Algumas secaram, outras continuam ativas, nem sempre as águas são devidamente controladas mas as pessoas continuam a passar e a beber. As fontes estão ligadas à memória afetiva das populações e por vezes são a justificação encontrada para uma vida saudável. Fomos à procura das fontes que ainda persistem na tradição do Médio Tejo.
Em Ourém, a fonte mais conhecida é a “Fonte do Povo”, na localidade de Mata, freguesia de Urqueira. Com quase 40 anos, a “Fonte do Povo” nasceu da vontade de um morador que, ao fazer um furo na sua propriedade, começou a jorrar água e criou a estrutura. Mais tarde esta foi deixada ao encargo da junta de freguesia e são muitas as pessoas que ali vão buscar água em garrafões, por vezes faz-se fila e gera-se até alguma tensão entre os mais apressados. Fala-se numa água leve e boa para a saúde, sem químicos. A popularidade da “Fonte do Povo” é de tal ordem que existe uma página de facebook que apela ao controlo regular das suas águas.

Existem muitas outras fontes ao longo do município, a maioria das quais têm vindo a ser desativadas. A localidade de Fontainhas da Serra, freguesia de Atouguia, deve o seu nome exatamente a existirem na terra um conjunto de fontes que abasteciam a população. Há alguns anos aquela autarquia resolveu recuperar o local, criando ali um parque de merendas bastante utilizado, sobretudo durante o Verão, por gentes locais. As fontes e os tanques continuam a deixar fluir a água, mas não há tradição de recolha.
Do mesmo modo, a nascente do rio Nabão, na praia fluvial do Agroal, tem estado desde sempre ligada a curas, nomeadamente em termos de doenças de pele. Ainda que se vejam com frequência pessoas com garrafões a recolher água, a praia tem bem sinalizada a indicação de que a água é imprópria para consumo. Ainda assim há quem se banhe nas suas águas gélidas, mesmo no inverno.
Na vila medieval, a fonte do Castelo é um dos pontos de paragem para quem visita Ourém. De estilo gótico, tem esculpidas as armas do 4º conde de Ourém e a seguinte frase: “Esta fonte mandou fazer D. Affonso, neto do muito nobre rey D. João, e conde desta villa, a qual foi arvorada e acabada no anno da era do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1434”. A fonte continua a verter água e em tempos esta (como outras na freguesia) era bastante utilizada, mas segundo informação da junta de freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias não há actualmente o costume de recolha pelas populações. Chegou inclusive ali a existir uma placa a informar que a água estava imprópria para consumo.

Em Alcanena as fontes mereceram um percurso pedestre em Bugalhos. A Rota das Fontes Naturais (PR3 ACN) possui 13 quilómetros e passa por quatro fontes naturais, ainda utilizadas pela população, sobretudo para regas, ou pelos ciclistas para encheram os seus cantis durante o percurso. Existe um fontanário junto ao edifício da junta de freguesia, mas a ligação está feita à rede pública de água.
Também em Alcanena, Monsanto possui uma fonte, a Fonte do Pião, com fama municipal. Para além da água, a fonte tem a particularidade ser um dos pontos turísticos da aldeia, por possuir um conjunto de mosaicos que retratam as antigas gentes da terra. É “água muito boa, de nascente”, justificou-se ao mediotejo.net um consumidor que encontrámos pelo caminho, referindo que também vai às nascentes de outras freguesias de Alcanena.

Em Espinheiro ainda procurámos a “Fonte dos Namorados”, que assim ficou conhecida por ser ponto de encontro dos enamorados. Há alguns anos toda a zona levou obras de requalificação e o local encontra-se cuidado, mas neste momento a água já não corre. Na mesma localidade existe a fonte natural de “Rio de Cantos”, esta sim com grande afluência por parte da população dos arredores. “Dizem que é bom para os rins”, comenta-se na junta de freguesia ao contacto do mediotejo.net. A água aqui é analisada mensalmente pelo centro de saúde e geram-se filas para conseguir encher os garrafões.

foto do mediotejo.net
Em Torres Novas a lista de fontes municipais é extensa. Ouvimos rasgados elogios à fontanário da Meia Via, junto à Igreja Paroquial, que apesar de já não possuir a afluência de outrora continua a ser utilizado pelos que passam, crianças e idosos, para matar a sede.

Torres Novas tem ainda vários fontanários espalhados pela sede de concelho, a maioria de torneira ou bebedouros de pedal. Olaia, Paço e Chancelaria são freguesias que ainda possuem os seus fontanários.
*Artigo publicado em 2016, republicado em abril de 2019
