O trajeto existe e possui algumas, poucas, marcações. Mas para visitar as gravuras rupestres do vale do Ocreza, no concelho de Mação, é necessário contactar o Museu de Arte Pré-Histórica de Mação e levar um guia. O objetivo é a preservação do local e das suas gravuras ruprestes, num combate já desigual com a erosão.
No entanto, para quem conhece, não há muito que enganar: basta andar quase sempre em frente pela margem do rio Ocreza, contornando o viaduto da A23. As gravuras encontram-se nos últimos quatro de 14 quilómetros de caminhada. Um regresso à pré-história patrocinado pelo município de Mação, e que o mediotejo.net acompanhou, assinalando em maio de 2017 o Dia Internacional dos Museus, proposta que este ano a autarquia renova para este sábado, dia 18 de maio.
Os percursos pedestres estão na moda e pelo concelho de Mação há vários, realizados com bastante frequência por grupos de apaixonados pela caminhada, descobre o mediotejo.net nesta sua viagem à pré-história. No entanto, o circuito rupestre no vale do Ocreza, em Envendos, tem características específicas.

Apesar da indicação da sua existência, não possui as tradicionais marcações dos percursos pedestres, as paralelas a amarelo e vermelho, nem qualquer placa a indicar a localização das gravuras rupestres.
Segundo explicam a técnicas do Museu de Mação, a arqueóloga Sara Garcês e Anabela Pereira, o objetivo é preservar o local, as gravuras, exigindo-se que os curiosos contactem o Museu e façam o percurso acompanhados. Existindo enquanto circuito com um traçado de 14 quilómetros, não é um percurso pedestre oficial.
Estava marcado como grau de dificuldade elevado, explica logo de início Sara Garcês, mas tal deve-se à descida inicial, a pique, e à subida final, que efetivamente exigem alguma força nas pernas e cuidados adicionais. O percurso em si, pelas margens do rio Ocreza, não oferece, porém, grande dificuldade.
Percorre-se o rio identificando plantas silvestres e pedra de xisto, num cenário temperado por um rio que segue rápido a caminho do Tejo. Calçado adequado e água são essenciais, até porque o sol bate muito forte por estas paragens.

A caminhada reuniu cerca de 40 pessoas num trajeto que realizou apenas cerca de metade do circuito existente. O objetivo é ver as gravuras rupestres de cuja existência nos fala o Museu de Mação: o círculo, o peixe, o cavalinho do Ocreza, esta última uma gravura descoberta há menos de 20 anos, aquando a construção da A23, e que é o registo mais antigo local, dos tempos do paleolítico, que abriu novas perspetivas à investigação arqueológica no concelho.
“Porque não levam as pedras para o Museu?”, questiona-se, constatando-se a deterioração que a própria natureza está a provocar a estes registos pré-históricos. Porque se perde toda a envolvência e a própria história que acompanha estas gravuras, explica Sara Garcês por diversas vezes, que um Museu nunca conseguiria reproduzir.
Mas como contornar a passagem de pescadores e curiosos que desconhecem os locais das gravuras e podem danificar este património?

“É evidente que tenho medo que alguém venha e estrague. Mas há este trabalho, estes passeios, é por isso que fazemos estas coisas, para mostrar às pessoas. Não escondemos nada. Este é o vosso património, é o nosso património. É o património de toda a gente. E acima de tudo é importante preservá-lo”, explica a arqueóloga.
Há muita arte rupestre espalhada pelo vale, mas a maioria está debaixo de água devido à construção das barragens. O acompanhamento das técnicas do Museu permite contextualizar a história das gravuras e de como estas terão surgido nas margens do Ocreza, por razões ainda difíceis hoje de precisar.
“Já tivemos alturas de não ter espaço para toda a gente”, comenta Anabela Pereira, explicando que, nesses casos, se organizam duas caminhadas. Os caminhantes acorrem porque são interessados pela arte rupestre ou pelo paisagem, mas também há quem faça a visita pelo desporto e pela caminhada.
“Muitos já não é a primeira vez”, indica, apresentando uma senhora que admite já ter realizado o percurso cinco vezes, mas que prefere não contar a sua história.
Ao vale, explica Sara Garcês, começam a regressar os veados, apesar de não ter sido possível ver nenhum. Lontras, javalis e cegonhas também habitam por estas paragens, mas fogem com o barulho dos humanos.
A grande pedra com a imagem do peixe/veado (há diferentes interpretações) já quase não deixa ver as gravura. Temos que mudar de posição, trabalhar com as sombras, para conseguir vislumbrar as marcações. Numa noite de lua cheia, é explicado, com uma lanterna, as gravuras vêem-se muito bem.
“Parece uma barata”, alguém comenta. A simbologia destes desenhos é hoje desconhecida do homem atual, mas Sara Garcês admite que iria muito além da representação de animais.
Bem junto ao rio, o cavalinho do paleolítico é o que desperta mais curiosidade. As margens do rio Ocreza albergam dezenas de gravuras rupestres, sendo a gravura do cavalo, descoberta no ano 2000 e que terá sido feita há mais de 20 mil anos, a mais antiga gravura entre os cerca de 40 mil motivos do complexo rupestre do Tejo, e uma das mais importantes da arte rupestre de Portugal central.
Os traços estão bem definidos, mas também aqui a natureza começa a fazer alguns estragos. Algumas teorias, comenta a arqueóloga, ligam a imagem do cavalo à força do rio, que aqui se faz sentir com mais evidência.
O regresso faz-se por uma estrada de terra batida durante alguns quilómetros, rodeados por pinhal e eucaliptal. Para os amantes da caminhada, o último troço perde algum do seu encanto. Ao lado segue a A23, num cruzamento irónico entre a antiguidade e a modernidade.
O vale não deixa de ser um local inóspito de difícil acesso que conserva boa parte do seu lado selvagem. Se as gravuras não despertarem a atenção, conhecer esse pedaço de um Portugal profundo e desconhecido, onde a natureza ainda se impõe à mão do homem, é uma visita que vale o esforço.
As inscrições para o passeio pedestre ao vale do Ocreza a realizar este sábado, dia 18 de maio, podem ser efetuadas através do email: museu@cm-macao.pt ou pelo telefone 241571477.
Alguns momentos do passeio:
*Artigo publicado em maio de 2017, republicado em maio de 2019
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