Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

O percurso Caminho do Tejo junta dois concelhos; Abrantes e Constância, num total de 45 quilómetros que, provavelmente, ninguém caminha num só dia. Nós pelo menos não! A primeira etapa começa na Estação de Canoagem de Alvega, com vista para o rio Tejo à direita e termina na margem sul do Aquapolis, em Rossio ao Sul do Tejo, perfazendo cerca de 22 quilómetros. Contudo, o destino desta vez foi diferente.

Segundo os mapas disponíveis nos placards informativos na Estação de Canoagem, o caminho serpenteia em constante sobe e desce entre Alvega e Pego (são 14 quilómetros de percurso). Desta vez não conseguimos comprovar esse trilho porque na encruzilhada, escolhemos a esquerda que nos levou a Ribeira do Fernando. Se tivéssemos seguido pela direita e percorrido (a partir daquele ponto) 13 quilómetros, no Pego desceríamos até à cota do rio, para percorrer as margens com choupos, lódãos, salgueiros e alguns sobreiros.

Portanto, não chegámos ao canal de Alfanzira, no rio Tejo. Aliás, da frescura do Tejo só mesmo na partida e na chegada, embora a paisagem seja marcada pelos terrenos férteis das margens do rio onde subsistem extensos campos agrícolas substituídos nas margens mais declivosas por sobreiros e azinheiras. No caminho, de execução fácil por ser linear, as folhas soltas e secas dos sobreiros estalam ao serem pisadas, sobre o solo arenoso e fofo.

O Solar de Alvega, do Conde Mendanhas. hoje um alojamento de turismo. Créditos: CMA

Paralelamente o traçado do PR4 – que, em parte, tem lugar nos mesmos trilhos – desenvolve-se maioritariamente por caminhos agrícolas e florestais de terra batida, nas proximidades do rio Tejo, e não apresenta declives significativos. Trata-se de um percurso circular , de 12,2 kms, com início e fim em Alvega, no decurso do qual se atravessam as localidades de Ribeira do Fernando e Monte Galego.

No espaço mais afastado do rio, a sul da Estrada Nacional 118, o traçado desenvolve-se por um espaço de charneca, com montado de sobro, pinhais e eucaliptais. Nas proximidades do Tejo, a norte da EN118, o trajeto cruza planícies aluvionares, campos agrícolas particularmente férteis. Mas desta vez não andámos por aí.

Optámos pelo passeio pedestre (igualmente realizável em BTT ou veículos todo o terreno) desde a Estação de Canoagem em direção à ermida da Senhora da Guia, que se encontra entre os pontos de interesse desta Grande Rota. Para tal, atravessámos o casario do Casal de Santo António, sem deixar de prestar atenção ao painel de azulejos evocativo da arte da pesca, precisamente naquele local, muito importante na história desta localidade ribeirinha do concelho de Abrantes, até alcançar a EN118, quase à entrada de Alvega do lado da Concavada.

Figueira-da-índia nos trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Esta parte do percurso exige atenção redobrada: primeiro na observação da arquitetura das antigas habitações, das cegonhas nos ninhos e particularmente do Solar de Alvega e, em segundo, no muito trânsito que passa nesta estrada sendo, certamente mais do que o desejável, grande parte trânsito pesado.

O Solar de Alvega e a capela foram construídos no século XVIII, segundo consta, pelo Conde Caldeira de Mendanha, que talvez não fosse Conde, talvez Morgado. Sabe-se, independentemente do título, tratar-se de um palácio senhorial mandado construir para servir de solar à família Mendanha. Eram bastante influentes na zona de Abrantes e o Conde Caldeira teria sido mesmo amigo e feroz rival do Marquês de Pombal. Da construção antiga encontra-se ainda intacto o portão de granito em estilo barroco onde se integra um escudo com as armas dos Mendanhas, Caldeiras, Almeidas e, possivelmente, dos Lobatos. Hoje em dia foi reaproveitada para turismo de habitação.

Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega junto à Quinta do Pombal. Créditos: mediotejo.net

Ainda assim, não deixe de observar todos os detalhes, mesmo quando estão entre os picos da florida figueira-da-índia, um cato ramificado de porte arbustivo que os camiões vão destruindo ao fazer uma curva apertada da EN118. Após deixar os perigos rodoviários é virar à direita no caminho que ladeia a Quinta do Pombal.

A bela Quinta de Pombal está encravada no antigo morgadio que confina a Norte com o rio Tejo e a Sul com a EN118, e é murada em toda a volta exceto do lado do rio e da foz da ribeira do Fernando.

