Barco picareto está ligado umbilicalmente à história da aldeia ribeirinha de Ortiga, em Mação, aos seus calafates e pescadores. Foto: Sérgio Durão

O concelho de Mação candidatou sete patrimónios culturais e locais a todas as categorias existentes, estando nomeados diversos usos, costumes e tradições do concelho, entre os quais as Velas de Cardigos, Lenda de Nossa Senhora da Moita, Feira dos Santos, Passo Lento, Terço da Farinheira, Procissão do Divino Espírito Santo de Cardigos e os Barcos Picaretos de Ortiga. Este domingo, dia 7 de junho, vão integrar a fase de apuramento dos finalistas regionais, entre um total de 140 finalistas selecionados entre regiões, numa emissão da RTP1.

Além do Terço da Farinheira e da Procissão do Divino Espírito Santo de Cardigos, existem mais cinco patrimónios nomeados, de diversas localidades do concelho.

Comecemos por Ortiga, de onde surge o tradicional barco picareto, um barco utilizado para pesca no rio Tejo, e que era construído naquela freguesia para dar meio às famílias de pescadores para conseguirem ir para a faina ou para se atravessar de uma margem à outra, servindo de meio de transporte privilegiado à época.

A história dos picaretos de Ortiga funde-se com a história do último calafate dali, o conhecido Ti Manuel Fontes, falecido em janeiro de 2017 com 90 anos. Tinha nas mãos o engenho e arte para construir este tipo de embarcação, contando-se mais de 3 centenas os que saíram da sua oficina em Ortiga.

Segundo recolha do município de Mação, os picaretos surgem com este nome “por terem a forma de uma picareta agrícola”, ao longo de seis metros de comprimento. É um barco capaz de se adaptar facilmente às variações de caudal, pois trata-se de “um barco de aresta, com fundo chato podendo navegar com um palmo e água”. Demora cerca de 20 dias a ser construído, sendo necessárias cerca de 100 tábuas, o equivalente a 4 pinheiros.

Uma das muitas réplicas em ponto pequeno que Manuel Fontes, o último calafate de Ortiga, foi fazendo. Muitas são as pessoas que de propósito vinham a Ortiga conhecer a oficina e buscar a sua obra de arte. Mação vai homenagear esta arte no Núcleo Museológico a abrir em breve, instalado na antiga escola primária da localidade. Foto: CMM

A constituição deste barco tem a particularidade de ser dividida em dois leitos, sendo que “o mais largo é o leito grande onde, em cima, se trabalham as redes e, por baixo, se dorme”, enquanto o leito pequeno “é o da proa, onde se mete o serrão da «bucha» para comer e os sapatos, pois no barco é obrigatório andar descalço”.

“Os barcos picaretos são parte da nossa identidade, a par do Rio Tejo, sendo considerados autênticas obras de arte por conjugarem a experiência dos pescadores com a criatividade dos seus construtores. A técnica da sua construção passou de geração em geração e assumem-se hoje como um dos maiores bens da nossa história, com a certeza do seu fim, com a extinção dos calafates, que foram muitos”, sublinha a CM Mação sobre a candidatura, de um bem patrimonial que “trazia auxílio aos pescadores e comida às mesas e porque ainda cruzam as águas do nosso Tejo”.

A autarquia refere que, em homenagem às artes da pesca, aos pescadores, aos calafates e ao rio Tejo, irá ser inaugurado “em breve” o Núcleo Museológico de Ortiga, instalado na antiga escola primária, e que funcionará enquanto “pólo museológico das artes da pesca tradicional no rio Tejo, onde o picareto tem lugar de honra assumindo-se como peça principal”.

Outro dos patrimónios em destaque é a afamada e bicentenária Feira dos Santos, que se realiza todos os anos a 1 de novembro, Dia de Todos os Santos. Segundo a Câmara de Mação, foi em 1800 concedida a Provisão pelo Rei, em decreto de 4 de setembro, para a criação do evento.

Bicentenária Feira dos Santos, em Mação. Foto: mediotejo.net

Este é um dos maiores eventos do concelho e atrai centenas de visitantes da região, oferecendo uma grande variedade de produtos, que vão do artesanato, aos hortofrutícolas, utensílios de cozinha, jardinagem ou agricultura e produtos típicos da gastronomia e doçaria local, nomeadamente bolos e broas da época e frutos secos.

A feira sempre foi muito requisitada pelos concelhos vizinhos, tendo a sua realização sido imposta no tempo pela época, altura em que as famílias aproveitavam para “encher as arcas e as despensas para o Inverno, nomeadamente os cereais, e comprar todo o tipo de material agrícola entre outros produtos”.

Segundo o município, ainda hoje é tradição as famílias rumarem àquele certame para adquirirem produtos locais e regionais, que continuam a privilegiar apesar da existência e comodidade dos hipermercados. Compra-se nomeadamente cereais, como o feijão, o grão, o milho ou os frutos secos, mas também panos, escadas e utensílios para a apanha da azeitona, e plantas e árvores para plantar.

