, sendo que o concelho de Torres Novas remonta ao princípio da nacionalidade. Aliás, foi aqui, na gruta da Aroeira, que foram encontrados os vestígios humanos mais antigos de Portugal, nomeadamente um crânio com 400 000 anos de idade. Como é que Torres Novas aproveita e tem desenvolvido esta riqueza histórica, cultural e também turística?
Nós aproveitámos e foi uma grande obra que convido toda a gente a visitar, porque vale a pena e é onde está o crânio, que é a nossa Casa Alvarenga, como chamamos, encostado à antiga Câmara. Foi um edifício que adaptámos depois de nos ter sido oferecido por um particular, por isso é que é a Casa Alvarenga, que foi a família Alvarenga que nos cedeu e que depois nós, através de fundos comunitários, transformámos em museu, mas um museu muito específico relacionado com a história de Torres Novas e por isso, retirámos uma componente que estava no museu mais antigo, o museu Carlos Reis e que passámos para ali. Tem recebido muitos visitantes e, portanto, onde é que eu quero chegar? Temos, através desse museu, da promoção a todos os níveis e de associações que fazemos parte a nível nacional e internacional, tentado promover o nosso território, não só através da Casa Alvarenga, mas também das ruínas [Vila Cardílio] que tiveram, em termos de área, uma reabilitação.

O castelo vai levar a intervenções, ainda comigo na Câmara vai ser lançada a obra, dentro do quarteirão cultural como nós chamamos para várias obras, que é uma ligação desde a parte baixa da cidade, do casco histórico, até ao castelo, junto à Praça Claras até ao castelo. Nós comprámos o terreno que vai até ao castelo e vai levar aí uma escadaria de um arquiteto muito conhecido a nível nacional e que vai, com alguns predicados e valor histórico, organizar a escadaria até ao castelo. Assim como vai levar também, para maior acessibilidade, dois elevadores, um desde a Praça 5 de Outubro para o Castelo e outro do lado da biblioteca (…). Um elevador disfarçado, que não choca com a arquitetura do castelo e que permite uma utilização completamente diferente do castelo, com algumas torres ativas, com as novas modernices da parte tecnológica, para as pessoas se identificarem com as com a história de Torres Novas.
A história de Torres Novas é riquíssima, nunca vai parar, onde há umas escavadela na cidade de Torres Novas aparece qualquer coisa, como um soldado de Napoleão que lá ficou, ou outra coisa qualquer, como aconteceu com as obras da Praça do Peixe que apareceram um resto mortal de um de um soldado de um batalhão de Napoleão, do exército 119, se não estou em erro.

E o turismo, o concelho tem sabido posicionar-se em termos turísticos, designadamente no que toca ao castelo da cidade, à Vila Cardílio, com o seu passado romano, gruta da Lapa, Museus, a Casa Memorial Humberto Delgado? E como é gerir todo o património natural, como o rio Almonda, o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, a Reserva Natural do Paul do Boquilobo ou o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, onde foram recentemente anunciadas novas descobertas?
A Gruta das Lapas única, se calhar até na Europa segundo sei, porque foi provocada pelo homem. Portanto, não há tão translucidamente o histórico daquelas grutas, mas sabemos que o tufo, o terreno das lapas proporcionou, se calhar, umas minas para se ir lá buscar material para as paredes das casas ou para outra coisa qualquer. Portanto, por isso é que temos aqui as tufeiras, o bairro das tufeiras em Torres Novas e a caminho das lapas também há vestígio disso.
A Gruta das Lapas, há muitos anos que a Câmara… hoje já tem alguém mais fidelizado, mais profissionalmente ligado às grutas e a Câmara paga a pessoas e tem também lá funcionários, durante vários horários, para as pessoas visitarem. Houve reabilitação, tem quadros eletrónicos, que fazem o histórico das coisas… os alunos das escolas e não só vão lá muito, é uma coisa muito invulgar e, portanto, essa parte é gerida 100% pela Câmara.

Quanto à Gruta da Bugalheira, a Gruta da Oliveira, às Grutas do Almonda, portanto, isso tem uma supervisão que é distribuída entre a Câmara, a STEA – Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia e também a nível do património nacional, do Ministério da Cultura e tem funcionado bem. Portanto, para visitar, só com autorização e acompanhados… também pela perigosidade, que aquilo não é só para defender o património, porque o histórico das grutas portuguesas, quando há muitos anos atrás as pessoas iam lá “ai que coisa tão bonita, parece um Santo António” e cortavam uma estalactite. “Olha, ali não sei o quê” e partiam aquilo tudo. Também nem se preocupavam com o facto de haver determinadas zonas húmidas, que se for lá uma grande concentração de pessoas, acabam por deixar de ser tão húmido assim e prejudica.
