Jorge Rodrigues constata que centralização prevista pela nova PAC vai afastar-se das reais necessidades dos empresários locais Foto: mediotejo.net

Em 2021, a Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte (ADIRN), uma associação sem fins lucrativos certificada para gerir localmente fundos europeus voltados para o desenvolvimento agrícola e rural, celebrou 30 anos e 50 milhões em projetos financiados. O futuro, porém, é incerto. A nova Política Agrícola Comum (PAC) e os fundos a ela dirigidos parecem estar a deixar de fora estruturas como a ADIRN, que veem assim a sua ação de proximidade ficar reduzida aos mínimos. Numa época em que a agricultura voltou a ser “sexy”, impulsionada pelas novas tecnologias digitais e pelo turismo de natureza e de bem-estar, o Ribatejo Norte pode conseguir reposicionar-se com sucesso mediante os novos modelos económicos voltados para o regresso à ruralidade. 

A ADIRN nasceu em 1991, em resultado do PDAR – Plano de Desenvolvimento Agrário Regional, com o objetivo de gerir uma iniciativa comunitária de desenvolvimento rural designada LEADER. O seu território era a “zona agrária de Tomar”, uma área de 1.400Km2, seis municípios e 150 mil habitantes: Tomar, Torres Novas, Ourém, Alcanena, Vila Nova da Barquinha e Ferreira do Zêzere. “À data tínhamos cerca de 30% da população ligada à agricultura”, recorda o coordenador da ADIRN, Jorge Rodrigues, ao mediotejo.net. 

O cenário mudou ao longo destas três décadas, com um progressivo abandono das terras entre a transição de século e, mais recentemente, uma tendência de retorno. “Há uma vontade de regresso à terra”, constata Jorge Rodrigues, em parte devido à melhor qualidade de vida, mas também, e sobretudo, porque as novas tecnologias vieram ajudar bastante ao trabalho agrícola, que deixou de ser tão agressivo, duro e sujo, como ainda era nos finais do século XX.

Tornou-se “sexy”, constatamos, expressão que o responsável admite adequar-se a este novo período de empreendedorismo em que muitos jovens empresários estão a ser atraídos para a agricultura e, de uma forma geral, para setores de atividades voltados para a natureza, atividades com cada vez mais reconhecimento económico.

Turismo de bem estar pode ser um dos futuros do território, comenta Jorge Rodrigues, Foto: mediotejo.net

Quando a ADIRN iniciou a sua atividade, na época mais direcionada para a agricultura que para o desenvolvimento rural, a vinha e o olival estavam a ser progressivamente abandonados, praticando-se uma agricultura de “fim de vida”. “Ao fim destes 30 anos o que temos vindo a assistir é a um renovar da agricultura no território. Muitos jovens agricultores, e outros menos jovens, mas temos projetos muito interessantes”, reflete.

“O setor do vinho é um exemplo fantástico”, constata Jorge Rodrigues, uma vez que “renovou-se completamente” com produtores de “vinho de excelência”, capazes de entrar na competição. O olival também retornou, com o olival intensivo, o aumento da diversidade e a organização da produção e da colocação do azeite, criando-se produtos valorizados. Vingaram ainda outras produções menos comuns, como o kiwi ou as romanzeiras.

“Foi toda uma revolução nestes últimos 30 anos e muito em grande parte devido aos apoios existentes”, quer da ADIRN, quer diretamente do Ministério da Agricultura, que continua a tutelar o LEADER, entretanto diluído nos programas comunitários.

O lado negativo deste crescimento do setor agrícola, cuja produção pode ser hoje orientada a partir de uma aplicação no telemóvel, também tem atraído alguns empreendedores excessivamente românticos, que negligenciam as particularidades da natureza. Jorge Rodrigues admite que por vezes não há consciência, uma vez que falta a formação de base, para “as nuances do negócio”.

“O negócio implica muita atenção. Os animais comem todos os dias. As plantas precisam de atenção todos os dias e têm problemas, estamos a falar de seres vivos. Obriga a um dedicação que muitas vezes as pessoas, no seu romantismo, não percebem que vai além do investimento”, admite.

“No dia a dia tem que se estar presente”, frisa, comentando porém que são pontuais os casos de insucesso e abandono das produções e das estufas na região.

Mas a ADIRN não é hoje só agricultura, constatando o coordenador que pelo menos metade dos 50 milhões de investimento que a associação ajudou a concretizar nos últimos 30 anos foi canalizado sobretudo para o turismo, nomeadamente de natureza ou turismo ativo. Houve ainda investimento na valorização de aldeias e preservação do património cultural.

“Há uma diversidade de projetos” concretizados nos seis concelhos de abrangência da ADIRN. “Atualmente temos seis linhas de apoio: pequenos investimentos agrícolas, comercialização, diversificação de atividades na exploração agrícola, mercados locais, promoção dos produtos e valorização de aldeias”, enumera, adiantando ainda o apoio às empresas e ao emprego e às energias renováveis.

