Publicado emÀ Descoberta, Boa Vida, Vila de Rei

À Descoberta | A aldeia-postal de Vila de Rei que tem na água e formosura a sua maior riqueza (c/video)

Água Formosa. Foto: mediotejo.net

Quantos de nós, ao passarmos a Estrada Nacional 2 no concelho de Vila de Rei, naquele cruzamento que abre caminho para a aldeia de Milreu e que dá acesso ao Penedo Furado, nos confrontamos com a seta indicativa, do lado oposto, e dizemos a nós mesmos que “um dia destes vamos até Água Formosa”? Quantos foram adiando a visita sem nunca lá ter ido? Quantos vão prometendo desvio para paragem sem nunca cumprir? Haverá quem não saiba sequer da sua existência?

Num destes dias, o nosso jornal foi comprovar que qualquer altura é boa para partir à descoberta e lançámo-nos numa visita àquela aldeinha-postal vilarregense, que preserva no vale as casas e os muros empedrados, com detalhes de xisto e quartzito, a madeira encastrada, o cultivo nas terras férteis regadas pela água boa e rica das nascentes e da ribeira da Galega que por ali serpenteia aos pés.

Um passeio que convida a calçar as botas, vestir um agasalho e sair para um percurso pedestre de outono-inverno que se promete sereno, com a natureza a ser tão boa anfitriã quanto os (poucos) residentes que ali resistem com o passar do tempo.

Há pelo menos três formas de lá chegar de carro, onde se inclui a rota que fizemos desde a N2: vindo do lado da aldeia de Vale das Casas, das Aldeias de Pereiro Cimeiro e Pereiro Fundeiro, no concelho de Vila de Rei, ou mesmo do concelho vizinho, Mação, vindo da aldeia de Chão de Lopes.

Foto: mediotejo.net

Voltemos ao percurso que foi nossa opção. Saindo da Estrada Nacional 2, é seguir caminho de olhos postos nas placas. À saída de Lousa é cortar à esquerda. E continuamos por ali, em caminho sempre ladeado por floresta, e a viagem por si só, já é terapêutica. Descendo os vidros do carro, desligando ou baixando o som do rádio, ouvindo o som da passarada e do vento a fazer dançar os galhos e as ramagens do arvoredo altaneiro e robusto.

A estrada vai continuando, até encontrar a cortada à direita que começa a descer até à entrada da aldeia, onde o marco nos recebe.

Chegamos às hortas do Badalinho, zona cimeira de expansão da aldeia de Água Formosa, que segundo os antigos, antes era exclusivamente zona de terrenos agrícolas. Hoje já se contam mais de uma dezena de habitações nesta zona. Segue-se à esquerda quando de frente à paragem de autocarro, e continua-se a estrada até chegar ao estreitamento, após o qual se encontra local para estacionar, coberto com pérgulas em madeira.

À medida que vamos descendo em direção à ponte pedonal que nos leva à aldeia, qual portal que nos faz entrar noutra dimensão, surge a vontade de encontrar o melhor ângulo para registar o momento para mais tarde recordar. É dali que surge o postal, a marca identitária de Água Formosa, aquele que nas mais diversas plataformas de fotografia, redes sociais ou blogues é divulgado e aclamado.

Foto: mediotejo.net

Arriscamos afirmar que este é um passeio ideal para fazer em família, com os quatro patas ou até para fazer um treino de corrida em trilhos. Ou para um piquenique onde não faltam os produtos caseiros e locais na cesta e a toalha aos quadrados vermelhos bem como o termo de café quente ou chá. São tantas as formas de usufruir deste recanto, com casinhas semeadas pela encosta virada ao sol na maior parte do dia.

Além de que tem reunidas as condições de lugar ideal para um refúgio a solo ou retiro a dois, numa incursão pelos sons, cores, aromas e sabores da fauna e flora locais.

Comecemos pelas casas, que fazem o postal ganhar forma. Construídas ou reconstruídas, mantiveram a traça original e o xisto como elemento comum; é quase uma aldeia museu. As casas, bem cuidadas e mantidas, estão praticamente sempre fechadas. Mas nem isso lhes tira a beleza e peculiaridade. Quase todas foram convertidas em unidades de alojamento local e há inclusive um bikotel dedicado especialmente aos amantes de ciclismo ou btt e queiram vir descobrir a envolvente através dos percursos sugeridos.

