Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.
Nos trabalhos dos grandes escritores, escreveu Ralph Waldo Emerson, encontramos “os nossos pensamentos negligenciados”. Para o pai da tradição intelectual norte-americana, a educação faz-se pela natureza, pelo conhecimento e pela experiência. A verdade corresponde a uma iluminação atingida quando abrimos o coração à intuição. Emerson estudou grego, latim e história em Harvard e leu em hindu os textos dos filósofos indianos. Mas o saber livresco não resolve todos os problemas: “tal como um viajante perdido no deserto, por vezes só nos resta tirar as rédeas ao cavalo e deixar que seja o animal a conduzir.”
A filosofia de Emerson inspirou a pedagogia moderna que rompeu com a tradição de ensinar as crianças a imitar os mestres, mas também a arte e o jornalismo. Ambas as profissões, a de artista e a de jornalista, precisam de pessoas autoconfiantes, que acreditam nas suas capacidades para procurarem a verdade entre visões contraditórias, mas sensíveis, que não praticam a “aversão” pelos outros.
Os repórteres que andam no terreno, como se diz na gíria jornalística, conhecem o sentimento de estacar de repente diante de algo ou alguém que, numa frase ou imagem, nos faz compreender todo o universo e cuja história irá mergulhar o leitor no âmago da experiência, se a soubermos contar bem. Exatamente como aconteceu a Waldo Emerson que, na sua primeira visita ao Jardim das Plantas, em Paris, em 1832, se sentiu “crocodilo, carpa, águia e raposa” e compreendeu que a natureza também vive em nós.
O propósito do jornalismo numa sociedade democrática é o mesmo que Tzvetan Todorov definiu para a literatura: “serve para viver, ou para sobreviver, ou para nos fazer viver melhor.” O jornalismo tem uma pulsão para fazer equivaler viver melhor com conviver com a diferença, mas esforça-se para que o combate seja elevado. Em vez de atirarmos pedras uns aos outros, sugere o jornalismo, podemos apenas atirar jornais. Os argumentos são expressos com a mesma paixão, e ninguém morre. O jornalismo partilha a busca pela limpidez e pela clareza da exposição, um clarão que ativa uma vontade de pensamento e ação dentro dos leitores. Estes serão mobilizados, não pela complexidade das palavras, mas pelo reconhecimento e valorização da experiência que é posta em comum.
“O jornalismo partilha a busca pela limpidez e pela clareza da exposição, um clarão que ativa uma vontade de pensamento e ação dentro dos leitores”
Poucos temas geram tanta controvérsia como a leitura da história, aquilo que as sociedades relevam como memorável. Em 2016, a ativista Caroline Perez sentiu um arrepio quando desfilava por entre as estátuas da Praça do Parlamento, em Londres, durante uma marcha para assinalar o Dia Internacional da Mulher. Reparou pela primeira vez que eram todas de homens, feitas por homens.

Em 2018, a primeira estátua de uma mulher, feita por outra mulher, foi desvelada naquele lugar, numa cerimónia presidida pela segunda primeira-ministra na história de Inglaterra, Theresa May. Homenageia a sufragista Millicet Fawcet, que começou a lutar pelo voto feminino quando tinha 20 anos e só aos 81, um ano antes de morrer, se sentou nas galerias da Câmara dos Comuns para ouvir os discursos que celebravam a conquista desse direito, em 1928.
A obra é da autoria da artista conceptual Gillian Wearing, vencedora do Prémio Turner em 1997. A estátua, porém, é clássica. Representa Fawcet quando ela tinha 50 anos, com o cabelo apanhado num austero rabo de cavalo e envergando um vestido comprido. Nas mãos, segura um cartaz com a frase “A coragem exige coragem em todo o lado”. Segundo o The Guardian, duas jovens de 15 anos que assistiram à cerimónia sentiram-se inspiradas a lutar pela igualdade.
Em 2020, algo muito diferente aconteceu quando a estátua de Mary Wollstonecraft foi desvelada em Newington Green, no norte de Londres. Foi ali que Wollstonecraft viveu e dirigiu uma escola para raparigas, depois de ter escrito, em 1792, o manifesto fundador do feminismo, “Uma Reivindicação pelos Direitos das Mulheres”.
Uma comissão de moradores levou 10 anos para reunir o dinheiro necessário, cerca de 140 000 euros. A obra foi comissariada a uma escultora e pintora de 75 anos, Maggie Hambling, conhecida por defender ferozmente a sua liberdade criativa. Trabalhos anteriores de Hambling demonstram a originalidade da sua abordagem. Uma estátua de Benjamin Britten representa o compositor em forma de concha, e outra de Oscar Wilde mostra a cabeça deformada do escritor emergindo de um sarcófago.
Neste caso, Hambling optou por esculpir uma forma retorcida em aço prateado no topo da qual surge a pequena figura de uma jovem mulher, com abdominais musculados, peitos firmes e uma púbis abundante. Para vermos tudo isto, evidentemente, está nua. A artista fez questão de dizer que a obra não pretende representar Wollstonecraft: é para ela, não sobre ela.
Os membros da comissão de moradores empenhados na campanha de crowfunding ficaram desapontados. O jornalista Ben Rowlatt tentou ver o lado bom. Graças à controversa estátua, milhares de pessoas ficaram a conhecer o legado histórico de Mary Wollstonecraft, em vez de apenas a associarem à mãe de Mary Shelley, autora da novela Frankenstein. Wollstonecraft morreu no parto de Shelley, a sua segunda filha. Além disso, argumentou o jornalista, a nudez não é sexualizada: não convida, mas desafia.

Várias feministas sentiram-se ultrajadas. Perez que, para além da estátua de Fawcet, liderou a campanha para que o rosto da escritora Jane Austen figurasse nas notas de 10 libras, disse ser muito triste que tanto empenho resultasse numa obra tão catastrófica. Julia Lang, uma das moradoras, correu a tapar a estátua com uma T-shirt e escreveu no Twitter contra a objetivação das mulheres. A escritora Tracy King perguntou se alguém imagina uma estátua de Winston Churchill com o pénis à mostra e lançou um desafio (retórico): quando um rapaz de 16 anos passar pelo parque e olhar para a estátua vai imaginar uma filósofa feminista, ou vai ver mamas?
Nunca fui a Newington Green e talvez nunca venha a ver a obra ao vivo. Graças ao jornalismo, fui seguindo esta polémica, agradecendo a possibilidade de ouvir os argumentos e aprender tanta coisa. O melhor de tudo é que nenhum jornalista me disse o que eu devia pensar sobre a estátua. Cheguei a esta conclusão pela minha própria cabeça, como Emerson teria gostado: acho-a genial.
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