A minha geração nasceu e cresceu na sombra dos sucedâneos da contestação académica ao regime e de Maio 62, da Guerra Colonial, da geração hippie, da contestação à guerra do Vietnam, de Maio 68, do 25 de Abril e esperávamos grandes coisas na evolução social e política nacional, europeia e mundial. Tínhamos “naturalmente” o sangue vermelho e o coração à esquerda e aspirávamos a um “mundo novo”.
Vivemos a construção da União Europeia, a queda do Muro de Berlim, a Lua e os computadores, a explosão da tecnologia.
Acreditámos no “Fim da História” e assistimos ao brutal “Regresso da História” e às novas fraturas de que é feita a desordem mundial.
Vimos a Europa e os EUA (o Ocidente) começar a arrastar os pés, afundarem-se na crise do sistema financeiro, os ex-colonizados libertarem-se e começarem a andar sozinhos, entrando na guerra pela prosperidade e riqueza mundiais como novos “players” que aspiram também a uma parte do poder mundial.
Estamos a ser confrontados com a mudança mais radical das nossas vidas. Podemos agora vê-lo.
O progresso do conhecimento, da ciência, das tecnologias, da inteligência artificial, da automação começa a generalizar o seu efeito fundamental: a criação de riqueza deixa de ser uma co-produção do trabalho e do capital e passa a ser uma produção do capital intensivo: o conhecimento, a ciência, as tecnologias. Qualquer investimento em crescimento e competitividade é investimento em tecnologias, automação, e tudo o que é digitalizavel será digitalizado e automatizavel. Logo: o trabalho humano, sob a forma de emprego, é destruido, rareia, escasseia, e podemos imaginar, no limite, uma sociedade onde a produção da riqueza dispensa o “trabalho assalariado” e onde a esmagadora maioria das pessoas ficará excluída do acesso ao rendimento.
O paradigma instaurado pelo capitalismo, tematizado pela economia clássica, teorizado e criticado por Marx (a dupla trabalho/capital e uma organização social do trabalho assente no trabalho assalariado (emprego) dissolve-se diante dos nossos olhos e finalmente o empobrecimento generalizado e a exclusão do acesso ao rendimento previstos por Marx aí estão.
Lenta e dolorosamente vivemos uma dobra da História e vamos ter que inventar uma nova organização social já não assente no trabalho assalariado (emprego) como fundamento e onde as pessoas, finalmente libertas do “trabalho produtivo” entregue à computação e automação, poderão “trabalhar” livremente na produção de bens, não transacionáveis mas “partilháveis”: o conhecimento, a cultura, a arte, a literatura, o desporto, a intervenção social – e terão acesso ao rendimento, não por via do salário, mas de uma renda universal e da prestação de serviços “partilháveis”.
Utopia? Hmmm, pois, mas em diversas cidades europeias essa renda universal começa a ser objeto de experimentação social.
Ah! E na Finlândia também ..
Começa a haver quem entenda o que está a chegar.