Foto: mediotejo.net

Ainda há por ali investimento privado, com habitações de família, algumas de férias, outras de herança e que aguardam disponibilidade para serem recuperadas. E mantém-se ainda a lojinha da aldeia, que funciona como um colocado de turismo local.

Por entre as ruas estreitas apenas se circula a pé… e, eventualmente com alguma perícia, de bicicleta.

Ouve-se o chilrear dos pássaros, a brisa que faz dançar as folhas, os ramos das árvores e os arbustos, e a estes sons se junta a água que corre na ribeira, com maior ou menor intensidade, praticamente todo ano, fazendo a mixagem soar perfeita aos ouvidos, qual banda sonora de quem sonha acordado.

As cores, os cheiros e as texturas das hortas, jardins e vasos de flores enchem os olhos nesta que é a aldeia que serve de porta de entrada a sul para o conjunto de Aldeias de Xisto do país, ali entre Vilar Chão, Lousa e Vale das Casas.

Foto: mediotejo.net

À medida que vamos assimilando as ruas, os cantos e recantos, vamos encontrando fornos comunitários espalhados pela povoação, e numa das extremidades, a caminho da afamada fonte de água fresca de Água Formosa, encontra-se em construção a Casa de Pax, um edifício que servirá a Associação Fazedores de Mudança, que ali tem por costume dinamizar atividades sobre sustentabilidade, estilos de vida saudáveis e vivência em comunhão com a natureza, também incidindo na preservação da tradição e dos saberes locais.

A fonte – que matou a sede e abasteceu ao longo de décadas quem por ali andava – é um dos pontos de interesse do percurso pedestre circular que pode ser feito em cerca de 3 horas, a qualquer altura do ano. É o chamado Caminho de Xisto de Água Formosa e tem cerca de 7,4 km de extensão.

É um caminho que recria os trilhos outrora percorridos por moleiros e agricultores, a caminho da levada e das azenhas que se contavam ao longo da ribeira da Galega e da ribeira da Valada.

Foto: mediotejo.net

Entre o património natural destacam-se os verdejantes amieiros e freixos, com os frondosos e antigos sobreiros, os pinheiros, os salgueiros, mas também o perfume do rosmaninho, do alecrim e da esteva despertam a atenção. Isso, e a vermelhidão dos medronhos a amadurecer na época.

Este é também um bom local para observação de aves. Apesar de os incêndios por ali terem passado nos últimos anos com violência, a natureza vai recuperando a olhos vistos. Não seria inédita uma aparição de um esquilo-vermelho por ali, bem como do guarda-rios.

Pela aldeia vamos encontrando figueiras, roseiras, alecrim, medronheiros, videiras. Espaços vão sendo ajardinados estrategicamente à porta das casas, nas paredes, na rua. Vão dando vivacidade e beleza à rua empedrada, já por si, naturalmente bela.

Ali começam a surgir sinais de modernidade, com os postes e cabos que trazem a comodidade e conforto das telecomunicações àquele lugar recôndito.

Bem no centro, ainda se houve gente. O jardim à porta de casa, o quintalinho e o estendal onde seca os sacos de plástico – já lavados – para reutilizar, não deixam que a Dona Lúcia passe despercebida. Tem sido o rosto da aldeia, acolhendo quem por ali passa, curioso, cruzando a travessa à frente da porta. Não fecha a porta a ninguém e não nega informações e indicações. Relembra outros tempos, onde se semeava o milho e cereais nos campos.

As octogenárias Lúcia e Domitília. Lúcia é a resistente moradora de Água Formosa, sendo dos últimos primeiros residentes da aldeia. Domitília, irmã de Lúcia, vem de Vilar Chão, a pé, apoiada nos cajados para passar um bocado, fazer companhia à refeição e pôr a conversa em dia. No regresso a casa os filhos dão-lhe boleia de carro. Foto: mediotejo.net

A mais antiga residente da aldeia, que por ali continua a fazer a sua vida apoiada nos dois cajados, vai tendo ali os feixes de lenha para o forno a secar, abrigados das chuvas, atados com cordel azul.

