Parece que há pessoas que ainda vivem noutro tempo, muito pouco conscientes do mundo em que vivem…
Estás a falar dos infoexcluídos? Isso já nem é tema…
Não, estou a falar das pessoas que, alcançando um pequeno poder, acham que podem controlar os outros. Esquecem-se de duas pequenas coisas: os outros não se controlam facilmente e, mais importante, quem agora tem um certo poder (pequeno ou grande) provavelmente já não o tem daqui a algum tempo. O poder é uma coisa que, quase sempre, tem um horizonte temporal muito definido. E não faltam casos de gente que achava que ia ficar no poder muito tempo – e alguns até ficaram – mas que terminaram da pior maneira possível.
Sim, mas uma coisa é ter poder e saber exercê-lo, mesmo sem se ter um apoio generalizado. Outra coisa é ter um poder e ficar cego, surdo e mudo, não tendo a capacidade de afastamento sobre a situação, perdendo-se a noção do razoável.
Isso é o que para aí mais há. Vê lá como é que é possível um presidente de um clube de futebol apelar aos seus sócios para deixarem de ler jornais e de ver televisão. Quando se ouve isto a primeira vez até parece anedota. Dá vontade de voltar para trás para ver se ele disse mesmo aquilo, não vá ser um programa de humor. Depois vemos que foi mesmo assim.
Sabes que as pessoas, empolgadas com o seu poder e rodeadas de fanatismo são capazes de atingir patamares de ilusão incríveis. Imagina o que é tu veres o teu poder reforçado, com gente que quase te leva em ombros… sentes-te o maior. É difícil resistir à tentação de pensares que, se os outros reagem assim, é porque és mesmo um líder capaz de pôr os teus seguidores a mover montanhas.
Esse é uma linda forma de ver as coisas! É quase como uma euforia provocada por excesso de apoio… Não faz sentido! Um líder tem que ter a frieza para reagir de forma exemplar. Os lugares que certas pessoas ocupam exigem um discernimento especial. Precisamente quando sabem que levam muita gente atrás.
Pois, mas eles levam muita gente atrás precisamente porque têm este tipo de comportamentos. É assim que estas pessoas chegam onde chegam. Sobretudo em áreas como o desporto. Mas a política também é pródiga neste tipo de exaltação das massas. Parece que as pessoas gostam de líderes que provocam, que contrariam o status quo, que desafiam o que está instituído. As pessoas gostam de alguém que é desalinhado, dá-lhes gozo ver o espetáculo da diferença. Porque a verdade é que estes comportamentos assumem sempre um lado de espetáculo, que roça o entretenimento, mesmo quando os assuntos são sérios.
Não te esqueças que a Liberdade de Informação é das coisas mais sérias que existem em Democracia. Por isso é que, no calor do empolgamento das massas, o dirigente aconselhou um boicote aos Média, mas depois veio dizer que não é blackout e que o clube vai continuar a dar as entrevistas e as conferências de imprensas que fazem parte dos acordos que tem.
Porque, se não o fizer, terá que pagar multas.
Mas a verdade é que mensagem inicial passou. Todo o país ouviu. E quase todo o país reagiu. Claro que quem é fanático vai mesmo seguir o conselho. É assim que as coisas funcionam. O que interessa é levar a agir fazendo um discurso do ‘nós’ e dos ‘outros’, sendo que os ‘outros’ são quase sempre os Média, como se o mal de todas as coisas estivesse no jornalismo.
Não, não está, mas também sabemos que há algumas derrapagens. Sabemos que nem sempre o jornalismo é assim tão independente como se apresenta.
O problema é que, por causa de uma minoria, acaba por se catalogar a classe como os manipuladores de opinião, eles, sim, detentores de um poder muito considerável. Há sempre maus exemplos em todo o lado e o problema das generalizações é terrível. E há outro problema terrível: a falta de memória. A propósito destas tentativas de condicionar a Liberdade de Informação, convém não esquecer as posições assumidas pelo atual líder da oposição, candidato a futuro primeiro-ministro. E se as pessoas não têm memória, nas redes sociais há sempre alguém que ainda a tem. Por isso, alguém foi buscar – e bem – um artigo em que o atual líder da oposição acusava a Comunicação Social de contribuir para a degradação da Democracia. Logo ele, que não soube lidar com os jornalistas e que optou por fazer a sua própria comunicação com os munícipes quando percebeu que talvez não fosse boa ideia tentar condicionar os jornais.
Um usa o canal de televisão do clube, o outro usou o portal da internet da autarquia. Sem filtros, para chegar diretamente às pessoas. É um direito que têm.
Pois é… mas um vai ter que falar com os jornalistas para não pagar multas e o outro agora precisa, mais do que nunca, dos jornalistas… Temos pena!
