Olga Antunes escolheu ser professora no ensino público. Numa escola pública “muito mais complexa” do que aquela que conheceu quando iniciou a dar aulas. “A escola é o reflexo da sociedade”, afirma. Por isso, sonha com uma escola atrativa, um local onde os alunos gostem de estar e se sintam motivados. Também com uma rede de transportes públicos que permitisse que as escolas de Abrantes, Vila Nova da Barquinha e Entroncamento trabalhassem em conjunto com a de Constância. Esse sonho faz parte do seu projeto para os próximos quatro anos, os últimos como diretora escolar. “Uma rede de transportes que permitisse aos alunos optar por uma das escolas”, explica.
Num concelho que perde habitantes, como Constância, para a diretora – e respetiva equipa – de um Agrupamento escolar, os desafios são vários. A escola “necessita de ser atrativa para alunos de outros concelhos” caso contrário será complicado manter as portas abertas só com a prata da casa. Apesar do Agrupamento ainda apresentar “uma percentagem superior de alunos que vêm de fora do concelho” relativamente aos alunos que saem de Constância para estudar noutras escolas.
“O balanço ainda é positivo”, afirma a diretora. No entanto, numa região que tem perdido população, “todas as escolas estão a puxar pelos seus alunos, havendo algumas com excedente mas é difícil vir para Constância, principalmente porque não há uma rede de transportes” pensada para alunos que optem por uma rede escolar mais alargada, refere a responsável.
Ainda assim, num total de 550 alunos (menos 50 em relação ao ano letivo anterior), 27% dos alunos do Agrupamento não são residentes no concelho, mas dos três concelhos vizinhos já referidos e também de Tomar. Porém, a realidade atual de maior número de inscrições no Jardim de Infância faz antever que o Agrupamento contará com um crescimento no futuro.

Para cumprir tal desafio, Olga Antunes defende uma escola “capaz de manter a diferença, sobretudo pela forma como faz aprender”. Aceitando o desafio das novas tecnologias e das novas formas de aprender, defende que todos os alunos tenham o seu espaço “incluindo aqueles que têm menos competências”.
Um objetivo sempre presente, diz, referindo-se “ao valor acrescentado aos filhos das famílias que têm menos capacidades e recursos para os acompanhar. É nestes alunos, que exigem maior esforço da escola, que fazemos a diferença”. Sem esquecer os alunos da educação especial que sendo “alunos da nossa escola, se queremos que seja inclusiva… é fácil integrá-los; difícil é que sejam parte da escola”.
Para Olga Antunes, a autarquia também tem um papel importante no que diz respeito à atratividade da escola, uma vez que a Escola Básica e Secundária Luís de Camões, sede do Agrupamento, foi construída em 1991 e “nunca teve uma intervenção de fundo”, ao contrário dos centros escolares de Montalvo e de Santa Margarida da Coutada.
“Apesar de estar bem conservada, temos feito um esforço, ainda assim os alunos comparam os espaços; as escolas de Abrantes que tiveram uma intervenção há pouco tempo, a escola da Barquinha, a escola do Entroncamento que está a ser intervencionada”, aponta.
O Agrupamento de Escolas de Constância não abriu, este ano letivo, cursos do ensino profissional. “É o parente pobre! Aquele que os pais acham que é para quem não é capaz de fazer outra coisa”.
A professora explica que as áreas do ensino profissional mudam “com o tempo e com a sociedade” mas principalmente tendo em conta as necessidades de formação das empresas do território. A oferta já passou pelo curso de Cozinha, pelo curso de Manutenção Industrial, também pelo curso de Eletrónica e por Técnico de Comunicação e Serviço Digital.
“Este ano não conseguimos abrir nenhum curso profissional porque, dos 53 alunos que tínhamos no 9º ano, abrimos uma turma de prosseguimento de estudos” e os restantes dividiram-se por outras ofertas.
Os cursos profissionais são um percurso de ensino secundário com dupla certificação, ou seja, em que se desenvolvem competências sociais, científicas e profissionais necessárias ao exercício de uma atividade profissional e, simultaneamente, se obtém o nível secundário de educação. Mas muitos encarregados de educação continuam a “resistir” a esse tipo de ensino, querendo para os filhos um curso universitário.
“Gostaria muito que, nesta rede de escolas que referi, os cursos profissionais pudessem fazer parte dessa rede. Haver uma troca de alunos, que nas áreas técnicas pudessem mudar de escola. Mas depois coloca-se novamente a questão do transporte. O calcanhares de Aquiles na construção de redes é sempre o transporte. Vou tentar com as autarquias, com a Comunidade Intermunicipal… vamos ver se conseguimos”, avança, defendendo que as escolas próximas deveriam sempre oferecer cursos diferentes para não fazerem concorrência entre si. Mas tal não acontece”, lamenta.
Critica igualmente a “falta de coragem” das escolas de “não abrirem cursos que não têm empregabilidade”, como por exemplo o curso de Desporto, diz. Por outro lado, indica que aumentou o número de alunos do ensino profissional que opta seguir para o ensino superior, havendo a ideia de “aumentar as competências” e não apenas pelo diploma. Olga Antunes considera que os Institutos Politécnicos “têm feito um bom trabalho” na transição de alunos do profissional para o superior.

