Esta proposta de caminhada, organizada pela ACROM em parceria com a Casa do Povo de Mouriscas, visa conhecer de perto o Canal de Alfanzira, uma obra do rei Filipe I de Portugal (II de Espanha) considerada de “engenharia rara” em Mouriscas (Abrantes). Caminhámos até ao rio Tejo, fomos brindados com histórias de pesca e pesqueiras. Fizemos um percurso de 6 quilómetros, considerado de dificuldade média … e até seria não fosse o calor de agosto.
Passámos por figueiras, oliveiras – incluindo a milenar do Mouchão -, uma capela, uma fonte cagada e até um terreno que já serviu de aeródromo. Por fim a beleza natural da zona ribeirinha, com terrenos alagados, salgueiros, choupos, cascalho escorregadio que merece atenção onde pôr os pés e caminhos de terra batida desbravados por membros da ACROM.
Falamos de uma história antiga. As primeiras notícias da existência de moinhos de água, ou azenhas, no rio Tejo, em Mouriscas, remontam aos finais do século XIV, sendo os “bocais” de Alfanzira uma espécie de canais de água para as azenhas. O rio permitia, naquela zona turbulenta, onde ainda permanece o Canal filipino de Alfanzira, a instalação de mecanismos capazes de aproveitar a energia hidráulica para, por exemplo, moer cereais, em determinadas épocas do ano.

Por estes dias, a ideia de partir à descoberta da paisagem natural do rio Tejo, por ruas e ruelas ladeadas de olivais, vinhas e figueiras, com passagem pela capela de São Simão, frescos fontanários e velhos barcos de pesca não deixou margem para dúvidas… ainda que a caminhada de seis quilómetros – considerada de dificuldade média – fosse exigente, por estarmos em agosto e perto, do outro lado do Tejo, da aldeia conhecida por ser a mais quente de Portugal. Toda esta aventura foi feita a caminhar, freguesia abaixo, freguesia acima.
Porém, foi sem hesitações que o jornal mediotejo.net integrou o grupo de caminheiros. Saímos do Campo das Aldeias a caminho da Balsa, passando pelo Casal de São Simão, ao lado do alojamento local Casal do Surdo, seguindo pela rua do Poçarrão, atravessámos a variante que leva à A23, entrámos nas Sentieiras, na rua da Cumeada, onde acabámos por encontrar o terreno que já serviu de aeródromo de Mouriscas, com passagem ao lado da rua da Fonte Cagada, uma fonte de mergulho “de onde saíram muitos cântaros”, comentavam os filhos da terra. Quase sempre com a Central Termoelétrica do Pego como cenário de fundo.

A rota seguiu até Cascalhos, onde a milenar oliveira do Mouchão tem assente as suas raízes há mais de 3 mil anos, e chegados à rua que leva ao apeadeiro de Mouriscas passámos a linha ferroviária e descemos a rua Casal do Tejo. No final virámos à esquerda para um caminho de terra batida que nos levou até uma improvisada placa indicativa onde se pode ler “Canal de Alfanzira”.

Para trás ficou São Simão, que “era o padroeiro dos almocreves. Esta era uma das estradas romanas secundárias que levava ao Tejo. Esta capela, aquando da implantação da República, tal como os monumentos religiosos, foi nacionalizada. Foi tornada particular. Quando eu era miúdo, e durante muitos anos, a capela era um palheiro de bois que bebiam água na pia da água benta. Depois uma comissão recuperou a capela e voltou a ser religiosa”, contou o caminheiro Josué Valente a título de curiosidade.
Já a história que o historiador Joaquim Candeias da Silva investigou transporta-nos à navegação e às dificuldades em atravessar o “Cachão”, situado “a duas léguas de Abrantes”, a correnteza mais complicada do Tejo, então totalmente navegável e importante via de transporte de mercadorias, a montante de Abrantes até Alcântara. Quem o concluiu foi o engenheiro Juan Baptista Antonelli a quem o rei Filipe II (I de Portugal) ordenou obras de engenharia hidráulica no Médio Tejo.
A obra de engenharia em questão terá cerca de 440 anos, localiza-se dentro do Tejo, a montante do Casal do Tejo e a jusante do Casal de Vale Covo, ambos na antiga vintena dos Cascalhos, onde também chamam o ‘Cachão’, nome adquirido graças à velocidade que as águas do rio ali atingem com ruído, correndo “entre densos fraguedos xistosos de extraordinária dureza”, como explica Joaquim Candeias da Silva.


