Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio, grande parte do percurso à beira Tejo. Créditos: mediotejo.net

Esta é uma viagem sobre sensações, a tentar descrever a beleza paisagística em verde e azul e para falar de riqueza natural e patrimonial. Poder contar como é viajar de comboio entre o Entroncamento e Castelo Branco, seguindo as pegadas de Rafael Bordalo Pinheiro, um dos narradores da viagem inaugural da Linha da Beira Baixa, a 5 de setembro de 1891. O jornal mediotejo.net acompanhou a mesma viagem, 131 anos depois, a convite da organização do Rail Fest, e do município do Entroncamento. Tal como o famoso caricaturista, lá fomos de papel e lápis na mão, registando em reportagem, desta feita ilustrada pelas fotografias captadas por uma câmara digital, alguns dos momentos mais importantes da viagem. Deixamos de lado os comportamentos da sociedade e o sentido divertido e mordaz característico do artista. Mas continuamos a centrar-nos na surpresa que, por certo, uma viagem de comboio pela Linha da Beira Baixa constitui para quem ainda desconhece a região.

A 5 de setembro de 1891, partia de Sintra o rei D. Carlos, a rainha Dona Amélia e seus ilustres convidados, numa viagem real, rumo à Covilhã, para aquela que foi a primeira viagem real da Linha da Beira Baixa. O que motivou a viagem? A visita aos apeadeiros e estações que o caminho de ferro, no seu galopante processo de expansão, marcou na paisagem, nas cidades, no coração e na memória das populações.

Após anos de indecisões sobre a Linha da Beira Baixa, estava pronto o primeiro troço desta linha, de Abrantes à Covilhã. Uma paragem na Casa de Artes e Cultura do Tejo, em Vila Velha de Rodão, permite uma visita à exposição ‘Rails do Progresso’ que convida a acompanhar esta viagem através dos periódicos da época que, naqueles dias, tão bem registaram os pormenores do evento, na forma de ilustração pela mão de Bordalo Pinheiro, mas também em descrições repletas de apontamentos políticos e sociológicos.

A exposição é uma parceria com a Fundação Museu Nacional Ferroviário e que pode visitar fazendo uma paragem, antes de chegar a Castelo Branco numa viagem que começará em Lisboa, em Vila Franca de Xira ou em Santarém. A nossa iniciou no Entroncamento.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio. Castelo de Almourol. Créditos: mediotejo.net

O comboio, composto por carruagens Schindler dos anos 1940, pintadas de um vermelho brilhante, recuperadas recentemente em Portugal, podia levar 280 passageiros, mas no sábado, 9 de abril, o número foi mais baixo a pensar ainda nas contingências da pandemia.

Ainda assim transportou políticos, jornalistas e outros convidados, ou seja, aqueles que vivenciaram aquilo que os autarcas do Médio Tejo (e não só) esperam ser o primeiro passo de uma aposta de mudança de agulhas. Porque, tão pouco se tratou de uma viagem experimental de uma campanha da CP – apesar da viagem realizada no dia seguinte -, mas sim no âmbito do Rail Fest, programa cultural em rede dinamizado pelo Entroncamento, Águeda e Vila Velha de Rodão, cujo mote é o património ferroviário e decorre até junho.

No entanto, no que toca a projetos turísticos, há uma luz ao fundo do túnel na Linha Ferroviária da Beira Baixa, ao mostrar o Tejo em estado puro. Para já fica a proposta no ar, até pela qualidade que teria o produto turístico, se vier a ser criado, à semelhança da Linha Ferroviária do Douro e na aposta no Comboio Histórico.

