Nestes dias de chuva e frio, aconchegado à lareira algures numa “aldeia do ribatejo”, não precisei dos safões de ovelha, do cajado ou do alfobre, nem sequer de assobiar ao “Piloto” para viajar serra acima, ajuntando o rebanho de ovelhas e cabras, que estas tudo roem porque tudo lhes serve.
Dispenso as estâncias de ski, as férias na neve, as intermináveis filas de pára e arranca para ver o branco e apanhar o frio. Basta-me uma espreguiçadela, esticar o braço e, da estante onde meia dúzia de livros aguardam que os releia, escolher um a condizer com o tempo.
“A Lã e a Neve” é um desses livros intemporais. Que só alguém tocado de génio conseguiria arrancar dali, daquelas paragens de centeio e lã, de pastores com tempo de mais para pensar e de menos para viver.
Poderá um livro ser assim tão distante e tão actual? Falar-nos dos pastos ao pé da porta, antes da floresta os empurrar serra acima, a eles e aos rebanhos que de Abril até à tosquia lá por alturas do São João, ao vale não regressariam? Lembrar-nos o som da flauta de Horácio, o pastor solitário que viria a trocar a liberdade das serranias pela prisão da fábrica grande, só pelo amor a Idalina? Ou do anarquista Nogueira, o “Marreta”, como carinhosamente gostava que o tratassem, ideologicamente esclarecido e que, como tal, acamaradava como ninguém?
Mas para mim, intrigante mesmo, foi tropeçar no “Tramagal”, operário têxtil, personagem inesperada. Tentar perceber como foi ali parar, ali mesmo, àquele romance. Decerto, não foi por acaso. Porque por essa altura, no Ribatejo, noutra fábrica, outras gentes labutavam também por um naco de vida melhor. Noutro Tramagal, então aldeia, onde tantos “Horácios” e “Marretas” fizeram o seu caminho.
Coincidência ou talvez não, o “Tramagal” deu assim a volta ao mundo. Porque Ferreira de Castro, o autor de “A Selva” e de “A Lã e a Neve”, no século XX o escritor português mais traduzido (1), terá percebido que “o meio da tecelagem da serra é, em miniatura, toda a vida portuguesa, na sua imobilidade… na vida fabril e nos bastidores da vida proletária…” (2).
E não fora o seu prestígio internacional, talvez “A Lã e a Neve” viesse a ser apreendida pela Censura. O sucesso editorial foi imediato. Publicado no pós-guerra, em 1947, dois anos depois ia já na 5ª edição e não mais parou. Em França, só em 1950, três editores diferentes o publicaram e mais tarde uma das edições integrou mesmo uma fotografia de Henri Cartier-Bresson.
Não sei quantos tramagalenses terão tropeçado no “Tramagal” de “A Lã e a Neve”. Nem mesmo quantos beirões se lembrarão das agruras de “Horácio” ou do latir de “Piloto”. Mas nestes dias de chuva e frio, “…os serranos, que, nas solidões da Estrela, ora pastoreavam as suas ovelhas, ora teciam a lã que elas forneciam, tornaram-se cada vez mais raros… mais do que sons de flautas pastoris descendo do alto da serra para os vales, subiam dos vales para o alto da serra queixumes, protestos, rumores dos homens que, às vezes, se uniam e reivindicavam um pouco mais de pão…” (3).
Notas:
(1) pelo menos até à atribuição do Prémio Nobel a José Saramago
(2) carta de Fidelino de Figueiredo a Ferreira de Castro (de 5 de Abril de 1947)
(3) do “Pórtico” de “A Lã e a Neve”
Bibliografia: Samuel, Paulo. “Ferreira de Castro – 100 anos de vida literária | ciclo de conferências; Pedro Calheiros – Ferreira de Castro – Do crepúsculo naturalista ao entardecer neo-realista; Fundação Eng. António de Almeida, Outubro 2017

Olá Adelino Parabéns pelo excelente text.
Caro Joaquim, muito obrigado. Abraço.