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É daqueles casos raros de jovens adolescentes que cedo descobrem e definem o que querem e têm a força, a persistência e foco na medida certa para alcançar o seu objetivo. Rita Carreira, 14 anos, protagonizou recentemente a proeza de pôr Mação em alvoroço, em novembro, ao ser convocada, pela primeira vez, para estágio na Seleção Nacional Sub-15 de futebol feminino e tendo feito a sua primeira internacionalização.

Mas Ritinha, como todos a acarinham no clube que sabe a casa, a Associação Desportiva de Mação (ADM), não ficou por aqui: foi agora convocada pela segunda vez pelo treinador José Paisana. E as alegrias e conquistas, certamente, não ficarão por aqui.

Rita Margarida Canas Carreira é uma menina simples, afável, muito humilde. Tem um sorriso rasgado que esboça instantânea e genuinamente, que rapidamente lhe ilumina o rosto. Tem também as emoções à flor da pele. Uma jovem muito educada, de trato fácil, com uma postura e discurso muito adultos e ponderados para a sua idade. Sabe estar. Caraterísticas que os seus pares, com propriedade, lhe reconhecem e valorizam.

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Tem espírito de sacrifício, e prova disso foi que a encontrámos durante um dos treinos, ao final do dia, em pleno inverno, com temperaturas bastante baixas, e todos em campo se queixavam do frio apesar dos movimentos de aquecimento, do equipamento adaptado, mas ali estavam de pedra e cal. Quem corre por gosto não cansa.

Nas bancadas, sentados a observar o treino da sua equipa, ficámos a conhecer mais sobre a jovem promessa do futebol de Mação, sequestrando Rita para uns minutos de conversa.

É aluna no Agrupamento de Escolas Verde Horizonte, em Mação, e frequenta o 9º ano. Os amigos e a família são muito valorizados por si, sendo seu porto seguro, pilar e incentivo, e mesmo que tudo gire em torno do futebol, é esta tríade que a completa.

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Foi aos 4 anos, idade com que começou a jogar precisamente na ADM, que descobriu uma (se não a) paixão para a vida. E tudo a partir de uma pequena surpresa preparada pelo pai e pela mãe. “Lembro-me que estávamos em casa e a mãe disse para vestir um fato de treino. Era preto, acho que era da Hello Kitty, com um lacinho cor-de-rosa. E o pai trouxe-me aqui ao campo [municipal], com as balizas pequeninas. O treinador era o Ducho, o Cláudio. Lembro-me de ver o Zé, o Rodrigo, o Martim e o Simão, que ainda jogam comigo”, começa por mencionar.

“Sempre gostei de futebol. Jogava com os meus amigos na escola. A primeira bola que tive foi da Hello Kitty também. E o pai ia comigo aos sábados de manhã para o polidesportivo, chamamos ‘poli’, ali no Cerejal. Ensinava-me. E aprendi muito com ele”, afiança.

Mas o campo de futebol municipal… esse tem ali uma certa ligação quase umbilical, é o símbolo de que o futebol lhe corre nas veias, atestando um qualquer presságio de que o destino já estaria a traçar-se entre as quatro linhas. Tudo porque Agostinho Pereira Carreira, avô paterno de Rita, esteve na fundação da associação e foi o seu sócio número 1. O amor ao futebol e à camisola maçaense já era, e ainda é, coisa de família, até porque o pai, Luís Filipe, joga atualmente na equipa de Veteranos da ADM, mas foi jogador e treinador nos últimos anos. E o irmão caçula de Rita, Filipe Luís com 8 anos, integra a equipa de Benjamins Sub-10 da ADM.

Rita com os pais e o irmão, o núcleo familiar que a apoia e acompanha incondicionalmente. Foto: mediotejo.net

“O campo tem o nome do meu avô. Sempre foi muito relacionado ao futebol, é o primeiro sócio, o fundador da Associação Desportiva de Mação”, conta, para frisar desde logo que também o pai seguiu as pisadas e manteve sempre ligação ao clube, como jogador ou técnico.

“Em 2009, quando Mação ganhou a Taça do Ribatejo e o pai era treinador-adjunto, eu estava na barriga da minha mãe”, adianta, com um sorriso, vibrando com emoção como se sentisse tudo pela primeira vez e como se tivesse sido ontem e o tivesse presenciado. Rita foi crescendo a acompanhar as histórias e os feitos do clube de Mação.