Ali está à espreita do sol, na companhia do gato, e a pôr a conversa em dia com a irmã, Domitília. Ambas octogenárias.

Também apoiada nos dois cajados, a irmã de Lúcia vem a pé desde Vilar Chão até Água Formosa para a rever, aproveitar para fazer companhia ao almoço e passar lá a tarde.

Depois, o filho ou a filha virá buscá-la de regresso a casa. É um hábito que não deixa que se perca com a idade, ainda que seja partilhado por ambas o lamento de as forças serem já poucas e a vida já não ser como dantes. Hoje, o telefone também já facilita o contacto. Ainda assim, o caminho que diz demorar meia hora para a sua terra, Domitília vai-o fazendo pelo seu pé, agora ao longo de 60 minutos. Gosta de Água Formosa e além disso vai acompanhando Lúcia, para que não vença a solidão.

A Fonte de Água Formosa. Foto: mediotejo.net

Na aldeia perderam-se recentemente dois habitantes por questões de saúde. De sete passaram a cinco a viver ali permanentemente ou a passar temporadas mais longas.

Há 14 anos, uma nova família estabeleceu-se em Água Formosa. Recuperou a casa, mantendo a estrutura tradicional, usando a pedra e a madeira.

Miguel Sousa e Elsa, ele natural do Caramulo e ela da Madeira e que trabalham ligados a forças de segurança no concelho de Torres Novas, decidiram começar a apostar num projeto próprio, com intuito de dinamizar a aldeia e dar maior conforto e atenção aos visitantes. Passando por lá e não estando aberto, é contactar o número que está pendurado na porta. Ou com sorte encontra os proprietários no pátio de casa, e desde logo poderá aproveitar para um café ou um chá, acompanhados de biscoitos, bolos ou que lhe saltar à vista do menu.

Miguel Sousa, residente em Água Formosa há 14 anos, abriu recentemente um bar de apoio que é o pontapé de saída para um projeto integrado que quer desenvolver na aldeia, que inclui um alojamento local e experiências para os visitantes. Foto: mediotejo.net

Em frente à residência, com a bênção dos sobreiros surge o “Sobreiro Velho”, integrado no projeto e marca “Ninhos de Xisto”. Este é um dos primeiros passos a caminho da concretização dos planos, que passam por dinamizar também alojamento local e ter ali um bar de apoio/snack-bar, onde as pessoas possam consumir alguns produtos tradicionais.

O que antes era um espaço de arrumos e que chegou a estar destinado para fazer um canil, foi transformado pelas mãos de Miguel. Faz da bricolage, construção e carpintaria uma forma de desanuviar e aliviar o stress da profissão e do dia-a-dia. Com os filhos fora, a estudar e a trabalhar, e já a pensar em dedicar-se a outras atividades no futuro juntamente com a mulher, poderá surgir uma nova dinâmica na aldeia – mas sem alterar a identidade daquele lugar de paz e sossego.

Onde o silêncio apenas é interrompido pelos sons da natureza.

As horas passam devagar por ali. Parece até que o tempo parou de propósito para permitir assimilar cada detalhe, contemplar a beleza e singularidade de cada esquina.

Foto: mediotejo.net

Numa altura em que a pandemia veio trazer ao de cima o valor da liberdade, a necessidade de abrandar e de repensar prioridades, nada melhor que tirar algumas horas para uma experiência que promete o maior de todos os ganhos: ter tempo para si e para os seus.

Porque partir à descoberta pode muito bem ser, no final de contas, o antídoto que precisava. Não carece de prescrição médica, é grátis e só promete mais-valias para a saúde e bem-estar. É calçar as sapatilhas, e deixar-se levar pelo espírito de aventura, partindo em busca desta “aldeia de formosura”, bem guardada no centro de Portugal.