No entanto, Olga Antunes é categórica quanto à falta de preparação de um aluno do 9º ano para escolher uma área que desenhe o seu futuro.
“Não! E cada vez menos. Por muito que façamos uma orientação vocacional, os alunos do 9º ano não sabem muito bem o que querem. E depois há muitos pais que escolhem, independentemente da psicóloga dizer que, naquela área, o filho não será tão competente. As ciências e tecnologias há a ideia de ser a área dos doutores e engenheiros, as artes é uma área completamente desvalorizada, mesmo que o filho goste muito”.
“O ensino secundário como está continua a ser a incubadora do ensino superior e não pode ser este o objetivo”, salienta.
Contrariando o cenário geral do País, no Agrupamento de Escolas de Constância não faltaram professores no presente ano letivo. “No dia 15 de setembro só nos faltaram professores de substituição de colegas que apresentaram atestados. Não temos falta de professores. Já no ano passado não tivemos”, declarou, reconhecendo ter havido “períodos” em que a substituição de professores “foi mais difícil”.
Mobilidade é a palavra que caracteriza o presente ano letivo na escola de Constância. “No primeiro ciclo, em onze professores, nove vieram de novo. Na EB 2/3 também há grande mobilidade”. Apesar dessa realidade, Olga Antunes considera a falta de professores “preocupante” até porque das 11 turmas do primeiro ciclo, nove professores têm mais de 60 anos, “quer dizer que daqui a quatro anos se vão reformar. Se temos professores para os substituir? Provavelmente não”.
Entre as disciplinas mais preocupantes a diretora indica Português, Geografia, História, Físico/Química e Matemática. A questão salarial é um fator que afasta os jovens da profissão mas na balança, a diretora considera que pesa mais a “estabilidade”.
Na escola de Constância há professores do Fundão, de Leiria, e de Coimbra, que regressam diariamente a casa. Olga Antunes manifesta dúvidas quanto à eficácia das medidas apresentadas pela tutela como solução para a falta de professores.
“Conheço um professor” disposto a continuar após a idade de reforma. “É uma profissão bastante desgastante”, admite. Sendo que a realidade da escola pública passa por receber “todos, e não apenas os alunos que se quer”. Além disso, sente “falta de confiança na escola, nos professores” por parte das famílias e muitas vezes “quase uma atitude de fazer o contrário daquilo que a escola preconiza”.
“É muito complicado gerir as diferenças, a instabilidade da sociedade, parece que toda a gente está de mal com a vida, estão zangados. E claro, reflete-se na escola”, constata.
Porém, considera que o problema não está apenas nas famílias mas também nos professores. Muitos recusam, na realidade atual, alterar a forma de ensinar. “E mesmo os que se empenham para fazer diferente não têm o reconhecimento desse trabalho. Por outro lado as famílias e os alunos têm a ideia: não preciso da escola, a informação está toda aí e está na Internet, quero fazer um trabalho a Inteligência Artificial faz”.
Daí a necessidade da “escola fazer entender às famílias que a informação está lá mas é preciso selecioná-la, é preciso ter sentido crítico, pensamento crítico em relação às coisas. Essa é a grande função da escola. A escola ensina? Não! A escola tem de fazer aprender”, defende.
No entanto, levar os alunos a refletir não se apresenta tarefa fácil, uma vez que o tempo é escasso para cumprir programas e burocracias, admite.

Esta vontade de “fazer diferente” motivou Olga Antunes a recandidatar-se a um terceiro mandato de quatro anos como diretora, num total de 12. “Acho que ainda tenho mais alguma coisa para dar à comunidade escolar”. Manter a mesma equipa de direção foi uma das condições para a recandidatura.
No seu projeto escolar – e da sua equipa – valoriza-se precisamente o trabalho de equipa e os profissionais de Educação como agentes de mudança, a inclusão e as aprendizagens diferentes e diferenciadas. Garante que cada aluno tem o seu espaço dentro da escola, que gosta de estar na escola e de aprender. E que no final do seu percurso escolar, os alunos sintam estabilidade para avançar, qualquer que seja o caminho. “Gosto de acreditar que criámos aqui um ponto onde os alunos gostam de voltar. E a maioria gosta!”, afirma.
Passado este mandato de quatro anos que, agora se iniciou, Olga Antunes conta dedicar-se família.
“Muito provavelmente vou ser avó, vou ser mãe, vou ser filha. Considero muito importante a família e acho que este sentido de família é muito aquilo que me faz sentir a escola como uma família profissional, uma família mais alargada. Se conseguirei desligar da escola? Acho que não. Professora uma vez, professora para a vida inteira”.