Diz que desde pequenina que alimenta esta sua paixão e nunca notou qualquer tipo de diferenciação por parte dos rapazes, que sempre a deixaram jogar à bola com eles e nunca a colocaram de parte ou fizeram sentir mal. “É uma terra pequena, somos todos unidos. E eles são como irmãos para mim, tratam-me como irmã. Defendem-me durante os jogos”, diz, admitindo que a certa altura começou a ser disputada na hora de fazer equipas.

“Sempre joguei com eles, na escola e no clube, e fomos chamando cada vez mais pessoas para jogar aqui, para garantir que tínhamos equipa. Por exemplo, em 2022 era difícil ter equipa porque não tínhamos jogadores suficientes. Passámos de futebol de 7 para futebol de 11, e era preciso ter alguns jogadores no banco. Chamámos colegas da escola, que nunca tinham experimentado, incentivámos, e agora treinam aí. Alguns nunca tinham tocado numa bola e sempre tentámos ajudar e ensinar para correr tudo bem”, garante.

Em tempos, no início da caminhada no futebol ainda frequentou outros hobbies, dedicando-se a outras atividades, mas e hoje, há algo mais?

“Não… é só o futebol. Tinha natação. Tive aulas de guitarra. Andei na catequese… Mas fiquei sem horário, por exemplo, para ir à natação, porque tinha treino da Seleção Distrital à terça, depois tinha o treino aqui à quarta, e depois às vezes ia ao Sporting e depois tinha treino na sexta-feira aqui na ADM”, refere, dando conta que já teve experiências fora de Mação também, tendo sido convocada para a Seleção Distrital da Associação de Futebol de Santarém e tendo sido convidada pelo Sporting a participar em torneio.

Curiosamente, Rita confidencia ter gostado muito da natação, e além disso, do ballet. “Eu vim fazer um treino à ADM e quis continuar; a mãe disse que eu tinha de andar primeiro no ballet e depois é que podia vir para o futebol. E eu fiz esse favor à mãe. Também gostei de andar no ballet, era engraçado. Ainda me lembro de fazer uma apresentação e gostei. Andei lá com a Rute, e acabámos as duas a vir para o futebol. Ela agora foi jogar para os Lagartos do Sardoal, na equipa de futebol feminino”, conta.

Com agenda preenchida, qual a táctica para gerir tudo isto? “É só mesmo o gosto pelo futebol”, diz, e mesmo nos dias em que se chega a casa cansada… nada muda. “Eu gosto e vou lutar pelo que eu quero: poder viver do futebol. E poder retribuir tudo o que os meus pais fizeram e fazem por mim. E levar o nome de Mação mais além, para conhecerem a terra”, garante, em jeito de promessa inquebrável.

“Lá na Seleção Nacional perguntaram de onde eu era, e ninguém conhecia Mação”, afirma, quase escandalizada e assumindo como missão levar a sua terra mais longe e a mais pessoas.

E como apresentaste Mação? “Uma terra pequena, mas unida, muito boa. Bonita. Com paisagens muito boas. Bom para viver, para fazer férias. E se quiserem ir à aldeia do Rosmaninhal, onde eu moro, é o sítio mais calmo que pode haver. Se bem que comigo e o meu irmão já não deve ser tão sossegado, nós fazemos muito barulho”, e esta sua tirada genuína arranca gargalhadas à mãe, que como habitual ali está ao seu lado, a acompanhar cada passo da filha.

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Mas à medida que a conversa se adianta no percurso de Rita, começando a desbravar o que se espera do futuro, o coração aperta quando soam as campainhas de que, um dia destes, em nome do sonho, terá que deixar Mação para trás.

“E eu não consigo sair de Mação. Mas acho que este vai ser o último ano, já não tenho o ‘cabedal’ que os meus colegas de equipa têm e começa a ficar difícil de aguentar com eles. Somos iniciados de segundo ano, e passamos a juvenis. E eles já são matulões, não consigo acompanhar. Para o ano vamos ter que pensar nas opções que temos…”, diz, fitando o campo, com um semblante maduro e em introspeção feita em voz alta.

“Tenho sonhos, espero poder chegar à Seleção A, ir para uma equipa grande. Mas quando penso nisso depois vem a parte de deixar Mação, deixar os colegas, a escola até… Nestes dias que estive fora tive muitas saudades deles”, afirma, lembrando o primeiro estágio com a Seleção Sub-15 em Oeiras, na Cidade do Futebol.