Portanto, agora tenho que começar a entrar no Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros. Os parques naturais e os monumentos classificados começaram a ter um órgão de gestão, ainda bem e esse órgão de gestão a abrange todos os municípios que estejam abrangidos por esses parques naturais. O Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros tem Torres Novas, tem Alcanena, Batalha, tem Rio Maior, tem Ourém, tem uma série deles… Tem um presidente eleito por todos, que é o Rui Anastácio, de Alcanena e, portanto, temos andado a candidatar-nos também a fundos comunitários e temos um projeto que já foi apresentado, para desenvolvermos e tirarmos partido de fundos comunitários. Onde está o Centro das Grutas do Almonda, que eu espero que venha a ser beneficiado também, certamente será.
Paul do Boquilobo, primeiro começámos a desenvolver só com a Câmara de Torres Novas. Houve um período em que a Câmara de Torres Novas fazia umas coisas, a Câmara da Golegã fazia outras e aquilo andava ali de mãos dadas. Agora não, agora temos também uma comissão de gestão, sou eu o presidente por acaso, com a Câmara de Torres Novas, Golegã e uma série de associações e de privados que têm lá terrenos, etc e também desenvolvemos da melhor maneira possível. Temos também um plano estratégico em desenvolvimento, eu direi que quer o plano da Serra de Aire e Candeeiros, quer do Boquilobo é, independentemente agora das deliberações ou também dos resultados das próximas eleições, estão assegurados. O ótimo é inimigo do bom, não se vai conseguir fazer tudo o que queria, mas tem havido coisinhas. A Câmara da Golegã às vezes consegue uns dinheiros e avança com uma coisa, em conjugação com Torres Novas, Torres Novas também faz e está melhor.
Além dos protestos de populares pela vedação e corte do acesso à nascente do Almonda, por parte da Renova, da poluição de uma fábrica em Parceiros de Igreja, com revolta popular, e de um longo processo de poluição causado pela Fabrióleo, Torres Novas foi confrontada recentemente com um grave episódio de poluição no rio Almonda. Como tem sido gerir estes processos?
Começo por dizer que o rio Almonda está bom e recomenda-se. Eu sou do tempo, como diria o outro, em que o rio Almonda mudava de cor todos os dias. Ou era pela fábrica da Renova ou era pela fábrica e sobretudo pela fábrica do álcool das Lapas, pela fábrica de papel também da Ribeira, que havia uma fábrica de cartão… estou a falar naquela época.
Tudo se transformou, felizmente, nos últimos 40 anos, tudo se transformou para melhor. O que é que acontece? Acontecem episódios, que a própria lei uns contempla e outros não. Os episódios da fábrica da Renova, quando surge qualquer avaria e a lei prevê, acontecem por vezes descargas. Histórico até agora da parte da Renova, de imediato ou nos dias a seguir, conseguem resolver o problema, voltar à normalidade e voltou à normalidade.
Fabrióleo completamente diferente. A Fabrióleo foi durante muitos anos e quem o diz é não é o Pedro Ferreira, é a GNR, Agência Portuguesa de Ambiente etc, que foi a extremos de contaminar as águas do Almonda. Teve um processo judicial, financeiro, fosse o que fosse e fechou, acabou. A Agência Portuguesa de Ambiente, tomou conta da situação e, ao tomar conta da situação, pediu a colaboração da Câmara para servir, desculpem a expressão, de barriga de aluguer. Com dinheiro da APA, fazer o despejo dos resíduos tóxicos e a Câmara fez o seu papel. A APA atribuiu 750.000 euros, que foi o orçamento dado na altura para despejar os depósitos que lá estavam, e a ETAR conseguiu com os 750.000, conseguiu despejar e retirarem-se os depósitos e ainda ficou metade da ETAR por limpar, chamavam-lhe a piscina olímpica. Nós já pedimos várias vezes reuniões com a APA para nos dizerem o que é que vão fazer a seguir. Mas portanto, a Fabrióleo parou com o que estava a fazer, já não é problema neste momento, nem de cheiros. Já não é problema a não ser a despejar o que lá está, porque não está a fabricar nada.