FOTOGALERIA com mais alguns detalhes desta aldeia-postal de Vila de Rei:

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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Publicado emÀ Descoberta, Boa Vida, Vila de Rei

À Descoberta | A aldeia-postal de Vila de Rei que tem na água e formosura a sua maior riqueza (c/video)

Água Formosa. Foto: mediotejo.net

Quantos de nós, ao passarmos a Estrada Nacional 2 no concelho de Vila de Rei, naquele cruzamento que abre caminho para a aldeia de Milreu e que dá acesso ao Penedo Furado, nos confrontamos com a seta indicativa, do lado oposto, e dizemos a nós mesmos que “um dia destes vamos até Água Formosa”? Quantos foram adiando a visita sem nunca lá ter ido? Quantos vão prometendo desvio para paragem sem nunca cumprir? Haverá quem não saiba sequer da sua existência?

Num destes dias, o nosso jornal foi comprovar que qualquer altura é boa para partir à descoberta e lançámo-nos numa visita àquela aldeinha-postal vilarregense, que preserva no vale as casas e os muros empedrados, com detalhes de xisto e quartzito, a madeira encastrada, o cultivo nas terras férteis regadas pela água boa e rica das nascentes e da ribeira da Galega que por ali serpenteia aos pés.

Um passeio que convida a calçar as botas, vestir um agasalho e sair para um percurso pedestre de outono-inverno que se promete sereno, com a natureza a ser tão boa anfitriã quanto os (poucos) residentes que ali resistem com o passar do tempo.

Há pelo menos três formas de lá chegar de carro, onde se inclui a rota que fizemos desde a N2: vindo do lado da aldeia de Vale das Casas, das Aldeias de Pereiro Cimeiro e Pereiro Fundeiro, no concelho de Vila de Rei, ou mesmo do concelho vizinho, Mação, vindo da aldeia de Chão de Lopes.

Foto: mediotejo.net

Voltemos ao percurso que foi nossa opção. Saindo da Estrada Nacional 2, é seguir caminho de olhos postos nas placas. À saída de Lousa é cortar à esquerda. E continuamos por ali, em caminho sempre ladeado por floresta, e a viagem por si só, já é terapêutica. Descendo os vidros do carro, desligando ou baixando o som do rádio, ouvindo o som da passarada e do vento a fazer dançar os galhos e as ramagens do arvoredo altaneiro e robusto.

A estrada vai continuando, até encontrar a cortada à direita que começa a descer até à entrada da aldeia, onde o marco nos recebe.

Chegamos às hortas do Badalinho, zona cimeira de expansão da aldeia de Água Formosa, que segundo os antigos, antes era exclusivamente zona de terrenos agrícolas. Hoje já se contam mais de uma dezena de habitações nesta zona. Segue-se à esquerda quando de frente à paragem de autocarro, e continua-se a estrada até chegar ao estreitamento, após o qual se encontra local para estacionar, coberto com pérgulas em madeira.

À medida que vamos descendo em direção à ponte pedonal que nos leva à aldeia, qual portal que nos faz entrar noutra dimensão, surge a vontade de encontrar o melhor ângulo para registar o momento para mais tarde recordar. É dali que surge o postal, a marca identitária de Água Formosa, aquele que nas mais diversas plataformas de fotografia, redes sociais ou blogues é divulgado e aclamado.

Foto: mediotejo.net

Arriscamos afirmar que este é um passeio ideal para fazer em família, com os quatro patas ou até para fazer um treino de corrida em trilhos. Ou para um piquenique onde não faltam os produtos caseiros e locais na cesta e a toalha aos quadrados vermelhos bem como o termo de café quente ou chá. São tantas as formas de usufruir deste recanto, com casinhas semeadas pela encosta virada ao sol na maior parte do dia.

Além de que tem reunidas as condições de lugar ideal para um refúgio a solo ou retiro a dois, numa incursão pelos sons, cores, aromas e sabores da fauna e flora locais.