“Também fui com o Sporting a Madrid, à IberCup, gostei muito. Foi a segunda vez que saí de Portugal. Não viajei muito, também é um sonho que tenho, de viajar pelo mundo. E sei que o futebol nesse aspecto também ajuda”, assume.

Na primeira experiência de estágio com a Seleção Nacional Sub-15 houve oportunidade de troca de impressões e de experiências, precisamente sobre trocas de clubes e a saída da zona de conforto para chegar mais longe. “Acho que era a única que nunca tinha mudado de clube. Elas disseram que depois nos adaptamos e que temos de criar novas amizades. Estas amizades do futebol de formação duram, mas vamos ter que acabar por seguir cada um o seu caminho”, nota.

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Na mesma medida, Rita tem sido convocada para a Seleção Distrital. “Confesso que não estava à espera de ser convocada em dezembro, até porque tive a experiência na Seleção Nacional e há mais jogadoras a ter o sonho que eu tenho e acho que temos de ter todas oportunidade”, diz, deixando o altruísmo falar mais alto, impulsionado pela sua franca humildade.

“Eu faço o meu trabalho, no meu lugar, com os meus. Claro que quero que aconteça e trabalho para isso, mas se não acontecer vou continuar a trabalhar. Eu crio expetativas, mas não demasiado altas. Depois posso iludir-me demais e se acabar por não acontecer, fico muito triste. Os treinadores sempre me ajudaram muito e como era rapariga a jogar no meio dos rapazes, tinha de trabalhar sempre o dobro ou o triplo deles. E acho que consegui com a ajuda dos treinadores, do pai, e da mãe. O pai vinha sempre ver os meus treinos, e depois dizia onde é que eu tinha de melhorar. Eu ouvia, respeitava e no outro treino fazia melhor”, confidencia.

“O primeiro convite surge aos 11 anos, com a convocatória para a Seleção Distrital, e depois surge a convocatória do Sporting. Eu sou do Sporting. Mas mesmo que fosse outro clube a convocar, eu ficaria muito feliz. Aí não há clubismos”, indica.

Mas a surpresa foi mesmo a Seleção Nacional. “Foi muito bom. Não estava à espera de ser chamada, mas houve um torneio com a Seleção Distrital na Chamusca, com equipas de Santarém, Leiria e Lisboa, ficámos em primeiro lugar e estavam lá olheiros da Seleção Nacional. Eu não sabia que estavam lá, mas lembro-me que o Sr. Carlos no final veio ao pé de mim e disse-me que a D. Susana tinha gostado de me ver jogar”, e Rita nem pestanejou, nem reagiu. Não estranhou.

“Eu nem perguntei mais nada. Ouvi, e disse à mãe e ao pai. O pai ficou curioso, foi procurar quem seria, e descobrimos que era uma selecionadora. O pai já estava meio com a sensação que eu poderia ser chamada. E lá fui. Nervosa. O primeiro estágio correu bem, na Cidade do Futebol. Éramos 50 jogadoras, era muita gente. Cheguei lá, conhecia algumas do Sporting, e da Seleção Distrital de Santarém foram duas comigo, a Renata e a Juliana. Depois fui chamada ao segundo estágio, onde já fomos menos e fomo-nos agregando melhor”, vai relembrando.

“Depois veio o terceiro estágio, éramos menos jogadoras, ficámos mais unidas, e no último estágio já nos conhecíamos todas. Foi muito mais fácil em termos de ligação. E o último estágio acho que correu bem, mas podia ter corrido melhor…”, atira, considerando que poderia ter sido diferente. “Quero sempre mais. Poderia ter estado mais concentrada, porque estava muito nervosa. Sou muito exigente comigo própria, e às vezes até sou demais com os rapazes, mas eles compreendem”, justifica.

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Não será um certo espírito de capitã? Nisto, Rita rapidamente descreve a experiência que a marcou no último estágio com a Seleção Nacional, em que envergou a braçadeira de capitã da equipa no jogo contra a Islândia. “Foi no primeiro dia do último estágio, o Professor José Paisana chamou-me a mim e à Leonor Serralheiro. Veio ao pé de nós e disse que íamos ajudar a Loução e que tinha de ser capitã. Fiquei muito contente com aquela responsabilidade, quer dizer que fiz as coisas como deve ser e que mostrei que tinha responsabilidade suficiente para esse papel”, começa por descrever.