Por cá, um comboio com janelas panorâmicas, tipo MiraDouro, ou seja, que se abrem até meio e que nos permitem ficar de cabelo ao vento, devido à marcha veloz, contemplar a paisagem sem filtros e sentir os cheiros da terra ribatejana, alentejana, beirã e do Tejo. Foi o que tivemos no sábado.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio. Na estação de Abrantes. Créditos: mediotejo.net

O comboio partiu do Entroncamento às 9h30 da manhã. Antes da partida e durante toda a viagem, os passageiros contaram com a animação musical de Pedro Dyonysio e Dominique Ventura. A chuva da manhã ameaçava acinzentar o dia mas a tarde acabou por compor-se com sol e as máquinas fotográficas, de jornalistas e amantes de fotografia, acotovelavam-se na carruagem das bicicletas perante a grande janela aberta diretamente para o Tejo, porque nas outras carruagens, os lugares à janela com vista para o rio estavam todos ocupados. Mal o comboio arranca da estação do Entroncamento percebe-se porquê.

Rapidamente o Tejo aparece do lado direito; tranquilo, ladeado de vegetação variada e verde. Mais à frente, a partir do concelho de Gavião, é ver os grifos a esvoaçar nos céus ao mesmo tempo que outras aves levantam voo da beira rio à passagem do comboio. Mas pouco depois de se ouvir o apito da partida, logo se avista, do alto do seu monte, o Castelo de Almourol. Daí para cima é sempre a somar o espanto, principalmente a partir de Abrantes.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio. Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A Linha da Beira Baixa é uma ligação ferroviária de via larga que une a estação de Abrantes à Guarda. Tem 212 quilómetros de extensão. Nesta viagem – do Entroncamento a Castelo Banco – percorremos 123 quilómetros.

Linha rica em obras de arte, foi necessária a construção de várias pontes, viadutos e túneis, para ultrapassar as barreiras geológicas impostas ao longo de todo o trajeto.

A magnitude dos trabalhos exigiu muita mão de obra. A irregularidade do terreno, as margens do rio Tejo e a proximidade da fronteira criaram muitos desafios. Os meses de junho, julho e agosto de 1891 foram de trabalho intenso, dia e noite. Foram recrutados quatro mil operários, incluindo um grande número de mulheres. Na Covilhã, os trabalhos eram executados a toda a velocidade, para que a chegada da primeira locomotiva à estação da Covilhã acontecesse a 30 de junho de 1891.

O troço de Abrantes à Covilhã foi concluído em setembro de 1891. Em maio de 1893, foi aberta à exploração toda a linha, de Abrantes à Guarda.

Apesar de ser vulgar, ainda hoje e fora dos grandes centros urbanos, ver pessoas na estação do Entroncamento, também pelas gentes, esta viagem imerge na história de uma época em que os comboios, por norma cheios de passageiros, integravam uma realidade social. Esta iniciativa contou com a presença da ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, que, pela primeira vez, fez esta viagem e na qual destacou a sua convicção na importância do investimento na ferrovia como alavanca para o desenvolvimento do país.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio. A ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, e o presidente da Câmara de Vila Velha de Rodão, Luís Pereira. Créditos: mediotejo.net

“Viajo pela minha zona do coração, a Beira Baixa, em carruagens recuperadas por profissionais portugueses. Com este comboio a valorizar território do interior e, portanto, a promover o turismo. Esta viagem é um repto para que outros se juntem e venham visitar estes territórios, vivendo várias experiências ao mesmo tempo: da viagem, da visita ao nosso património cultural, natural, à gastronomia. Uma oportunidade de termos experiências excelentes, e conhecer um território tão bonito, cada vez mais valorizado”, destacou Ana Abrunhosa, em declarações ao nosso jornal.