A outra era a de Parceiros de Igreja, isso aí mais complexo. Tivemos que seguir os passos normais do urbanismo, do ambiente, com visitas várias, com fiscalização também da APA e não só, ao ponto de mandar encerrar a fábrica. Sabemos que a fábrica, do que vem chegando, que estão a tentar resolver o problema. Enquanto estão e não estão, já houve um ofício para eles para pararem a atividade. Portanto, onde é que eu quero chegar? Estamos a falar de situações que, muito bem, a população alertou, a população queixosa e sofredora, que está mais perto do acontecimento, mas que neste momento, à exceção da fábrica de Parceiros de Igreja, temos situações resolvidas.
Amanhã não sei, porque a fábrica da Renova, como componente positiva e acho que toda a população de Torres Novas reconhece, é fator económico que tem contribuído para o concelho ao longo da sua existência. Quase que me apetece dizer que não há um familiar de alguém torrejano que não tivesse passado pela Renova ou perto disso. Estamos a falar de mil e tal trabalhadores e de um grande impacto mundial que tem a Renova, se consegue controlar, até porque já fez uma fábrica fora da zona velha, mais perto do rio e onde a administração da fábrica reconhece, porque é gente nova, reconhece o passado histórico negativo da própria fábrica. E por reconhecer, estão a preparar a fábrica velha apenas para ser um local de visita e museológico, para ser visitado e até mesmo, porque eu já lá estive, quase encostar a mão à nascente do rio Almonda. Termina num varandim mesmo perto da nascente. Nós sabemos que a fábrica da Renova também sabe trabalhar muito bem o marketing e a forma de, culturalmente até e os apoios que dá e sociais, de chegar lá. Não quero acreditar, não quero mesmo, que vão borrar a pintura da nova imagem que têm criado. Estes episódios, que estão licenciados pela APA, licenciados pela parte ambiental e que às vezes falham, porque até nas nossas casas, às vezes a coisa corre mal… qualquer tubo que entope ou outra coisa qualquer. Hoje tenho a consciência tranquila e por acaso foi nos meus mandatos que as Águas do Ribatejo, sobretudo a nível da cidade, conseguiram pôr o rio como está hoje, apetece mergulhar e está tudo bem.
O acesso à nascente do Almonda está vedado pela empresa…
Está vedado pela empresa, segundo o que assumiu com o Presidente da Assembleia Municipal e comigo ainda há muito pouco tempo, foi melhorar a vedação, tornando-a pelo menos mais bonita, mas não deixando de impedir que as pessoas entrem na zona que é considerada perigosa. Eu, enquanto escuteiro já mais velhote, era espeleólogo lá, na patrulha morcego. Na zona da Casa Alvarenga, onde está o crânio e onde estão várias escavações, há lá um caderninho feito à unha, porque eu não tinha computador naquela época, feito por mim. Portanto, conheço as Grutas do Almonda por dentro como poucas pessoas conhecem, algumas até pela primeira vez. Antigamente havia os documentários antes de qualquer filme que íamos ver ao cinema. Como havia pouca criatividade ou poucos documentários para apresentar antes do dos filmes, era sempre a Amazónia. Eu lembro-me perfeitamente de ouvir uma voz off, em brasileiro dizer: “eis a Amazónia, onde o homem jamais pôs o pé”. Pois ali nós chegámos a pôr o pé e chegámos a dar nomes a algumas salas enormes, autênticas catedrais que existem na Gruta do Almonda. Tem 15km, até ao momento, de galerias.
A questão da nascente tem outro acesso, não é acesso único à nascente. Fora da fábrica, na parte alta, quem quiser ir observar a nascente pode ir à vontade, ninguém o proíbe. O que em termos da legislação me foi explicado é que, sendo terreno particular, tem que garantir um acesso com determinadas dimensões para casos de emergência ou por casos de visitação do ICNF ou de entidades públicas. Foi o que me foi dito, agora não sou legislador, nem jurista, não sei. Penso que não é com braços de ferro que se conquistam as coisas, ou que se resolvem as coisas com a entidades privadas, mas pronto.

Recentemente, ainda falando do ambiente, o Almonda teve um episódio de poluição grave, cerca de uma tonelada de peixes que morreu e o município decidiu cancelar todas as atividades lúdicas e de pesca no Almonda. Foi um episódio pontual, hoje pode dizer o que aconteceu?
