Não. Não é só a falta de oportunidade ou a relevância do cartaz.
Não. Não é só o “erro” do cartaz.
Pessoalmente sou a favor da liberdade de expressão e entendo que também o humor é livre e podemos tomar qualquer deus e qualquer dos seus profetas como qualquer político ou filósofo ou escritor ou artista ou crença ou o que seja como objeto de humor ou ironia ou … não é por aí.
É mesmo pela substância da coisa o que no caso é dizer: a teologia dos dois pais e a importância política de não compreender essa teologia. E de como essa incapacidade de leitura teológica é uma falha política grave e a criticar duramente.
Vamos à tal substância da questão.
A história dos dois pais é, como não podia ter deixado de ser há dois mil anos, formulada na única linguagem possível: a da sua época, logo uma linguagem religiosa.
E dizia:
– Deus criou o mundo.
– Logo: Deus criou o Homem.
– Logo: os homens (todos) foram criados por Deus – são filhos de Deus. Todos os homens.
Quando Jesus reivindica ser filho de Deus não diz nada de especial. Mas quando insiste (e insiste sempre, tornando a insistência uma das suas mensagens fundamentais) que “somos todos filhos de Deus” Jesus não está apenas a repetir uma “verdade” religiosa ou teológica. Ele está a colocá-la no plano onde ninguém, antes, a tinha colocado: ele está a fazer dela uma reivindicação no plano social e político: se somos, todos, “filhos de Deus”, então somos “todos irmãos”. E é esta a mensagem: “somos todos iguais”.
Simples o silogismo: Somos todos filhos de Deus, somos todos irmãos, somos todos iguais !
É aqui que está o que fez de Cristo e do cristianismo uma mensagem nova e poderosa e que mudou o mundo. Deve ter sido a primeira vez que a reivindicação da igualdade encontrou uma formulação tão clara e uma reivindicação tão poderosa.
Não entendendo nada disto o BE resolveu colar a teologia dos dois pais às uniões gay.
Pode fazê-lo. Pode. Livremente? Sim.
O que não pode é não ser sujeito à crítica. E, no caso, impiedosa.
Porque vivemos uma época em que a igualdade é desmantelada, destruída, atacada, violentada todos os dias. Numa época em que a desigualdade cresce dramaticamente todos os dias. Numa época em que a exclusão e a pobreza fazem parte do nosso quotidiano.
E, sabendo nós que o BE se afirma como defensor da igualdade, esta incompreensão total da mensagem de Jesus é dramática.
Jesus poderia e deveria (veja-se como o Papa Francisco, por exemplo, tem agido) ser um poderoso argumento, uma poderosa inspiração, um fundamento cultural profundo para o combate pela igualdade, contra a desigualdade, pela equidade, a favor da justiça social e da solidariedade.
Mas é mais fácil um “laicismo” barato do que a conquista da compreensão e capacidade em traduzir e rebater para o plano social e político reivindicações e combates que se formulara noutras linguagens.
E hoje faz todo o sentido assumir Jesus Cristo como uma referência em matéria de pensamento social e político.
