Uma cidade e tudo o que ela comporta é fruto tanto do nosso egoísmo como da nossa fantasia. Mas como em tudo na vida temos que nos adaptar a ela. É como um círculo que vai configurando o nosso destino, dotado de várias facetas que contribui para moldar o carácter social dos seus habitantes.

Dizem até que, hoje em dia, a cidade tem efeitos letais que se assemelha a uma tumescência cancerosa. Não irei tão longe. Por agora ainda a posso tocar. Mas lá chegaremos. Aliás palpita-me que a nossa irracionalidade de tempo e espaço esteja quase sobre as nossas cabeças. O aumento da população e a aglomeração dos seres humanos na cidade tem sido um quebra-cabeças para os estudiosos destas matérias. No entanto os processos para salvar a cidade das desgraças são inexoráveis. Os subúrbios geralmente vocacionados para o industrial, para os bairros de vivendas e para a diversão fomentam a desintegração relacional e concorrem para o inevitável: a destruição das paisagens que confinam com a cidade.

As árvores que caiem em favor das gruas, os jardins asfaltados… tudo isto suportamos com enorme indiferença. Estamos obrigados a trabalhar com respeito pelas gerações vindouras, a nossa inteligência, e capacitar com todas as forças ideias para impedir que se destruam as paisagens e que as cidades se convertam em desertos.

Nas nossas cidades sinto que muitas vezes as contemplamos como se elas não nos pertencessem, como se as víssemos pela primeira vez, causando um indubitável ciclo deprimente, onde não existem avenidas plantadas de árvores, nem bancos para poder descansar.

Lembremo-nos da silhueta de Roma, dos monumentos históricos, praças e teatros, muralhas e torres, ou até de Nova Iorque, Amesterdão, a própria Veneza, e aí podemos refletir sobre o perfil de cada uma, aquilo que elas nos oferecem. Tal como dizia Richard Neutra (1892-1970), um dos mais famosos arquitetos do modernismo, uma cidade tem que atuar como um remédio virtual que sirva de apoio aos pontos da alma que representam a autoconfiança do homem. Percebendo o carácter inconfundível das realidades da cidade nas suas mais diversas formas de tempo, saber que existe luz e sol no verão, mas também outono e inverno. É esta articulação e modulação entre o particular e o geral que tem de ser contextualizada.

As pessoas adaptam-se, mudam-se, emigram para as zonas verdes e aí se constroem mais pisos, uns junto a outros, e isto é uma realidade. Há que pensar novas ideias que fomentem a coesão social e que ponham a cidade ao serviço das famílias. As cidades são uma autorrepresentação das realidades coletivas e não basta culpar os arquitetos, os donos das casas, os ateliers de urbanismo, os serviços de planificação, ou até os próprios municípios. Não arranjemos um bode expiatório, todos temos culpa. Não é infortúnio nenhum podermos dar nova vida às nossas cidades tomando como exemplo os modelos das velhas cidades. A nossa tarefa é encontrarmos o equilíbrio entre essa realidade e realizarmos um novo ambiente em função do mundo técnico, que produziu uma melhor consciência educada nas cidades, fazer um esforço de integração: uma cidade que possua coração.

Todos nós conhecemos a frieza e a inospitalidade da nova forma de construir que engloba na sua essência e no seu âmago, o tabu das relações de propriedade do solo urbano. Como pode ser possível a ausência de uma intenção política que reorganize o espaço das áreas urbanas, combata os preços especulativos dos terrenos? A própria propriedade privada, independentemente dos seus afetos, pode ser mortal para a própria comunidade, é um tabu, um fetiche, que ninguém se atreve a tocar. Ninguém com responsabilidades, quer sejam os partidos políticos, quer o corpo legislativo, ousa fazê-lo. E concordarão comigo que os exemplos que encontramos nos mais variados locais não são desejáveis do ponto de vista organizacional e de ordenação. Toda a pessoa inteligente sabe que a necessidade de obter a reforma das relações de propriedade não tem nada a ver com ideologia mas sim com situações de mutação, próprias da sociedade em que nos movemos.

É o interesse da comunidade que deve prevalecer, sabendo nós que todos somos egoístas. Apoiados na consciência deveríamos fazer subordinar um pouco mais os nossos interesses aos interesses da comunidade, uma mais adequada forma à era técnica e desejar um espaço livre ao indivíduo fomentador da cultura urbana e do progresso racional. São os especialistas que devem abrir o caminho da razão contra os motivos irracionais e egoístas dos proprietários. O tabu sacrossanto da propriedade é uma problemática que em muitos momentos não serve a comunidade que se eterniza e nada resolve.

Sobre toda a estética da cidade, temos que refletir, se queremos encontrar as causas da sua inospitalidade e do futuro taciturno e ocluso dos seus habitantes. Os homens da cidade são inseparáveis do espaço que os circunda, das suas condições de vida. O frenético consumo, o aumento da produção económica, o descontrolado aumento da população, a falta de planificação, o conformismo com esse processo, leva-nos a diabolizar a felicidade em detrimento das luxúrias civilizacionais industriais. Tal como se apresenta, resulta naturalmente mais lucrativo, vender um pedaço de terra a uma companhia de seguros do que o converter em um lugar onde as crianças possam jogar. É incomensuravelmente mais cómodo relegar os velhos, ainda produtivos, para asilos, do que nos esforçarmos para encontrar soluções para que possam ser produtivos, caso consigam, ou então, poderem ao menos, viver respeitados no meio dos outros.

E vale a pena intentar todas as análises, fazer todas as experiências, iluminar de um modo mais claro os debutantes, onde se escondem muitos egoísmos e poucas coisas santas. A humanidade tem as suas raízes nas cidades. Uma cidade é um lugar onde nasceu aquilo a que chamamos liberdade civil, essa mentalidade que se opôs aos surdos poderes da ditadura.

Na verdade, é com mágoa que sinto estar prestes o desmoronamento da cidade cheia de colónias do além, que a estreitam lentamente até um dia a vencer e transformar sem piedade. Mas esta é a lei da vida e o destino fatal de um país.

Carlos Alves

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.