Comecemos pelas casas, que fazem o postal ganhar forma. Construídas ou reconstruídas, mantiveram a traça original e o xisto como elemento comum; é quase uma aldeia museu. As casas, bem cuidadas e mantidas, estão praticamente sempre fechadas. Mas nem isso lhes tira a beleza e peculiaridade. Quase todas foram convertidas em unidades de alojamento local e há inclusive um bikotel dedicado especialmente aos amantes de ciclismo ou btt e queiram vir descobrir a envolvente através dos percursos sugeridos.

Foto: mediotejo.net

Ainda há por ali investimento privado, com habitações de família, algumas de férias, outras de herança e que aguardam disponibilidade para serem recuperadas. E mantém-se ainda a lojinha da aldeia, que funciona como um colocado de turismo local.

Por entre as ruas estreitas apenas se circula a pé… e, eventualmente com alguma perícia, de bicicleta.

Ouve-se o chilrear dos pássaros, a brisa que faz dançar as folhas, os ramos das árvores e os arbustos, e a estes sons se junta a água que corre na ribeira, com maior ou menor intensidade, praticamente todo ano, fazendo a mixagem soar perfeita aos ouvidos, qual banda sonora de quem sonha acordado.

As cores, os cheiros e as texturas das hortas, jardins e vasos de flores enchem os olhos nesta que é a aldeia que serve de porta de entrada a sul para o conjunto de Aldeias de Xisto do país, ali entre Vilar Chão, Lousa e Vale das Casas.

Foto: mediotejo.net

À medida que vamos assimilando as ruas, os cantos e recantos, vamos encontrando fornos comunitários espalhados pela povoação, e numa das extremidades, a caminho da afamada fonte de água fresca de Água Formosa, encontra-se em construção a Casa de Pax, um edifício que servirá a Associação Fazedores de Mudança, que ali tem por costume dinamizar atividades sobre sustentabilidade, estilos de vida saudáveis e vivência em comunhão com a natureza, também incidindo na preservação da tradição e dos saberes locais.

A fonte – que matou a sede e abasteceu ao longo de décadas quem por ali andava – é um dos pontos de interesse do percurso pedestre circular que pode ser feito em cerca de 3 horas, a qualquer altura do ano. É o chamado Caminho de Xisto de Água Formosa e tem cerca de 7,4 km de extensão.

É um caminho que recria os trilhos outrora percorridos por moleiros e agricultores, a caminho da levada e das azenhas que se contavam ao longo da ribeira da Galega e da ribeira da Valada.

Foto: mediotejo.net

Entre o património natural destacam-se os verdejantes amieiros e freixos, com os frondosos e antigos sobreiros, os pinheiros, os salgueiros, mas também o perfume do rosmaninho, do alecrim e da esteva despertam a atenção. Isso, e a vermelhidão dos medronhos a amadurecer na época.

Este é também um bom local para observação de aves. Apesar de os incêndios por ali terem passado nos últimos anos com violência, a natureza vai recuperando a olhos vistos. Não seria inédita uma aparição de um esquilo-vermelho por ali, bem como do guarda-rios.

Pela aldeia vamos encontrando figueiras, roseiras, alecrim, medronheiros, videiras. Espaços vão sendo ajardinados estrategicamente à porta das casas, nas paredes, na rua. Vão dando vivacidade e beleza à rua empedrada, já por si, naturalmente bela.

Ali começam a surgir sinais de modernidade, com os postes e cabos que trazem a comodidade e conforto das telecomunicações àquele lugar recôndito.

Bem no centro, ainda se houve gente. O jardim à porta de casa, o quintalinho e o estendal onde seca os sacos de plástico – já lavados – para reutilizar, não deixam que a Dona Lúcia passe despercebida. Tem sido o rosto da aldeia, acolhendo quem por ali passa, curioso, cruzando a travessa à frente da porta. Não fecha a porta a ninguém e não nega informações e indicações. Relembra outros tempos, onde se semeava o milho e cereais nos campos.

As octogenárias Lúcia e Domitília. Lúcia é a resistente moradora de Água Formosa, sendo dos últimos primeiros residentes da aldeia. Domitília, irmã de Lúcia, vem de Vilar Chão, a pé, apoiada nos cajados para passar um bocado, fazer companhia à refeição e pôr a conversa em dia. No regresso a casa os filhos dão-lhe boleia de carro. Foto: mediotejo.net

A mais antiga residente da aldeia, que por ali continua a fazer a sua vida apoiada nos dois cajados, vai tendo ali os feixes de lenha para o forno a secar, abrigados das chuvas, atados com cordel azul.

