Há coisas mesmo engraçadas… Segui minimamente o congresso do CDS, pela televisão, e o que chamou mais a minha atenção talvez tenha passado ao lado de muita gente. Como queria falar contigo sobre esse assunto, googlei ‘Assunção Cristas’.
Queres, portanto, falar sobre a ideia que tem ela tem de vir a ser primeira-ministra?
Esse assunto dava uma bela conversa, mas eu queria mesmo era ir a um pormenor que pode não ser assim tão pequeno no meio de toda a espuma informativa sobre Cristas.
Já sei! Queres falar sobre um dos membros da equipa dela ter assumido a sua homossexualidade.
Podíamos ir por aí… Porque o que me interessa é precisamente analisar as questões que foram colocadas ao longo dos últimos dias, à margem do congresso, como dizem os jornalistas. Essa é uma delas. Numa entrevista, um jornalista da SIC abordou o assunto deixando transparecer a ideia de que alguém homossexual não poderia ser de um partido como o CDS. Como se num partido de direita só houvesse lugar para heterossexuais, casados, que vão à missa com uma prole de filhos, com as meninas de lacinho na cabeça e os meninos de fato e gravata.
A verdade é que muito do eleitorado do CDS ainda deverá assumir uma atitude mais… tradicional… digamos assim, à falta de melhor expressão.
Mesmo que assim seja, as opiniões são cada vez menos estanques. Cada vez há menos perfis para encaixar as pessoas. Cada vez há mais pessoas que são um pouco disto e um pouco daquilo, que em determinado assunto se posicionam de uma maneira e noutro se posicionam de outro, sem que isso vincule todo o seu restante pensamento. As pessoas já não se encaixam em pequenas caixinhas, com rótulos. E essa é, talvez, uma das melhores coisas dos tempos atuais.
Mas isso não fará com que as pessoas percam, de certa forma, a sua identidade? Ou seja, se somos uma mescla de coisas, ninguém sabe bem com o que é que pode contar do outro.
Então preferes coisas certas, pessoas previsíveis, mas sem capacidade de pensamento?
Não, mas gosto de saber que certa pessoa tem um certo padrão de pensamento e de comportamento…
Uma pessoa que tenha opiniões diversificadas não é necessariamente imprevisível. Mas deixa-me voltar à questão inicial. Googlei o nome da Assunção Cristas e o que aparece, por esta ordem, é: idade, biografia, instagram, marido, cds, eucaliptos, calções, cds, etc. Eu não acho normal!
Isso tem a ver com as pesquisas das pessoas… é porque as pessoas estão mais interessadas em saber a idade dela e o que coloca no instagram do que a sua ligação ao partido.
Pior do que isso é a referência ao marido! Parece que o que as pessoas querem é saber quem é o ‘desgraçado’ que tem que ficar com os quatro filhos quando ela vai de noite ver como vivem os sem abrigo ou quando passa um fim de semana num congresso…
Lá está, é o interesse que as pessoas têm. Não podes fazer nada contra isso.
Pois não! Mas não deixa de me incomodar que ninguém queira saber se os homens que estão na política têm mulheres que ficam com os filhos dias e noites a fio para eles poderem ter a sua atividade…
Aí estamos de acordo. Ainda nos falta ter uma mentalidade realmente equilibrada.
Era aí que eu queria chegar. Cristas terá dito que não volta a responder à tradicional pergunta de como concilia a sua vida profissional com a sua vida familiar enquanto não colocarem essa mesma pergunta aos homens que têm vida pública. E, desculpa, posso discordar dela em imensas coisas, mas nesta tenho que lhe tirar o chapéu! Assim como tenho que reconhecer que esteve lindamente quando respondeu ao jornalista da SIC que a qualidade das pessoas que ela escolhe para trabalhar com ela não tem nada a ver com a sua orientação sexual.
Fazes-lhe uma vénia, mas talvez ela tenha perdido votos.
Não sei… estas são coisas que passam por baixo da espuma das notícias. Se fizerem perder votos, talvez também façam ganhar outros. É a lei da política. Na verdade, é a lei da vida. O que me agrada é que se tenha aberto um caminho que permite que uma líder de direita ataque de frente assuntos como a igualdade de género e a orientação sexual.
Pena é que não ataque de frente as touradas… e que prefira bailar ao som dos olés!