Foi um episódio absolutamente pontual, localizado e que foi levado para a justiça. Houve intervenção da PSP, a quem competia também essa responsabilidade de averiguações, foi para o Ministério Público, veio o resultado do Ministério Público e foi transmitido à Câmara. Pedimos autorização para divulgar e divulgámos. Portanto, até ao momento não se conseguiu apurar quem é que terá sido, ficou provado que foi descarga… aquilo aconteceu numa zona de relativamente poucos metros de rio, entre o Açude Real aqui da cidade, onde está um barzinho e a Ponte do Raro, portanto, foi ali que aconteceu. Tirando redes particulares, até poucas, há um restaurante e por vezes falava-se nesse restaurante, mas ficou provado, em termos de Ministério Público, que as análises que fizeram que era impossível ser daquele espaço, até isso foi posto de parte. Portanto, o que aconteceu ali deve ter sido uma descarga brutal, indiscreta, em determinada hora do dia ou da noite, sobretudo da noite, de dia não foi de certeza e com um fenómeno também muito interessante, é que os peixes morreram só ali. O resto do rio não foi afetado e logo que foi limpa essa zona do rio, logo que tiraram essa cerca de tonelada de peixe do rio, os peixes continuaram… pediu-se autorização à delegação de saúde para se poder continuar à pesca, etc e hoje está liberto, foi autorizado.
Falámos de vários casos em termos do ambiente, mas a Câmara tem um vereador dedicado ao ambiente, que não tem mãos a medir, apoiado também pela população e por uma equipa. Há os guardiões do Almonda, há uma aposta do município em devolver o rio às pessoas e aproximar as pessoas do Almonda, com o corredor ecológico e uma série de projetos. O município tem desenvolvido um percurso gradual em termos de melhoria da qualidade do rio, das margens e é esta a aposta, é devolver o rio às pessoas?
Sim, sem dúvida. Nós estamos a finalizar um projeto para dar continuidade àquele passeio lindíssimo, que as pessoas já utilizam e queremos levar, a acompanhar o rio, até aos Riachos. Portanto, esse projeto está a ser feito, as indicações que tenho da APA é que finalizarmos o mais depressa possível o projeto, para o candidatar novamente, porque foi pago o anterior a 100% pela APA e fomos os primeiros a nível nacional a acabá-lo. Portanto, estamos bem pontuados para nos candidatarmos de novo e queremos continuar nesse percurso.
Isto só para dizer que a Gruta do Almonda é perigosa e a bacia da nascente é muito perigosa. Quem tiver dúvidas, que vá à internet e procure uma reportagem da SIC onde houve mergulhos nas zonas mais profundas, em termos de águas fluviais, é na Gruta do Almonda, quase 200 metros de profundidade e depois com os motores a puxar, pode ser perigoso.

Sendo perigoso, é natural que se faça alguma coisa para a segurança das pessoas que podem querer ir à nascente, visitar, usufruir. A questão que às vezes se coloca é se deve uma empresa ter esse direito a fazer isso, ou seria o município a ter de proteger a sua população, colocando uma vedação? Com a qualidade da água, com as margens requalificadas, era bom aproximar as pessoas do rio no verão, criar um espaço ou dois de praias fluviais, é ideia?
O termo praia fluvial às vezes é muito limitador pelas exigências que tem. O rio sempre serviu de praia, desde os meus primórdios. Muitos torrejanos aprenderam a nadar na Ribeira Branca ou no Choupal, como lhe chamamos, ou aqui dentro da cidade, na então vila, sempre aconteceu. Aliás, no percurso novo que criámos para as pessoas viverem o rio, há zonas onde já se vê pessoal também a nadar de vez em quando. Eu prefiro que o rio esteja limpo, que seja atrativo para as pessoas também usufruírem ele, a classificação de praia fluvial temos que ter os pés bem assentes no chão para corresponder aos parâmetros que são exigidos para uma praia fluvial. Agora temos muitos nichos de desafio, junto a moinhos d’água… “Alius-Munda” foi o primeiro nome do Almonda pelos romanos e queria dizer o pequeno Mondego. De vez em quando, há a prática de com as canoas fazerem a descida. Vêm pessoas de fora e sobretudo os dentro, acham maravilhoso o percurso do rio Almonda, com os seus túneis, com a sua água límpida. Há um filme espetacular do Carlos Lima de Riachos que nos mostra, para mim até foi alguma surpresa, a fauna do Almonda. Eu fico parvo a olhar para coisinhas que ele consegue filmar à noite. Portanto, temos ali também uma grande riqueza, não é por mero acaso que aparece no brasão de Torres Novas o rio também, é porque ele merece.
