Pensava eu que os meios de comunicação social tinham aprendido a lição. Afinal não. Se calhar é de mim. Mas depois vejo as entidades com responsabilidades na defesa dos direitos das crianças a atuarem e concluo que afinal não é de mim. Passa-se mesmo qualquer coisa com a nossa comunicação social/empresarial.

Então, agora que a “Supernanny” foi “pensar para o banquinho”, vem a Moche dizer aos nossos jovens “Destrói os teus amigos sem gastar Net”. Oi?? Há qualquer coisa que me ultrapassa nestas publicidades. Se calhar sou eu não vejo o alcance da publicidade. Numa sociedade em que se fala cada vez mais de casos de bullying, em que se discute a pertinência da adoção de medidas preventivas e reparadoras dos casos de violência, temos uma publicidade a incitar à violência e a desvalorizar a amizade, que passa em horário nobre em todas as tv’s lá de casa. Parece-me que a empresa de comunicações visada, não mediu bem o impacto das palavras, ou então agora temos o “vale tudo”, desde que se fale da marca.

Já quase que parece que agora somos todos puritanos e que não se pode dizer ou fazer nada na televisão ou na rádio, que lá vem um bando de fundamentalistas defender o alegado superior interesse da criança. Mas o que eu questiono é: Que valores estamos a passar? Que sociedade estamos a construir quando já nada importa? Quando ouvimos jovens adultos dizer que também não faz mal dar uns tabefes aos miúdos porque ele também levou e está ali. Pois, nota-se o que os tabefes lhe fizeram… Não acho que devemos ser radicais ao ponto de colocar as crianças numa redoma de vidro e não as expor à cruel realidade da nossa sociedade, mas antes temos de lhes dar ferramentas para que elas, expostas a esta crueza, consigam safar-se. Consigam ver o que está certo e errado e se consigam proteger de eventuais bullies (agressores).

Bem, aguardemos então que a Direção-Geral do Consumidor faça cumprir o código da publicidade.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

Deixe um comentário

Leave a Reply