Ali está à espreita do sol, na companhia do gato, e a pôr a conversa em dia com a irmã, Domitília. Ambas octogenárias.

Também apoiada nos dois cajados, a irmã de Lúcia vem a pé desde Vilar Chão até Água Formosa para a rever, aproveitar para fazer companhia ao almoço e passar lá a tarde.

Depois, o filho ou a filha virá buscá-la de regresso a casa. É um hábito que não deixa que se perca com a idade, ainda que seja partilhado por ambas o lamento de as forças serem já poucas e a vida já não ser como dantes. Hoje, o telefone também já facilita o contacto. Ainda assim, o caminho que diz demorar meia hora para a sua terra, Domitília vai-o fazendo pelo seu pé, agora ao longo de 60 minutos. Gosta de Água Formosa e além disso vai acompanhando Lúcia, para que não vença a solidão.

A Fonte de Água Formosa. Foto: mediotejo.net

Na aldeia perderam-se recentemente dois habitantes por questões de saúde. De sete passaram a cinco a viver ali permanentemente ou a passar temporadas mais longas.

Há 14 anos, uma nova família estabeleceu-se em Água Formosa. Recuperou a casa, mantendo a estrutura tradicional, usando a pedra e a madeira.

Miguel Sousa e Elsa, ele natural do Caramulo e ela da Madeira e que trabalham ligados a forças de segurança no concelho de Torres Novas, decidiram começar a apostar num projeto próprio, com intuito de dinamizar a aldeia e dar maior conforto e atenção aos visitantes. Passando por lá e não estando aberto, é contactar o número que está pendurado na porta. Ou com sorte encontra os proprietários no pátio de casa, e desde logo poderá aproveitar para um café ou um chá, acompanhados de biscoitos, bolos ou que lhe saltar à vista do menu.

Miguel Sousa, residente em Água Formosa há 14 anos, abriu recentemente um bar de apoio que é o pontapé de saída para um projeto integrado que quer desenvolver na aldeia, que inclui um alojamento local e experiências para os visitantes. Foto: mediotejo.net

Em frente à residência, com a bênção dos sobreiros surge o “Sobreiro Velho”, integrado no projeto e marca “Ninhos de Xisto”. Este é um dos primeiros passos a caminho da concretização dos planos, que passam por dinamizar também alojamento local e ter ali um bar de apoio/snack-bar, onde as pessoas possam consumir alguns produtos tradicionais.

O que antes era um espaço de arrumos e que chegou a estar destinado para fazer um canil, foi transformado pelas mãos de Miguel. Faz da bricolage, construção e carpintaria uma forma de desanuviar e aliviar o stress da profissão e do dia-a-dia. Com os filhos fora, a estudar e a trabalhar, e já a pensar em dedicar-se a outras atividades no futuro juntamente com a mulher, poderá surgir uma nova dinâmica na aldeia – mas sem alterar a identidade daquele lugar de paz e sossego.

Onde o silêncio apenas é interrompido pelos sons da natureza.

As horas passam devagar por ali. Parece até que o tempo parou de propósito para permitir assimilar cada detalhe, contemplar a beleza e singularidade de cada esquina.

Foto: mediotejo.net

Numa altura em que a pandemia veio trazer ao de cima o valor da liberdade, a necessidade de abrandar e de repensar prioridades, nada melhor que tirar algumas horas para uma experiência que promete o maior de todos os ganhos: ter tempo para si e para os seus.

Porque partir à descoberta pode muito bem ser, no final de contas, o antídoto que precisava. Não carece de prescrição médica, é grátis e só promete mais-valias para a saúde e bem-estar. É calçar as sapatilhas, e deixar-se levar pelo espírito de aventura, partindo em busca desta “aldeia de formosura”, bem guardada no centro de Portugal.

FOTOGALERIA com mais alguns detalhes desta aldeia-postal de Vila de Rei:

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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