Apoiar os pequenos projetos, as pequenas empresas, é o foco desta associação que tem participação dos municípios que a envolvem, admitindo Jorge Rodrigues que a sua grande mais valia é a proximidade ao território. Por tal, admite a sua preocupação com o novo quadro de apoio, o Portugal 2030, orientado pela nova PAC, que reduziu ao financiamento mínimo este tipo de associações, prevendo-se assim uma limitação futura do seu trabalho. 

“Foi lançado o PEPAC- Plano Estratégico para a Política Agrícola Comum, onde se prevê apenas 5% para apoios a estes projetos da agricultura, os tais 5% do LEADER (o mínimo que a comunidade obriga). Sendo que o volume total do dinheiro da PAC é menor, estes 5% são menos dinheiro que o anterior quadro”, explica.

“Estamos a acabar o atual quadro comunitário, que já foi pior que o anterior para as associações”, recorda, encontrando-se neste momento a decorrer o período de discussão para o próximo programa comunitário.

“Foi lançado o PEPAC- Plano Estratégico para a Política Agrícola Comum, onde se prevê apenas 5% para apoios a estes projetos da agricultura, os tais 5% do LEADER (o mínimo que a comunidade obriga). Sendo que o volume total do dinheiro da PAC é menor, estes 5% são menos dinheiro que o anterior quadro”, explica. “Também não conhecemos ainda que tipo de projetos podemos apoiar. Provavelmente pequenos investimentos, coisas ligadas à agricultura, mas as outras coisas não sabemos”, refere.

A Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local enviou um documento à Ministra da Agricultura a “manifestar o seu desagrado”, referindo que gostariam de participar na construção do novo plano. “O modelo que está neste momento, na parte agrícola, não é muito bom”, sintetiza.

Na componente das micro-empresas, a ADIRN não foi incluída no acordo de parceria, pelo que a associação perde o seu papel de gestora de apoios para estas pequenas empresas locais. “Isso é muito mau”, lamenta, porque considera que é sobretudo o território que fica a perder. No geral, explica, os financiamentos passam a estar bastante centralizados nas instituições nacionais e públicas, afastando-se da realidade do quotidiano das populações.

“É perder a capacidade de intervenção dentro dos territórios mais frágeis, que são aqueles que mais precisam”, nota o gestor.

“A ADIRN é uma das 50 associações que trabalha no país. Vamos continuar a existir. Como, não sei, e com menos dinheiro”, constata. Vai continuar a haver uma componente de dinamização de territórios, refere, onde a ADIRN poderá continuar a sua atuação, mas perde competências de forma geral e a sua capacidade de intervenção será reduzida. 

Segundo Jorge Rodrigues a relação com os municípios locais tem sido “boa”, com Ourém e Torres Novas a assumir um papel mais frequente na direção. No atual quadro comunitário, a vertente de “cooperação” levou a ADIRN a apostar na dinamização de projetos em Cabo Verde, onde vários dos municípios têm uma geminação, em particular a dinâmica colaboração entre Torres Novas e Ribeira Grande.

Em cima da mesa está pois a criação de uma Casa da Lusofonia em Cabo Verde, que será um centro de desenvolvimento de estimulo aos negócios. Este mês de janeiro decorrerá na ilha de Santo Antão o “Encontro da Lusofonia”, onde será dado início a esse projeto.

“Vai ter salas de formação, de loja de produtos locais, dinamização de negócios de micro-empresas e a componente de escola de turismo de natureza”, enumera, salientando que será dada assessoria ao desenvolvimento de projetos. “Cabo Verde tem um potencial interessante”, salienta, sendo dos países africanos mais bem organizados e onde a ADIRN tem procurado ser uma instituição mediadora de contactos.

Na região do Ribatejo Norte, que envolve sensivelmente metade do Médio Tejo, Jorge Rodrigues constata ainda o crescimento de um ramo do turismo natureza voltado para o turismo de bem estar. “Estamos a tentar criar soluções para que o território seja atrativo” ao nível deste tipo de turismo. “A natureza e o bem estar estão muito associados”, constata, estando-se a desvincular da parte do desporto e do turismo ativo e a voltar-se mais para a vivência do espaço natural como forma de terapia. 

É neste sentido que a região se pode tornar “diferenciadora”, defende, associando-se ao bem estar os elementos já existentes de Fátima, Templários e Castelo de Bode, setores que a ADIRN não pretende esquecer e continuar a dinamizar. “As pessoas não vêm cá para se curar. Vêm para regressar às suas origens e sentirem-se bem consigo próprias”, reflete.

“Acreditamos que temos aqui algum potencial” e esta de Rede de Turismo de Bem Estar será uma das áreas a explorar no próximo quadro comunitário. 

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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