Torres Novas tem apostado muito na cultura, designadamente através da programação do Teatro Virgínia…
O Teatro Virgínia sempre foi uma referência em termos culturais, fora do vulgar e portanto, nós devemos apenas continuidade e começámos a descobrir que era uma referência nacional, isto já há uns anos, nacional e também internacional. Têm passado pelo Vírginia alguns espetáculos que conseguimos saber, por vezes até pela encomenda dos bilhetes, que há gente que vem de França ou de Espanha, que apostam e que vêm cá. Hoje o mundo é de todos e é perto para todos, consoante também a disponibilidade financeira de cada um. Foi uma grande aposta invulgar e no distrito de Santarém isso é seguro, não há como o teatro Virgínia. Tivemos grandes referências de programadores a passarem por aqui, foram grandes treinadores, foram Mourinhos ao nível da cultura que passaram por aqui, como o João Leite, como o Tiago Guedes… Saíram daqui e faz de conta que estiveram a treinar, um foi para Diretor-Geral das Artes, o outro foi para o Porto… Demos continuidade e hoje temos um orgulho enorme, que não nos sai barato, mas a cultura não tem que sair barata e que por ano, em termos orçamentais, só em programação, estamos a falar… também temos receita pelas pessoas que vêm e que compram, mas também disponibilizamos muitas vezes gratuitamente. É muito significativo no orçamento da Câmara, quer a nível da cultura, quer a nível do desporto.
Ao nível do desporto, há muita atividade associativa em todo o concelho e também a dinâmica desportiva é bastante forte. Tem um clube que vai assinalar o seu centenário este ano, o Clube Desportivo de Torres Novas, que utiliza o estádio municipal, que tem sido dotado e vai ser ainda reforçado com mais e melhores valências. O que é que destaca? Como é que vê a dinâmica associativa em termos desportivos?
Agora já não é só o Clube Desportivo, agora já lá temos outras associações também a praticar, sobretudo com o campo sintético etc. O Clube Desportivo pela antiguidade, o Clube de Ténis logo a seguir porque também já tem muitos anos, o Clube Natação a mesma coisa e depois apareceram outros até com alguma disputa salutar. A natação a natação e o triatlo dividiram-se, o futsal.
Em primeiro lugar, da parte da Câmara, apenas disponibilizar instalações e dar alguns subsídios de vez em quando ou anualmente, mas sobretudo agradecer sublinhadamente aos dirigentes, aos pais dos atletas, aos atletas, porque depois eles é que fazem o resto. Nós podíamos disponibilizar os espaços e estarem vazios de público, vazios de pessoas, não íamos a lado nenhum. Claro que nós também temos a noção que ao fazer obras e suportar a manutenção dessas obras, os relvados e iluminação, tudo e mais alguma coisa, obviamente que é o que nós temos a obrigação de fazer e com a esperança que tirem partido disso e têm tirado. Portanto, temos muitas coletividades, temos no total cerca de 130 e tal coletividades, não são todas desportivas, mas tem sido muito utilizado.
O nosso estádio, que já foi um grande emblema nacional numa altura e sobretudo no futebol, numa altura em que os clubes quando estavam castigados, tinham que escolher outro campo. Agora já não é bem assim, a não ser que estejam em obras, mas nessa altura tivemos aqui jogos do Benfica, do Sporting, do Porto, Boavista, porque entendiam que Torres Novas estava central e porque entendiam que tínhamos e temos um bom relvado e já agora um bom clima também, porque Torres Novas, não falámos nisso, é uma coisa que parece que passa despercebida, mas o microclima de Torres Novas tem nos ajudado muito em muita coisa. A Serra de Aire e todo o resto, até em termos de saúde. Parece ridículo o que eu estou a dizer, mas não é. Eu tenho tido, ao longo da vida, conhecimento de pessoas que viviam noutros concelhos a sofrerem de asma e que apostaram viver em Torres Novas, porque quando vinham cá visitar amigos e estavam aqui a passar alguns dias, por qualquer motivo, achavam estranho, não tinham problemas asmáticos. Alguma coisa se passa aqui, porque nós, por exemplo, os tempos rigorosos – frio e chuva -, em Fátima que está aqui a 20 minutos de caminho, passamos por lá e quase que o limpa para-brisas não pode parar para vermos alguma coisa, começamos a descer para Torres Novas e é completamente diferente.