E mais uma vez, ao jeito de Rita, esta era uma daquelas coisas que também não esperava. “Não estava à espera. Estava no banco, queria era entrar. Ainda por cima estávamos a ganhar 2-0, e eu queria fazer golo, dar a marcar, queria ajudar a equipa. Quando eu vejo a Loução a vir, na substituição, dar-me a braçadeira de capitã, fiquei toda contente. E no final do jogo recebi montes de mensagens dos meus amigos, todos contentes também”, relata.

E sobre estar em campo, dá para descrever o sentimento? E em termos técnicos, é um nível superior de exigência, claro. “O jogo é completamente diferente daqui. O jogo internacional é muito exigente. E a liga das adversárias é completamente diferente da minha aqui em Portugal. E depois eu faço uma coisa que não devia fazer, que é olhar para o tamanho dos adversários e fico logo alerta. E não tenho muito músculo, e assalta-me sempre o medo de me lesionar. Aconteceu na época de 2022/2023, tive muitas lesões. Desde aí fiquei com receio…”, lamenta.

Rita tem uma grande capacidade de autoavaliação, tomando consciência da sua performance a cada jogo e reconhecendo os erros que comete para o mais rapidamente possível os corrigir e não mais voltar a cometer. É a sua maior crítica.

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“Nos últimos jogos pela Seleção se calhar devia ter tido mais garra, mas estava com receio de me lesionar e ter de vir logo para casa. Mas acho que nos jogos com a Islândia e a Espanha as coisas mudaram, não sei o que me deu. Pensei que estava ali era para jogar e acho que se deu ali um clique”, admite.

Já da relação com o “Professor Paisana”, assim tratado pelas raparigas na Seleção, diz que só aprendeu com o técnico e que foi ótimo ter estado naquele estágio. “Só cresci e aprendi com ele. É simpático, muito boa pessoa. É bem-disposto, mas quando tem que ser exigente, é”, reforça.

Quanto aos ensinamentos que trouxe consigo do último estágio, saca da memória uma frase do Mister Ricardo. “Ontem caímos, hoje levantamo-nos e amanhã crescemos, aprendemos. E gostava de passar a mensagem para eles aqui na ADM, porque no ano passado perdíamos muitos jogos, ficámos em último lugar, e este ano estamos em primeiro com vitórias e quando o mister disse aquela frase senti um bocado de Mação. Aprendi que não se pode desistir… eu baixo muito a cabeça quando faço alguma coisa errada, sou muito rígida comigo e fico em baixo. Mas a família está sempre a puxar por mim, e a avó Minda diz para estar de peito orgulhoso”, afirma, sorrindo e transparecendo algum mimo nas palavras.

No jogo contra a Alemanha pensava que só a mãe, o pai e o irmão a iam estar a ver em campo. Estava no onze inicial. Mas a família está sempre presente e tem o poder de amparar Rita e segui-la em todas as etapas do seu percurso; são a sua legião de fãs comprometidos com o bem-estar e o sucesso da sua menina. “Eu estava a olhar para as bancadas e vejo montes de gente ao pé dos meus pais. No final do jogo, vi-os a todos. Eram 27 pessoas e fiquei muito feliz. Apoiam-me todos”, descreve, referindo a presença de tios, primos, etc.

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“Os rapazes também são a minha família, apoiam-me muito no final dos jogos, a animar-me e a incentivar-me. Recebo mensagens antes e após cada jogo, estão sempre comigo, ajudam-me a superar os momentos menos bons e dão-me força para continuar a perseguir os meus sonhos. Não posso pedir mais que isto, e talvez seja por isso que me custa tanto imaginar que, um dia destes, vamos cada um para seu lado para irmos atrás dos nossos objetivos”, releva, de forma sentida.

Depressa fala nos sacrifícios dos pais, algo que não esquece e não descura no seu discurso. Pais que se dedicam a 100% à carreira de Rita, e se esforçam além do dia de trabalho para corresponder aos compromissos desportivos da filha. E o pai conduz o dia inteiro, por causa do trabalho, a partir da zona Centro, deixando o amor à sua menina ultrapassar todo e qualquer sinal de cansaço.

“Isto sai do corpo do pai, principalmente, que é quem vai com a Rita aos treinos todos”, admite Elsa Canas, mãe da jogadora.