Perante a Pesqueira da Bugalha, Josué Valente lembrou factos de antigamente no tempo em que as Ordens Religiosas “estavam autorizadas a explorar o rio e a pescar no rio”. Referia-se a uma contenda entre a Coroa e a Ordem do Hospital (os Hospitalários) e que deu origem “a um grande conflito entre o Reino de Portugal e as Ordens Religiosas”, dirimido na Relação de Évora.
“Um processo que demorou muitos anos, até que o rei de Portugal declarou que os rios eram posse da coroa. Em Mouriscas há mais de uma dezena de pesqueiras, algumas das quais em ruínas. A Pesqueira da Andorinha, a Pesqueira Velha, a Pesqueira da Bernarda, todas têm nome, e todas tinham dono”, explicou. Dizem-nos que além de proprietário tinham até escritura pública.
Apesar do calor, chegados ao Canal de Alfanzira, numa paisagem em que as rochas ganham destaque, percebemos ter sido compensador meter os pés ao caminho, porque se a obra mandada construir pelo rei Filipe I merece verdadeiramente ser apreciada, a envolvência ribeirinha do Tejo tem de ser sentida.
Foi precisamente no decurso de um levantamento documental que Candeias da Silva realizou, em meados da década de 1990, com vista à dissertação de doutoramento sobre o período filipino em Portugal, que o historiador se deparou com vários textos referentes a obras de engenharia hidráulica no Médio Tejo a montante de Abrantes, ordenadas por Filipe II (I de Portugal), ao longo dos anos de 1581-1582. Uma dessas obras é o Canal de Alfanzira, inserido num grande projeto de navegabilidade do Tejo.
Trata-se de uma obra de engenharia hidráulica – que crê ser única no género –, como referido, em prol da navegabilidade do Tejo.
“Mais concretamente, a construção de um pequeno braço de rio artificial, através da abertura de um canal na margem direita do Tejo, a fim de desviar as embarcações de uns fraguedos muito perigosos no próprio leito do rio que naquela zona impediam a normal navegação. Obra de grande vulto para o tempo, testemunha bem os esforços de Filipe II para modernizar a Península, que então acabara de ficar sob uma coroa única”, realça o historiador. Ou seja, o Canal é ladeado por muros de pedra conhecidos como muros de Sirga (corda que era atada aos barcos e puxada por homens ou animais para ajudar as embarcações a subir o rio).
Sessenta anos foi o período de dominação espanhola de Portugal, entre 1580 e 1640, na sequência do desaparecimento sem herdeiros de D. Sebastião (1578) e do cardeal-rei D. Henrique (1580), passando a coroa para Filipe II de Espanha, neto de D. Manuel I. Este período recebe o nome dos três monarcas espanhóis.
O historiador descreve o Canal como “uma obra de engenharia rara, que não só documenta bem o engenho do seu autor (Juan Baptista Antonelli)”, ou do seu já indicado promotor (Filipe I de Portugal), “mas também um tempo novo – o início da ‘união ibérica’ e da ‘monarquia dualista’”.
Portanto, o Tejo “passava a ter uma importância fulcral para a navegação peninsular e este troço do rio era um obstáculo difícil de tornear, pelo que o Canal representou para o tempo uma solução hábil do domínio da técnica sobre a natureza”, explica Candeias da Silva.
Ora esta construção existe junto à margem do Tejo, em Mouriscas, desde 1581, à vista de toda a gente que por ali calha em passar. Como foi o nosso caso, havendo até tempo para os mais encalorados darem um mergulho na Lagoa dos Limos.

Quanto à obra filipina, refere que “apesar do assoreamento e derrube nalgumas partes, se encontra globalmente bastante bem conservada, o que a vai tornando numa verdadeira raridade arquitetónica – conforme fica dito, desconheço qualquer outra no género. Mas, seria bom que ali se efetuasse uma operação de salvaguarda e proteção, já que a tendência será para a sua erosão e lenta mas progressiva e fatal destruição. É urgente, por exemplo, uma desmatação que impeça o crescimento da densa vegetação arbórea que ameaça destruir aqueles muros”, nota.
A preocupação com o património histórico pelas entidades competentes parece continuar a ser uma incógnita em Portugal. Mas fica uma certeza: A ACROM continua no seu trabalho de desbravar mato e vegetação para tornar locais como este acessíveis. Ficamos à espera, que quem de direito faça o que deve. Apelos, não faltam!
NOTÍCIA RELACIONADA:
Canal de Alfanzira: uma obra filipina “de engenharia rara” em Mouriscas | Médio Tejo (mediotejo.net)



























Excelente!
Pena que a autarquia de Abrantes impeça a preservação de todas as ribeiras do concelho e as destrua com uma crueldade inexplicável, impedindo, para além de tudo o mais, que os amantes da natureza as desfrutem! Veja se o que estão a fazer na ribeira da.Pocariça/ Rio de Moinhos…
A preservação do Canal de Alfanzira representa para além de preservar o património de Mouriscas ,o divulgar de uma obra de Engenharia Hidráulica talvez única deste género.
A ACROM tem sido uma associação dedicada a preservação do património material e imaterial de Mouriscas,mas tem que ser apoiada pelos amigos,pela Autarquia e pelo governo através de todos os organismos ligados a preservação do património.
Agradeço a descrição histórica que acabei de ler. Fico triste porque há sempre algo que esquece. Refiro-me à existência dum castelo ou torre de menagem no casal do Csstelo e à fonte da Bica no lugar ds Santa Cruz não muito longe dz fonte Cagada. Parabéns pelo trabalho spresentado. Devo referir que o canal é onhecido no vulgo por Carreiras