Esse é o início da tranquilidade, num caminho em jogos de sombras, recortadas pelas copas das árvores, onde a beleza natural dos campos de Alvega volta a sobressair nos diversos tons de amarelo, ficando para trás o límpido azul do tranquilo rio Tejo, trocado agora por outras cores, dos castanhos aos verdes e de alegres coloridos primaveris.

Encantam as aves e o seu chilrear, a brisa dos aromas campestres, as flores que ornamentam os caminhos que aliás vão dar a Fátima, seguindo as indicações. E até a chaminé da Central Termoelétrica do Pego não destoa no cenário, despontando aqui e acolá como uma espécie de farol.

Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

A tranquilidade volta a ser interrompida, desta vez pela N358 que passa por cima do Tejo até Mouriscas, levando à A23. Há que atravessá-la e seguir a placa indicativa que preferir. Continuámos na GR12 E7 em direção ao Pego e ao Aquapolis, ao lado da linha ferroviária até à pequena ponte que faz de passagem para direita em direção à pitoresca ermida de forma circular fundada em 1626.

Uma capela consagrada a Nossa Senhora da Guia por ali ter sido encontrada uma imagem dentro de um poço, completamente seca e sem sinal de desgaste. Padroeira dos pescadores da região que faziam a sua invocação, pedindo-lhe proteção em dias de cheias e tempestades. A romaria anual tem lugar na segunda-feira a seguir à Páscoa.

Ermida da Senhora da Guia nos Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Recorda-se que o património natural da bacia hidrográfica do Tejo continha espécies de peixes que atualmente são uma miragem como achigã, a lampreia, a enguia, o sável, a saboga, o robalo, o lúcio, o peixe-rei, o barbo ou a tainha também conhecido por muge ou fataça, espécies piscícolas em decréscimo no rio devido, segundo os ativistas ambientais e os pescadores, a vários episódios de poluição e também aos baixos caudais.

E se aquele local ermo no passado permitia livre acesso ao rio Tejo, atualmente já não permite. À ermida resta agora um pequeno espaço cercado, de um lado pela linha ferroviária que serviu até recentemente para transportar carvão para a Central Termoelétrica do Pego e pela N358, e do outro pelas vedações que isolam as terras agrícolas. Portanto, ao caminheiro resta voltar para trás e seguir em frente.

Trilhos da Grande Rota 12 em Alvega. Créditos: mediotejo.net

No espaço mais afastado do rio, o traçado desenvolve-se pela tal charneca, ao lado do Monte Morgado, com montado de sobro, onde rebanhos de ovelhas pastam e descansam nas sombras.

Na encruzilhada optamos então pelo PR4 em direção a Ribeira do Fernando e Monte Galego. A continuação da Grande Rota ficará para futuras descobertas.

Antes da Ribeira do Fernando encontramos um aviso de estrada movimentada; é novamente a EN 118. Siga pela rua Canto do Rodeio e na localidade de Ribeira do Fernando desça até à Rua de São Pedro. No final da rua inclina começa um trilho algo difícil de caminhar, tão danificado que ficou pelas enxurradas do inverno. Além disso, parece que alguém se lembrou de o tomar como depósito para restos de materiais de construção civil. O conselho passa então por caminhar devagar, seguro na colocação dos pés e rapidamente chega a terra mais confiável na qual nasce rosmaninho, urze, papoilas e malmequeres e também corre a ribeira, ainda que diminuída pela seca pareça um riacho.

Igreja matriz de Alvega. Créditos: mediotjeo.net

Já nas Portelas, após a ponte é virar à esquerda e caminhar até chegar junto ao cemitério de Alvega. Depois é sempre a descer em direção à Igreja de São Pedro, na Praça da República, um templo branco debruado a amarelo, de uma só nave. Se a Igreja estiver aberta pode apreciar uma boa tela do século XVIII, proveniente do Convento de S. Domingos, em Abrantes, entre outras obras de arte sacra.

Para chegar ao ponto de partida, basta seguir as placas existentes na Rua de Santa Teresinha, indicando a Estação da Canoagem, construída na frescura da beira Tejo, uma zona de recreio e lazer inaugurada em 2016. Dispõe de condições para a prática de canoagem e voleibol de praia. Tem espaço de embarcações, uma zona fluvial que permite a prática desportiva de atividades aquáticas, bar, esplanada, instalações sanitárias e chuveiros.

Tudo isto em duas horas e meia, sem pressas e com muitas calorias perdidas pelo caminho. Uma experiência que vivenciará certamente melhor se a fizer acompanhado. Não esquecer de vestir roupa confortável, calçar sapatos adequados, usar chapéu, levar água e uma pequena merenda na mochila

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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