“E depois chego a casa e tenho a comida da mãe, fico muito contente”, garante, de forma efusiva, referindo que a comida de conforto da mãe após o esforço do treino tudo compensa e ajuda a recuperar. “Costuma ser arroz de salsichas ou uma massa com molho de tomate e salsicha. Também gosto de lasanha. Quando venho cansada… A minha família apoia-me muito”, reforça.

As saudades falam mais alto e fazem tremer o coração de Rita ao ir tendo já experiências que a afastam momentaneamente da família e de casa. Mas a jovem crê, até pelo que já lhe tem sido transmitido por outras jogadoras, que “com a idade, crescemos com isto e tornam-se aprendizagens para a vida”.

A mãe faz um balanço positivo da prestação a nível distrital e nacional, diz que tem corrido bem, ainda que no último estágio tenha notado que a Rita se estava a ir abaixo. “É muito giro ir lá, mas é exigente…”, sublinha.

Estando no 9º ano, Rita terá exames nacionais de Matemática e Português este ano e isso irá obrigar a correr um pouco mais atrás da matéria. “Por norma acompanha sempre a matéria, e basta-lhe estar presente. Não estando presente, vai ser mais difícil”, reconhece Elsa, uma vez que a filha costuma estudar na véspera para os testes, e “é boa aluna; nunca teve nenhuma negativa, nunca teve nenhum 3”.

O que gosta mais da escola, em primeiro lugar são os amigos, claro, mas vai mais para a Matemática. O Português não lhe diz muito. E o futebol segue-a para todo lado. Na escola, em casa, no campo municipal.

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“Eu quero é jogar”, diz, lamentando aqueles que fazem parte dos piores momentos do seu percurso, que são as lesões que a afastam das chuteiras por uns tempos. “Teve uma entorse. Jogou 15 minutos, levou três porradas seguidas. Era capitã, a primeira vez que foi jogar na Distrital. Tínhamos lá a família toda, vieram os primos e os tios ver a Setúbal. Caramba… Ela chorou tanto nessa vez, minha rica menina, toda roxa, gelada, chovia tanto, tanto… Tive que ir ver dela, estava uma completa pedra de gelo”, recorda Elsa.

Este episódio quase pôs em causa a oportunidade de seguir com a experiência com o seu clube de futebol favorito. “Depois, para eu poder ir a Madrid com o Sporting, contei com a ajuda da Ana, fisioterapeuta da ADM. Fiquei bem a tempo”, recorda, frisando que sempre que há necessidade recorrem ao máximo de pessoas disponíveis, nomeadamente para reforço muscular e recuperação de lesões, com fisioterapia.

O objetivo é manter Rita em forma e saudável para corresponder aos habituais dois treinos semanais na ADM, a somar ao treino da distrital uma vez por semana.

“Enquanto nós pudermos e conseguirmos, vamos com ela onde for. Muitas vezes não é fácil a parte financeira, não somos ricos. Não temos heranças. Vivemos do nosso trabalho, vamos tirando daqui, pondo dali, e é à conta. Ela vai à Distrital, mas é sempre à nossa conta. Vamo-nos esforçando. Em termos de horário o fim-de-semana é muito cheio. Não paramos em casa. E depois o irmão também joga…”, refere Elsa, deslindando aquele que é um esforço diário, a vários níveis, para garantir o percurso desportivo dos filhos.

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Fins-de-semana preenchidos, implicando muitos quilómetros, muitas horas fora de casa, muito sacrifício pessoal em prol do cumprir dos sonhos dos miúdos. A realidade de muitos pais na região e no país, que fazem parte deste grupo de progenitores incansáveis que são além de pais, melhores amigos, conselheiros, motoristas, nutricionistas, psicólogos, treinadores de bancada, claque, mentores,… um bocadinho de tudo.

“Em casa só dá futebol. São três. A mãe não tem vagar, mas nos tempos da escola jogava. Já a Rita…”, começa por dizer Elsa até que uma voz irrompe ao longe.

“Ela está sempre cá!”, afiança João Espírito Santo, presidente da direção da ADM, e na coletividade há 16 anos, e que se junta à conversa na bancada, enquanto decorre mais uma noite de treinos.

“Costumo vir ver os seniores. Para mim são todos ídolos. Gosto do Jaime e do André, são dos que falam mais comigo. Mas também há o Esteves, que foi meu treinador”, enumera Rita.