A nível do desporto e sem querer desviar, pela prática desportiva, temos tido, não é sorte, é o espírito de sacrifício dos atletas. Temos campeões de tudo, temos campeões até de luta, de judo, de tudo e mais alguma coisa temos campeões aqui de Torres Novas ou que passarem por clubes de Torres Novas, como a Patrícia Sampaio. Treinadores bons, os irmãos do triatlo, de tudo… Claro que agora ficamos com uma grande responsabilidade porque eles vão aos Jogos Olímpicos outra vez. Já nos vieram pedir apoio à Câmara para ver se aumentamos um bocadinho, porque eles têm muita despesa. O vulgar cidadão nem imagina as deslocações que eles têm que fazer para participarem em provas competitivas. Eles também vão crescendo na idade, mas os pais também iam com eles, enfim.
Senhor presidente é gestor e economista, mas há aqui um investimento em vários setores, cultura, património, ambiente, desporto… Quando é preciso investe-se também para conseguir oferecer qualidade de vida nos vários setores. O objetivo pode estar aqui também subliminar. uma oferta de qualidade de vida a quem reside, mas também para a atração e fixação de jovens no território. Qual é que é a maior dificuldade quando se fala tanto da desertificação dos territórios ditos de interior, embora Torres Novas não seja propriamente um território de interior…
Tenho a certeza que se tivermos mais habitações disponíveis, que vai aumentar. Não temos perdido população, mas podemos aumentá-la. Estes investimentos contribuem imenso. A parte de haver condições de vida para qualquer jovem casal é importantíssima, até para os mais velhos, mas apostando nos jovens casais, o que é que estes procuram arranjando aqui um emprego? Que tenham resposta para os filhos e têm, que tenham resposta para os seus pais, porque chega a uma altura em que o pai está em Viseu e eles estão aqui, querem pôr o pai num lar e vai para um lar em Viseu e todos os fins de semana vão lá vê-lo? Se houver aqui resposta, obviamente que trazem o pai ou a mãe para aqui é… No fim, têm bons espetáculos no Virgínia, têm bons espaços desportivos, mesmo não estejam ligados a coletividade nenhuma, para praticar, para andarem a correr um bocadinho, para irem para o jardim e terem bons espaços verdes. Está tudo interligado para convidar as pessoas para virem para Torres Novas, como é óbvio.

A região do Médio Tejo tem recebido cada vez maior número de imigrantes. No seu concelho tem esses números, estão todos a trabalhar, em que áreas e qual é a sua leitura deste multiculturalismo?
Nós temos vários migrantes cá a trabalhar. Se me perguntar quantos são assim de repente, é difícil dizer, não arrisco. Reconheço que o maior número estará ligado ao Brasil, quase de certeza absoluta, com alguns focos particulares de, há alguns anos a esta parte, de nepaleses. Casos sociais, de rua, não temos tido… o que acontece a nível nacional e que aparece em flagrante a nível da dos telejornais, por enquanto não estamos a passar por isso. Ainda há pouco tempo, foi a semana passada, alguém nos alertou para um sem abrigo migrante. Eu pus a ação social em campo, porque a nossa rede social, que tem sido até premiada com a bandeira verde, foi um dos primeiros a nível nacional… nós estamos com a 14ª bandeira verde se não estou em erro. Funciona muito bem com as coletividades, ninguém faz nada sozinho. Nós temos uma rede social grande e se me disserem que há um sem abrigo na cidade, que há uma pessoa com fome, só por desconhecimento… porque se alguém lhe disser “vá ali à Câmara, fale com a com alguém da ação social”, nós mexemo-nos imediatamente e já temos resolvido várias situações. Por acaso com esse sem abrigo da semana passada não correu muito bem e não correu muito bem porquê? Porque há bom e mau em todo o lado. O sem abrigo estrangeiro, migrante, estava sinalizado na Azambuja, porque nós hoje temos logo a facilidade informática de chegar a quem geria o processo daquele imigrante e o histórico que recebemos da dirigente da Azambuja é que ele já tinha passado por 22 municípios, mas temos portugueses que também fazem o mesmo. Portanto não foi um… se calhar hoje já nem está cá, já vai para o 24º município, há pessoas que é um estilo de vida que adotam. Tirando isso, nós até ao momento não temos tido qualquer problema. Estamos a analisar um protocolo com a AIMA para eventualmente assinarmos, levar à Câmara e aderirmos a esse protocolo, em que o protocolo cria uma série de regras para os migrantes, para a sinalização dos migrantes, temos é que ter uma pessoa só a tratar disso. Portanto, se calhar tem que se criar um novo posto de trabalho e que saiba falar inglês.
