Clara Zetkin (1857-1933), gravura de Robert Diedrichs, 1960

Consultando o calendário das iniciativas públicas desta semana constata-se que são muitas as que se dedicam à temática “mulher” ou “mulheres” e se integram, de uma forma ou de outra, nas comemorações do 8 de Março – Dia Internacional da Mulher. Entidades públicas, como as autarquias locais, associações, clubes, escolas, etc., levam a efeito um leque variado de iniciativas. Os jornais e outros órgãos de comunicação social também aproveitam este período para fazer reportagens, os cronistas (como é o caso) não fogem ao tema.

E ainda bem, digo eu. Ainda bem que há tanta iniciativa e que se fala tanto da situação das mulheres por ocasião do dia 8 de Março. Ainda me lembro do tempo, não tão longínquo, em que comemorar o 8 de Março era considerado por muito boa gente como “coisa de quem não tinha mais nada para fazer”…

O 8 de Março comemora-se por iniciativa da ONU desde 1975, mas as suas origens remontam a 1910 quando Clara Zetkin propôs a sua consagração como o dia da mulher, na 2.ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas que decorreu em Copenhaga.

É um dia consagrado às lutas e aos direitos das mulheres. Ainda hoje, em muitas zonas do globo, comemorar o 8 de Março pode ter consequências muito graves – da prisão à morte.

Assinalar e comemorar o 8 de Março não é oferecer “unhas de gel”, “uma flor”, ou elogiar as qualidades que só as mulheres têm, geralmente aquelas “qualidades” baseadas na sua capacidade de “cuidar”, de “suportar”, de “aceitar”… qualidades que levam a que se considere como positiva a posição de submissão, subalternidade e invisibilidade a que as mulheres foram obrigadas durante séculos. Estes exemplos tristes ainda existem, infelizmente e por vezes donde menos se espera.

A luta das mulheres não se faz no dia 8 de Março, mas esse dia serve para lembrarmos a luta de todas as mulheres, em todos os continentes, para enumerarmos cada direito conquistado, para contar a história às jovens raparigas e aos rapazes, e, sobretudo, para nos mobilizarmos para fazer o tanto que ainda falta para que a plena igualdade exista.

No 8 de Março de 2018 não posso esquecer as operárias da Triumph, aquelas mulheres, trabalhadoras, construtoras de uma marca, que deram o seu esforço e as suas capacidades a uma empresa durante 40, 20, 10 anos e em pleno século 21, para defenderem os seus direitos mais básicos no processo de insolvência, tiveram que permanecer, dia e noite, durante mais de 20 dias à porta da fábrica. E não arredaram pé!

A história está cheia de situações e exemplos como o destas corajosas mulheres. Umas vezes elas ganharam, outras perderam, mas sem elas e a sua luta não tínhamos chegado onde estamos hoje, disso tenho a certeza.

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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