Mas o verdadeiro ídolo, esse, é Cristiano Ronaldo. “Desde pequenita, pela dedicação que ele tem pelo futebol e a sua qualidade”, diz, embora reconhecendo também qualidade a Messi. No feminino tem como referências Jéssica Silva e Alexia Putellas.

Para a Associação Desportiva de Mação o percurso de Rita tem sido um exemplo e motivo de orgulho e alegria, especialmente quando chamada a fazer estágio com a Seleção Nacional, e iniciando as suas primeiras internacionalizações.

“É um feito muito importante, é um orgulho para todos nós. A Rita tem feito um percurso na nossa associação desde pequenina. Estou cá há 16 anos, e a Rita começou comigo com 5 anos nos traquinas. Tem sido sempre uma miúda impecável, extraordinária, não só a jogar à bola, mas como pessoa. É uma amiga e ela sabe que temos muito orgulho naquilo que ela faz. Gostamos mesmo da Rita”, regista o responsável pelo clube.

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“Ainda tem mais significado porque o percurso dela tem sido diferente das outras miúdas da idade dela. Geralmente as miúdas praticam futebol em equipas femininas, e a Rita desde pequenina pratica futebol com os rapazes. Tem feito um percurso extraordinário”, admite.

João Espírito Santo garante ainda que “todas as pessoas que têm passado por aqui, dos diretores, aos treinadores, e outros técnicos, têm dado à Rita todas as condições. Ela gosta mesmo do futebol. Desde que tenha uma bola ao lado, é o que a faz mais feliz. Ela diz que o futebol é a coisa mais importante. Creio que sim, que seja uma das coisas mais importantes da vida dela”.

Por outro lado, não deixa de frisar a ligação familiar ao campo e ao clube, e a coincidência com o aniversário da fundação da ADM. Parece que os astros se alinharam em novembro do ano passado e tal não passou despercebido à comunidade maçaense.

A primeira vez que Rita é convocada para a Seleção Nacional calhou precisamente nos 45 anos da Associação Desportiva de Mação, fundada a 18 de novembro de 1978 pelo avô, Agostinho Pereira Carreira, já falecido e que dá o nome ao campo municipal.

“Foi o sócio fundador, o número 1. Tem um significado enorme para a associação e para a família em particular. Não será coincidência… há aqui um simbolismo forte. Certamente, onde quer que esteja, ele estará a assistir a tudo isto e estará com um orgulho imenso na neta”, crê o presidente da direção.

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Em termos de formação, a Associação Desportiva de Mação tem crescido a olhos vistos e esta parece ser uma maré favorável ao futebol de formação no concelho. “Em 2022 existiam cerca de 60 atletas, e em 2023 passamos dos 100 atletas. Tem sido um trabalho extraordinário feito pela direção. Não é fácil no contexto do nosso concelho, mas para mim foi uma surpresa. Estou cá há muitos anos, e diz-se que cada vez há menos miúdos no Interior, mas de um momento para o outro apareceram mais 40 atletas. Foi algo extraordinário, quase impensável, mas factual porque os miúdos estão cá a jogar. 104 atletas nos escalões de formação entre os 140 no total, com os jogadores mais velhos”, dá nota.

Por norma, garante o responsável, “o envolvimento no futebol começa por amizades, quase a totalidade dos jovens vêm das escolas, e enquanto alguns vêm porque gostam mesmo de futebol, outros vêm por acréscimo e porque os amigos já cá estão a jogar. Acabam por ficar também e gostar. Os jovens são os principais embaixadores da ADM”.

Admite que, por vezes, “não é fácil a continuidade”, principalmente quando chegam a um escalão de juniores, com 17 ou 18 anos, altura em que partem para a universidade. “Essa é a parte mais difícil de conjugar, nem sempre é fácil. Estamos aqui um bocado longe das universidades, os miúdos acabam por ir embora. Fazemos o possível para os segurar o máximo que pudermos”, admite.

Questionado sobre o percurso da jovem atleta que a todos tem inspirado em Mação, Espírito Santo assume que quando atingiu os 10/11 anos “já se abria a possibilidade de ela vir a conseguir algo mais. Tinha muita qualidade. E já havia indícios de que poderia ir mais longe”.

