Cabem muitas sonoridades nas músicas de Ana Laíns, que fez um caminho muito próprio ao longo das duas últimas décadas, celebradas num concerto especial no Casino Estoril. Fotografia: Arlindo Homem

A revolução de 25 de Abril de 1974 tem uma banda sonora própria, feita de canções que, intuitivamente, a maioria dos portugueses sabe (pelo menos) trautear. Mas quase 49 anos volvidos sobre o dia em que se pôs fim a 48 anos de ditadura, a memória vai-se esfumando e perdendo nitidez.

Não é por isso de estranhar que, das 17 canções que Ana Laíns escolheu para celebrar a data, num concerto com orquestrações especiais com banda sinfónica, quase nenhuma melodia era conhecida das cerca de 30 crianças e jovens que vão subir com a cantora ao palco do Cineteatro Paraíso, em Tomar. Além de “Grândola, vila morena”, de Zeca Afonso, só nos ensaios que decorreram esta semana ouviram pela primeira vez músicas como “E Depois do Adeus”, “Que força é essa” ou “Pedra Filosofal”.

Pegar nestas canções e trabalhá-las com as gerações mais novas foi a forma que Ana Laíns encontrou de fazer “intervenção” em 2023. Nos ensaios, mais do que colocá-los a ler pautas de música, quis fazê-los pensar e conversar sobre a mensagem daquelas composições. “O que acham que quer dizer esta letra? E o que é para vocês a Liberdade?”

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Ana Laíns, que nasceu em Tomar e cresceu em Montalvo (Constância), e tem mais de 20 anos de carreira a promover por todo o mundo as raízes musicais e linguísticas de Portugal, conta-nos que a ideia para os dois concertos especiais que dará a 24 e 25 de Abril (em Montemor-o-Novo e em Tomar) surgiu, por um lado, para “cimentar a certeza da intervenção no feminino” e, por outro, “contribuir para uma maior aproximação das camadas mais jovens às grandes canções que fazem a história da Revolução dos Cravos”. Daí a opção de estar em palco com bandas filarmónicas, uma vez que são estas “as grandes responsáveis, atualmente, por uma grande parte do ensino de música e instrumentos no nosso país”, frisa a cantora.

ÁUDIO | Entrevista com Ana Laíns

Os preparativos decorrem há três meses, mas os ensaios conjuntos da banda de Ana Laíns com a Banda Nabantina vão ser apenas três. “Seria bom haver mais ensaios, claro, mas tenho a certeza de que será um momento muito bonito, muito especial, quer para todos os que vão estar em palco como para o público que assistir”, conta-nos no dia do segundo encontro com os jovens músicos de Tomar.

No final, Ana Laíns diz que o importante é que seja um concerto memorável – sobretudo no sentido de “mexer” com todos os que ouvirem estas canções emblemáticas, “reforçando a necessidade urgente de nos reaproximarmos dos valores democráticos” e de nunca darmos por garantida a liberdade conquistada. “Temos de batalhar pelos nossos direitos sempre, todos os dias.”

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Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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