A cidade é uma cidade segura, qual é que é a leitura que faz em termos de criminalidade?
Nós estamos a fazer um processo, como o nosso vizinho Entroncamento fez, de criar videovigilância. Já abrimos o processo com a PSP, porque hoje neste mundo o estar seguro, ninguém pode dizer isso… É uma cidade também com algum movimento noturno, que é outra característica interessante, atrativa, Torres Novas sempre teve esse sinal, recordo-me que a primeira chamada “boate” que houve no distrito foi aqui. Já lá vão muitos anos, agora já não existe… mas pronto, há as discotecas, há a centralidade e nem sempre corre bem. Às vezes há alguns excessos, mas quando pergunto à PSP o local… depois temos o privilégio de ter o posto da PSP, temos o posto da GNR, temos a Escola de Polícia, mas não se envolve nisso… mas quando pergunto à comandante da PSP os dados criminais estão, em relação ao resto do país, estão francamente positivos. Agora, nunca é como todos queríamos, às vezes há um barulho na rua, ali a rua Alexandre Herculano está mais perto das discotecas, a malta que sai e anda sempre na rua a fazer algum barulho. Quem precisa de trabalhar no noutro dia é um bocadinho incomodativo.
Mas não falamos de casos de assaltos, nem de criminalidade violenta, portanto não é isso que está em causa?
Não, são umas pinturas nas paredes, às vezes, enfim…

Estamos nos 50 anos do 25 de abril, uma data importante depois de 48 anos de ditadura, 50 anos em liberdade. Na região e também no país, alguns partidos tradicionais têm vindo a perder terreno e posição e terreno para alguns partidos mais extremistas, nomeadamente o PCP, Bloco de Esquerda, o CDS e a crescer o Chega. Que análise faz desta situação, nomeadamente aqui no concelho, mas também penso que a realidade será mais ou menos transversal a todo o país?
Eu vou dar uma fotografia muito particular e real da coisa, porque eu era tropa quando ocorreu o 25 de Abril. Eu estava em Santa Margarida, era sargento piquete na altura e acompanhei toda a revolução, as primeiras eleições, a ansiedade do povo português do que ia acontecer a seguir e do muito que aconteceu a seguir. No meio do muito que aconteceu a seguir, eu sei que também era difícil gerir as amplas liberdades e conseguir que todos tivessem o mesmo nível de vida. Enfim, nada é perfeito, mas continuo a achar e não sou eu o único e alguém muito mais sabedor do que eu em termos políticos e da vida, que em tempos disso que a democracia era a melhor de todas, mas que não resolveria todos os problemas, porque a democracia é assim mesmo. Eu acho que os partidos que agora surgem como salvadores da pátria pela imposição, quase com um chicote na mão, eu acho que não dará bom resultado e por isso eu creio que os partidos que tiveram, ao longo destes 50 anos a gerir Portugal, em todas as cores políticas houve falhas que não deviam ter acontecido e que eventualmente podem ter também aberto portas para que agora se aponte o dedo e se procure ultrapassar de outra maneira. Mas continuo a achar que a democracia que tenha a ver com fatores sociais, de igualdade, de equilíbrio, que é o que defendem, cada um à sua forma… há questões que são defendidas por todas, que é a questão da igualdade, igualdade de direitos, porque certamente todos merecem, todos querem que todos tenham igualdade de direitos e igualdade de deveres a mesma coisa e na busca das melhores soluções para o país…
Na busca das melhores soluções para o país, acho que os partidos extremistas de esquerda e extremistas de direita, não resolvem a situação do meu ponto de vista. Falta sempre um equilíbrio no meio e provocará sempre uma discussão e uma rebelião, um ad aeternum, quem não tiver a sensatez do equilíbrio.