“Tenho falado com os pais sobre isto. É um percurso difícil, estamos muito longe dos grandes clubes, está a ser seguida por outros clubes, de outra dimensão… mas esse passo às vezes não é fácil. Para nós, ADM, é fácil e está à vontade. Aliás, por nós já estaria lá! Mas os pais têm dificuldades, há aqui sacrifícios envolvidos. Está nas mãos da Rita e dos pais”, lembra.

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“Além da qualidade, sobressai a grande força de vontade, e isso fez a diferença no percurso da Rita. É uma miúda que se as coisas correrem mal, acaba por chorar. Ela vive mesmo isto! Marca um golo, chora. Falha um golo, chora. Ganha um jogo, chora. Perde um jogo, chora. Tem um significado enorme… vive mesmo isto com emoção. E Deus queira que tenha sorte e consiga atingir os seus objetivos. Ficamos todos contentes, e Mação também fica”, afiança.

Também o mister Diogo Jesus, técnico dos escalões de formação e que já treinou Rita em anos anteriores, admite que a jovem sobressaiu desde logo pela “qualidade técnica individual” e a “forma como reagiu durante todas as situações em treino e no jogo. Não podia perder, tinha de ser sempre aquela que rematava melhor, a que fazia bem a finta, se fosse preciso ir à baliza, ela tinha de ser a melhor em tudo… é uma caraterística que não se encontra em muitos atletas, sejam meninas ou meninos, e acabam por se destacar, por quererem ser sempre os melhores”.

O trabalho feito na equipa “é importante para a fazer descer à terra em momentos em que já excedeu a super exigência que tem sobre ela própria, e nisso o treinador tem um papel fundamental de estar ali e acompanhá-la, ser um apoio e fazê-la sentir segura no processo de treino e no jogo”.

E como foi assistir à estreia da Rita na sua primeira convocatória na Seleção Nacional? “As lágrimas foram inevitáveis de orgulho, porque sempre lhe disse que, um dia, ia estar sentado em frente à televisão a vê-la jogar, e concretizou-se em três anos que estou com ela aqui na ADM. Acabou por se concretizar muito mais cedo do que esperávamos”, diz, não escondendo alguma emoção e o entusiasmo pelo feito da jovem atleta.

“Estamos no Interior do país, é complicada a visibilidade, é diferente do que estar em clubes mais próximos de onde tudo acontece. Mas o certo é que aconteceu e a culpada é ela; isto só aconteceu porque ela nunca saiu do foco, nunca se deixou ir por outro caminho a não ser o querer mesmo isto. Pessoalmente, é um orgulho enorme ver a nossa menina na Seleção”.

A certo ponto, Rita torna-se ainda inspiração e pode ser força motriz para que outras raparigas possam seguir o seu exemplo e aventurar-se a vir jogar futebol. “Na ADM temos assistido a isso, muitas meninas a vir jogar e a Rita tem acompanhado de perto esse processo. Tem sido uma embaixadora nesse aspecto. O importante é usar as caraterísticas da Rita como um exemplo de atleta a seguir, sejam atletas masculinos ou femininas. Claro que queremos mais meninas a jogar, e se pudermos ter mais meninas na Seleção como é óbvio, e mais meninos, seria ótimo”, crê Diogo Jesus.

“É satisfatório olharmos, ao vir para um treino, e vermos 50 atletas em campo. Podemos sair daqui cansados, não é fácil todo o trabalho de cooperação e coordenação, mas olhar para eles compensa todo o trabalho que tem sido feito, por eles”, assegura o técnico, que defende que se deve “usar o futebol como possibilidade de estarem a fazer algo que gostam”.

“Na ADM defendemos que o objetivo é, mais do que ganhar, que venham jogar. E queremos puxar cada vez mais os pais para o clube e para os técnicos, e isso tem sido bom e temos feito um caminho satisfatório que tem feito crescer a associação. Têm aparecido muitos atletas e esperemos que hajam mais Ritas na ADM”, espera.

Rita com a sua equipa e treinadores na ADM. Foto: mediotejo.net

Já o atual treinador, Miguel Mota, demonstrou, de olhos reluzentes, “um orgulho imenso”.

“Ela dedica-se imenso, desde tenra idade, para nós é motivo de orgulho e dá-nos motivação para continuar. Significa que estamos a fazer um bom trabalho e a prova está na ida da Rita à Seleção. Ela merece mesmo; é uma jóia de menina, tem muita qualidade e isto apenas está a começar”, garante, esperançoso.