Na verdade, estes 123 quilómetros, com a Linha quase sempre ao lado do Tejo, por vezes tão próxima do rio que, não fosse a velocidade do comboio, mais parecia que estávamos num barco, tem uma beleza natural impossível de ignorar e, portanto, mesmo sem comboio turístico, uma ideia sempre interessante de concretizar num qualquer fim de semana ou num dia feriado, ainda que ganhe outra dimensão a bordo de um comboio com janelas panorâmicas.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio, grande parte do percurso à beira Tejo. Portas de Rodão. Créditos: mediotejo.net

O passeio deve ser iniciado pela manhã. Pontos de interesse não faltam ao redor da linha, apesar de nos focarmos no troço que vai do Entroncamento até Castelo Branco, uma cidade que marca a fronteira entre duas regiões culturais: o mundo do granito e o mundo do xisto, onde pode ir almoçar, visitar os famosos Jardins do Paço Episcopal, o Museu da Seda ou o Museu Cargaleiro e regressar a casa ao final do dia.

Na viagem de comboio, entre os pontos de interesse a observar na paisagem, destaque para o Castelo de Almourol, a passagem para a margem esquerda do Tejo na cidade de Abrantes, com a beleza do Aquapolis e a ponte metálica em pano de fundo, em baixo, e o Castelo, qual sentinela, no ponto mais alto da cidade.

Poucos quilómetros acima avistamos as chaminés da Central Termoelétrica do Pego, depois a ponte que liga Alvega a Mouriscas, construída precisamente para transportar o carvão que alimentava a Central, de seguida o ponto de referência da estação de Alvega/Ortiga, ou seja, a casa da Vila Marques, e um par de minutos depois avistamos a barragem de Belver.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio. A emblemática casa de Vila Marques ao lado da Estação de Alvega/Ortiga. Créditos: mediotejo.net

De olhos postos nos rochedos que ladeiam as águas, vamos encontrando passadiços à beira Tejo como em Ortiga (Mação), Gavião, mirando a praia fluvial do Alamal observada pelo Castelo de Belver lá do alto da sua escarpa, e depressa chegamos à ponte metálica. Depois os passadiços da Barca d’Amieira, em Nisa, sendo possível observar o popular Miradouro Skywalk, com parte do chão em vidro, a ponte suspensa e o muro de sirga, a barragem do Fratel e quase no fim as Portas de Rodão.

No regresso, a caminho do Entroncamento, o comboio teve o acompanhamento, numa pequena parte do percurso, de embarcações Avieiras da Confraria ibérica do Tejo.

Viagem pela linha da Beira Baixa, de Entroncamento a Castelo Branco, perfazendo 123 quilómetros de comboio. Chaminé da Central Termoelétrica do Pego. Créditos: mediotejo.net

Marcaram também presença a presidente da CCDRCentro , Isabel Damasceno, o presidente do Turismo Centro de Portugal, Pedro Machado, o vice-presidente da CIM Médio Tejo, Manuel Jorge Valamatos (também presidente da Câmara de Abrantes), o presidente da CIM da Beira Baixa, João Lobo, o representante do Centro de Competências Ferroviário, Carlos Barbosa, o presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário, Manuel Cabral, os presidentes das Câmaras do Entroncamento, Vila Velha de Rodão, Águeda e Castelo Branco, respetivamente Jorge Faria, Luís Pereira, Jorge Almeida e Leopoldo Rodrigues, alguns convidados e os vencedores do concurso de fotografia “Paisagens Ferroviárias”.

“Viajar é preciso!” é o mote do Rail Fest – Programação Cultural em Rede. É também a resposta dos municípios do Entroncamento, Águeda e Vila Velha de Ródão – três territórios que partilham entre si uma identidade intimamente ligada à ferrovia – à necessidade que sentimos de conhecer novos locais e culturas ou de os revisitar.

Paralelamente, é também a resposta dada ao convite feito pela Comissão Europeia, que escolheu 2021 para assinalar o Ano Europeu do Transporte Ferroviário. O Programa propõe, assim, viagens de comboio, aliadas ao património cultural e identidade territorial.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comentário

  1. Os meus parabéns por esta reportagem excepcional que o Caminho de Ferro e, neste caso a Linha da Beira Baixa e o Tejo bem merecem. Tantas vezes fiz essa viagem que foi muito bom poder recordar essas viagens e esse Tejo magnifico… quando leva água.

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