Então ‘incêndios’ é a palavra do ano?

Parece que sim… Não te parece óbvia?

Para te ser sincera, não. Apesar de todas as críticas, apesar de todas as dúvidas, apesar de todas as incertezas sobre o que se fez na sequência dos incêndios, preferia ‘dádiva’. Gosto mais de ver as coisas pela positiva, do que pela negativa. Acho que ajuda a andar em frente. E acho que o ano de 2017 foi um dos anos em que as pessoas mais deram, ofereceram, partilharam…

Certo, mas as coisas negativas também têm que ser assinaladas, numa espécie de memória futura. Para que ninguém esqueça o que aconteceu.

O problema é que estas ideias de escolher palavras são mais uma estratégia de Marketing do que de outra coisa. A escolha das palavras é o resultado da utilização que as pessoas deram às palavras nos seus mundos digitais. E, por muito que os mundos digitais façam cada vez mais parte da nossa vida, não são a nossa vida. Por outro lado, mais do que a procura de informação sobre um determinado assunto, talvez fizesse sentido analisar comportamentos. Nós somos sobretudo aquilo que fazemos. Eu sei que o que vou dizer é uma banalidade, mas o certo é que, em momentos de tragédias, as pessoas são muito solidárias, acentua-se a capacidade de dádiva. Os portugueses foram incríveis na forma como se disponibilizaram para dar um pouco do que têm, de diferentes formas. Isso, para mim, é o mais significativo.

Tens razão, mas o pressuposto é diferente. Não se trata de escolher o sentimento que marcou este ano, mas a palavra que, com mais frequência foi usada e consultada nos meios de comunicação, nas redes sociais e… nos dicionários da editora que promove o concurso. A tal questão do Marketing…

Claro!

Mas tens que reconhecer que é uma estratégia inteligente. Organizam o concurso, mobilizam as pessoas e promovem a marca.

Ainda por cima, as pessoas ficam com a sensação de que a maioria escolhe a palavra do ano, mas é uma escolha entre dez palavras identificadas pela editora. Será importante recordar que a terceira palavra mais votada foi ‘afectos’ (ainda com ‘c’) e ‘floresta’.

Olha, também gosto da floresta!

Eu também… Mas olha, entretanto também fui fazer umas pesquisas na net. Fiz uma busca por ‘palavras importantes’. E gostei do resultado! Claro que a net vale o que vale…

Como um concurso de uma editora vale o que vale…

Pois… Mas então, a primeira referência que aparece é em Inglês. Supostamente, as 100 palavras mais importantes da língua inglesa.

Mais importantes, como?

São palavras que abrangem as ideias que usamos sempre, ou seja, são aquelas que tratam de tudo o que fazemos quando pensamos. Por outro lado, são palavras sem as quais não poderíamos explicar as outras palavras da língua.

Essa é, claramente, um outra forma de valorizar as palavras. E quais são?

Amount, Argument, Art, Be, Beautiful, Belief, Cause, Certain, Chance, Change, Clear, Common, Comparison, Condition, Connection, Copy, Decision, Degree, Desire, Development, Different, Do, Education, End, Event, Examples, Existence, Experience, Fact, Fear, Feeling, Fiction, Force, Form, Free, General, Get, Give, Good, Government, Happy, Have, History, Idea, Important, Interest, Knowledge, Law, Let, Level, Living, Love, Make, Material, Measure, Mind, Motion, Name, Nation, Natural, Necessary, Normal, Number, Observation, Opposite, Order, Organization, Part, Place, Pleasure, Possible, Power, Probable, Property, Purpose, Quality, Question, Reason, Relation, Representative, Respect, Responsible, Right, Same, Say, Science, See, Seem, Sense, Sign, Simple, Society, Sort, Special, Substance, Thing, Thought, True, Use, Way, Wise, Word e Work.

WOW! Se tivesse que escolher dez, escolhia Beatiful, Belief, Desire, Feeling, Good, Happy, Love, Pleasure, Quality e True. E tu?

Prefiro outras dez: Change, Decision, Different, Experience, Free, Give, Knowledge, Observation, Question e Respect.

Engraçado como conseguimos ter diferentes perspetivas sobre as coisas simplesmente porque valorizamos coisas diferentes. E, no entanto, somos tão iguais.

Verdade! E tenho a certeza de que vais adorar a segunda referência que aparece na pesquisa. É  sobre as dez palavras mais importantes para os japoneses. Esta lista é importante para percebermos como a cultura de um povo é determinante. A primeira é ‘yoroshiku’, um termo difícil de ser traduzido em outras línguas, mas que pode ser traduzido na expressão “prazer em conhecê-lo”. A segunda é ‘itadakimasu’ que pode ser traduzida como “eu humildemente recebo”. Depois vem ‘genki’ (tudo bem?), ‘arigatou’ (obrigado), ‘mottainai´(desperdício), ‘sumimasen’ (desculpe ou com licença), ‘ganbatte’ (dá o teu melhor), ‘shoganai’ (resignação), ‘kiwotsukete ne’ (toma cuidado) e ‘otsukare’ (cansaço).

Eu escolho ‘arigatou’ e ‘sunimasen’, porque acho que a boa educação é a base de tudo.

Estava-se mesmo a ver! Pois eu escolho ‘ganbatte’, porque o melhor que damos de nós é que faz a nossa vida valer a pena, para nós e para os outros… mas eu também gosto muito da boa educação!

Hália Santos

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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