Entre as caraterísticas que destaca, além da técnica “muito acima da média”, é a “mais evoluída que treino deste grupo todo”, e “mentalmente é muito forte”, disse, sublinhando estas “grandes virtudes” de Rita como atleta.

O espírito coletivo, de união e família é muito cultivado na ADM, e durante os treinos isso é óbvio pelas manifestações a que vamos assistindo entre atletas e técnicos, e no trato entre os próprios atletas e amigos e familiares que partilham a bancada. “Quando entrei a primeira coisa que disse foi que, acima de tudo, somos uma família. E é verdade! Porque eu gosto deles como se fossem meus filhos, eles gostam de mim e acredito que me veem como se fosse pai deles. E funcionamos muito assim. Somos um grupo pequeno, com poucas pessoas, uma terra muito pequena. E se não for assim, deixa de fazer sentido. É basicamente a nossa família, a família do Mação. Corra bem ou corra mal”, frisa.

No rol de seguidores e pessoas a torcer por Ritinha estão os seus “manos”, os colegas de equipa, que não desgrudam e não cabem em si de contentes. São todos muito próximos de Rita.

José Jana, 14 anos, faz parte do grupo e diz que é um orgulho tê-la na equipa. Reconhece que todos os olham de forma diferente por terem uma rapariga a jogar, mas que é dentro das quatro linhas que mostram a massa de que são feitos e a união perfeita em prol do mesmo objetivo. “Não ligamos, o que interessa é o que deixamos dentro de campo. Não nos deixamos afetar”, assume.

Quanto à convocatória para a Seleção Nacional, recorda que se aperceberam disso na escola. Rita não queria acreditar. “Já tínhamos tido a boa notícia de não termos aula, e depois vemos esta notícia da convocatória, que foi sem dúvida a melhor. Gerou-se ali um clima… uma maravilha. Somos uma equipa unida, festejamos com ela. Foi um dia memorável e muito bom para ela e para todos nós. Nunca o vamos esquecer”, diz José, acrescentando que viram e analisaram os jogos todos, e admitiram ter notado na colega algum nervosismo no primeiro jogo, mas que foi evoluindo e ultrapassando nos seguintes.

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Já Tiago, vem de Tramagal, está esta época a jogar em Mação, e afirma que Rita é “uma ótima jogadora”, vendo na colega um bom exemplo de perseverança e de dedicação para alcançar o objetivo de jogar na Seleção A. “É um exemplo e mostra que se trabalharmos como ela, todos podemos ter a mesma oportunidade de chegar mais longe”, termina o jovem.

Merecedora de rasgados elogios e tendo Mação inteiro a torcer por si e para que concretize os seus sonhos, Ritinha está rodeada de bons augúrios sobre o que o destino lhe reserva. E se dúvidas houvesse, os factos não deixam margem para incertezas. Este é o momento e o ponto de viragem da jogadora naquela que poderá ser uma longa carreira futebolística ao serviço da Seleção Nacional, e de clubes de renome nacional e quiçá internacional.

Rita Carreira conta com 3 internacionalizações e 131 minutos jogados na equipa de Futebol Feminino da Seleção Nacional Sub-15, perante a convocatória em novembro de 2023. Se na altura foi apanhada de surpresa e não cabia em si de contente por ter alcançado essa oportunidade, agora vai ter essa sensação a dobrar.

A jovem foi novamente convocada para as sessões de trabalho que vão acontecer entre os dias 5 e 7 de fevereiro, num estágio de preparação de três dias. Rita regressa assim mais cedo do que pensava à Cidade do Futebol, estando entre as 24 atletas portuguesas convocadas pelo treinador José Paisana. Estão abertas as hostilidades para que Mação inteiro volte a vibrar com as conquistas da sua conterrânea.

Créditos: FPF

Além das sessões de treino, está ainda previsto um jogo com o Sintrense no dia 6, terça-feira, pelas 19h30.

PROGRAMA

05 de fevereiro de 2024 | segunda-feira
13h00: concentração em Oeiras
18h00: treino (Cidade do Futebol)

06 de fevereiro de 2024 | terça-feira
10h30: treino (Cidade do Futebol)
19h30: jogo de treino vs Sintrense (Cidade do Futebol)

07 de fevereiro de 2024 | quarta-feira
11h00: treino (Cidade do Futebol)
Após o almoço: regresso aos clubes

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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