Besteiras, freguesia de Águas Belas, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

É apenas uma suposição, mas não será besteira (tolice, no léxico do português do Brasil) se o topónimo Besteiras, localidade na freguesia de Águas Belas (Ferreira do Zêzere), tiver alguma relação com quadrúpedes. Explica o dicionário de português da Porto Editora que ‘besteira’ é a mulher que maneja a besta, sendo também sinónimo de erva-besteira e no plural “abertura nas galerias das fortificações antigas por onde se arremessavam setas com as bestas (armas)”.

No entanto, aquele foi em tempos idos um lugar de ‘Mala Posta’, com muitas “bestas”, mulas e cavalos, estacionados à porta, e faria sentido se o topónimo tivesse origem nessa realidade do passado, uma vez que na visita que fizemos por Besteiras não encontrámos qualquer castelo ou “fortificação antiga”… a não ser um templo, excluído, à primeira vista, da história militar; a Capela de Santa Teresa, propriedade do bispado de Coimbra.

A data de fundação e respetivo encomendante daquele templo são ainda desconhecidos. Porém, a Capela de Santa Teresa é referida pelo pároco de Águas Belas, José da Mota Ribeiro, nas suas ‘Memórias Paroquiais’, em 1758. Aparece ainda uma referência àquele templo nas ‘Notícias das Igrejas do Bispado de Coimbra’ de Bartolomeu de Macedo.

A pequena Capela de Santa Teresa apresenta-se como uma construção de planta longitudinal, nave única e cobertura em telhado de duas águas, na junção das quais se ergue a cruz de Cristo. Na fachada principal apenas existe uma pequena janela junto da entrada; por sua vez, sobre o lado direito do beiral ergue-se um pequeno campanário, finamente relevado com ramagens e a cruz de Cristo.

Besteiras, freguesia de Águas Belas, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

No interior da capela de Santa Teresa existe um altar, correspondente ao altar-mor, obra realizada em talha policromada, e na qual foi deposta a imagem de Santa Teresa, recolhida no interior de um pequeno nicho e protegida por vitrina. Em resumo: Nenhum vestígio de abertura por onde se pudessem arremessar setas com as bestas.

No centro da localidade, rodeada por casario e por uma estrada que lhe é contígua, foi construído, paredes meias com a esta capela, um estabelecimento comercial que serve de apoio à realização das festas anuais em honra da santa padroeira.

Mas voltando aos quadrúpedes e à ‘Mala Posta’ ou seja, a casa onde se rendiam os cavalos que transportavam os mensageiros e os viajantes: em Besteiras, é referência de um passado com 140 anos, a extinta Estalagem da Aninhas, assim conhecida devido ao nome da proprietária (Ana Rodrigues), na qual estiveram hospedadas pessoas ilustres da vida nacional, designadamente Actor Taborda, o rei D. Carlos, que para aquele território ia caçar, e o humanista Alfredo Keil.

A antiga Estalagem dos Vales, o histórico edifício de Ferreira do Zêzere onde Alfredo Keil orquestrou ‘A Portuguesa’, mais tarde convertida em hino nacional, e também compôs ‘A Serrana’ – a primeira ópera com libreto em português – situa-se na esquina da rua que passava junto à Escola das Besteiras, à direita da chamada ‘Curva do Ferrador’.

De acordo com Sá Flores, a antiga Estalagem das Besteiras foi fundada no ano de 1885 no decurso da construção da Estrada Real que, de Tomar, partia para a Beira Baixa. Um dos últimos proprietários desta estalagem foi D. Maria Flores, que comprara estas instalações a Ana Rodrigues para o seu marido aí exercer como ferrador, o que explica o local ser conhecido pela ‘Curva do Ferrador’.

A frontaria apresentava-se dividida em três vãos: o primeiro constituído por uma sucessão de três portas ladeadas por janelas e corresponderia, muito provavelmente, à zona de repouso; o segundo constituído por uma porta de maiores dimensões, igualmente ladeada por uma janela (corresponderia ao acesso a uma outra área de serviço); o terceiro ocupado por um grande portão, ladeado por duas pequenas frestas, provavelmente destinado ao recolhimento da ‘Mala Posta’, isto é, lugar onde se estacionava as bestas.

Alfredo Keil, uma das figuras mais interessantes do fim do século XIX e também um brilhante pintor, chegou mesmo a desenhar a estalagem em 1897, desenho onde se vê estacionadas em frente do edifício, na berma da poeirenta estrada, carruagens atreladas a mulas.

Besteiras, freguesia de Águas Belas, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

É preciso lembrar a inexistência de comboios e de automóveis. Sabe-se que pelo menos Alfredo Keil chegava à Estalagem dos Vales de diligência. Sabe-se também que o rei D. Carlos gostava de ter Keil por companhia nas caçadas. É referida ainda a presença do rei aquando da inauguração da estrada de Tomar para a Sertã, mais precisamente da ponte do Vale da Ursa, submersa mais tarde pela barragem de Castelo de Bode.

A hospedaria foi ainda frequentada, segundo Paulo Alcobia Neves, por outras figuras ilustres das artes portuguesas como os pintores José Malhoa, José Campas, Simões de Almeida e Ferreira Chaves. No primeiro quartel do século XX tornou-se numa casa de lavoura de uma família abastada.

O rei D. Carlos durante uma caçada. Diz que Besteiras era um dos seus locais favoritos

Quanto à freguesia, Águas Belas já foi vila e teve foral concedido por D. Manuel I em 1513. Em 1222 aparece com o nome de ‘Abas de Aquabela’ no foral de Ferreira do Zêzere. Em 1356 D. Pedro I deu o seu senhorio, o morgado de Águas Belas velha, situado defronte da Igreja Matriz, a Rodrigo Álvares Pereira, irmão do Condestável, por oferta do Escudeiro Vassalo do Infante D. Pedro.

Daqueles tempos de autonomia administrativa sobreviveu o pelourinho, onde se pode ver o brasão dos Pereiras, de que foram descendentes os Sodrés Pereiras, Comendadores de Águas Belas.

A história relata que por casamento, juntaram-se os Pereiras aos Sodrés, família à qual, segundo alguns genealogistas, pertenceria Vasco da Gama por linha materna, e que foram senhores do dito Morgado até ao século XIX.

Em termos de património, além do pelourinho, destaque para a Igreja paroquial, a fonte (1940) e as capelas de S. Sebastião na Varela, de Santa Teresa nas Besteiras e de S. Marcos.

De resto, Besteiras integra um cenário de casaria inserido em prados verdes, pinheiros e eucaliptos, numa terra agrícola onde sobressaem várias quintas…. embora Águas Belas seja, curiosamente, a freguesia mais industrializada do concelho de Ferreira do Zêzere.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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