A oportunidade do anúncio das novas medidas de austeridade do novo Governo para conter o défice das contas públicas em 2016, permitiu-nos assistir aquilo a que chamo de momento agridoce da política portuguesa.
Se, por um lado, o governo não cedeu à tentação de estragar os resultados e estratégia que nos permitiu reduzir o défice de 11% até menos de 3%, por outro não resistiu a tentar enganar os portugueses com medidas fantasma para tentar criar a ideia que o mérito da redução do défice era já deste novo executivo e de Mário Centeno.
Neste contexto apetece recordar o que António Costa fez a António José Seguro: quando este se aproximava da meta, Costa derruba-o e apresenta-se como líder do PS. Agora a estratégia foi a mesma, o Governo PSD-CDS fez a maratona com os portugueses, todos fizemos sacrifícios e agora o executivo PS apresenta-se na “meta” para fazer os últimos dez metros de uma maratona de dezenas de quilómetros. Isso não seria grave porque era a ordem natural das coisas, e já um hábito. O problema é que o PS tentou criar a ilusão aos portugueses que afinal tinham sido eles a salvar o “maratonista” da desistência à beira da meta.
Vamos aos factos.
O Conselho de Ministros anunciou ontem três medidas decisivas para conseguir cumprir o défice. A primeira garante que “não vão descongelar as verbas cativas de várias entidades da administração pública”. Sim, dizem que não vão descongelar verbas que foram congeladas há meses pelo governo anterior. Ou seja, não vão fazer nada e bem. Não mexer para não estragar é um sinal de inteligência.
Em segundo lugar, Centeno anunciou que “não iam contrair novas despesas não previstas e não urgentes”. Quer isto dizer que não vão fazer novas despesas que não sejam necessárias e que não estavam previstas. Muito bem, não vão fazer despesa que não é necessária.
Por fim, garantem cortar 46 milhões de euros de despesas da administração pública. Ou seja, vão cortar 0,026 % do nosso défice, menos de uma centésima da despesa em défice. O Ministro das Finanças foi ontem questionado sobre o valor do contributo destas medidas na redução do défice mas preferiu não responder. Afinal a resposta, a ser honesta, significaria ZERO. Estas medidas significam 0 euros na redução do défice das contas públicas de 2015. Este pacote é um embuste.
Este Governo chamou medidas extraordinárias a medidas habituais de gestão corrente.
Não somos tolos, nem os portugueses merecem ser tratados como tal. Tentar passar a ideia que foram estas três medidas fantasma que permitiram a Portugal sair do procedimento de défice excessivo é gozar, é apoucar, é menosprezar os sacrifícios dos portugueses e sobretudo a sua inteligência.
É nestas atitudes que se vê a forma como cada um de nós está na política.
A terminar, felicito o atual governo por ter resistido à tentação de estragar o património que receberam, de resistir à tentação de estragar os ótimos resultados em matéria de défice recebidos do governo PSD-CDS.