Antigamente, porque também é neste dia que, manda a tradição, se sai pela manhã para pedir os “Bolinhos”, davam-se broas, torrados, romãs ou mesmo tremoços. Nos dias de hoje dá-se mais doces ou dinheiro, que acaba por ser investido durante a tarde na feira da vila.

Desde o bicentenário, em 2000, que é habitual fazer reconstituição história da feira doutros tempos, com elementos trajados à época, animação por Grupos de Rua, Bandas e Ranchos Folclóricos que se situa no Largo dos Combatentes, junto ao Cineteatro e à Câmara Municipal.

Também as associações locais, as escolas, os pais e famílias se associam a pequenas vendas de produtos caseiros.

Foto: Velas Condestável

Também nomeadas, na categoria de Artesanato, estão as velas de Cardigos, vila maçaense com tradição no que à fabricação de velas diz respeito e onde ainda existem três empresas a laborar, vendendo para todo o país.

Acompanhando o ritmo dos novos tempos, algumas já são mais industrializadas, mas há ainda quem aposte no fabrico artesanal, caso de António Silva, de 86 anos, da Fábrica de Velas Condestável.

Da Ladeira de São Bernardo, saem velas “em grande parte para Fátima”. São produzidos dois tipos de velas, “as mais amareladas, que vão para Fátima e as brancas de primeira qualidade. Um dos segredos e brio de António é utilizar apenas boa matéria-prima sendo que foge à “moda” da parafina”, refere o município.

O mestre António ainda utiliza a máquina antiga, que usa em demonstrações nas feiras e festas de concelho, onde mostra a secagem de 16 velas de cada vez.

“É no antigo lagar, que funciona de forma similar aos lagares antigos de azeite que é transformada a cera em bruto: derrete-se a cera suja, para as ceiras de onde escorre novamente cera líquida para as travessas em que segue para a máquina que molda e dá forma à cera, com o tamanho e forma que se quer”, recorda a autarquia sobre esta candidatura.

Esta é uma tradição com história, e que vai já na terceira geração, com o neto de António Silva a acompanhar os negócios e a trabalhar na adaptação às novas tecnologias, assente “no saber-fazer antigo”.

Lenda de Nossa Senhora da Moita, de Galega/Feiteira – Carvoeiro. Foto: CM Mação

Das aldeias de Galega e Feiteira, freguesia de Carvoeiro, está nomeada a Lenda de Nossa Senhora da Moita.

Na categoria de Lendas e Mitos, recupera-se a história da tradição das Merendas da Senhora da Moita, que se diz ser uma das mais antigas lendas da aldeia.

“Segundo se conta, tudo começou quando um pastor que tomava conta do seu rebanho encontrou uma imagem de uma Senhora com o seu filho ao colo no meio de uma moita que ali havia. Pegando na imagem resolveu levá-la consigo para dar de presente à sua filha e guardou-a no seu casaco. Quando chegou a casa, ao querer dar o presente à filha verificou que a imagem não estava no casaco, voltou atrás à procura do achado e encontrou-o na mesma moita. De cada vez que a imagem era retirada do local esta voltava para o mesmo sítio”, conta o município.

Acontece que esta história ganhou maior destaque quando passou naquele lugar um grande incêndio que “queimou uma grande área, menos a moita onde foi encontrada a imagem, daí o nome de Senhora da Moita”, sendo que, após o fogo, o povo da Galega e Feiteira resolveu construir em sua homenagem a capela da Senhora da Moita.

Diz-se também, segundo recolha do município, que “foi junto a esta capela que a Rainha Santa Isabel acampou aquando da sua deslocação de Coimbra para Vila Viçosa e não tinham o que comer. Ao saber disto o povo, com o pouco trigo de que dispunha, fez pequenos pães para oferecerem à Comitiva Real”.

Consta que a rainha prometeu ao povo que ali nunca mais faltaria pão, tendo dado ordem para que fossem doadas quantidades de trigo todos os anos, “por altura de S. Miguel”. Daqui nasceu “a tradição das Merendas de S. Miguel que são confecionadas neste dia e depois benzidas durante a missa na Capela da Senhora da Moita”, tradição que ainda hoje se mantém.

“Dois ou três dias antes junta-se a lenha e limpam-se os fornos para estarem preparados para a cozedura. No dia da confeção logo de manhã, bem cedo, chegam as mulheres que cozem as merendas do forno. As Merendas são benzidas na Missa e podem ser mantidas em casa mais de um ano que não se estragam”, termina.

Foto: DR/CM Mação

A fechar os sete patrimónios a concurso, está o Passo Lento, uma dança tradicional de Ortiga, nomeada na categoria “Músicas e Danças”.

A dança nasceu nos anos 70, com o Grupo Etnográfico e Folclórico da Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga que efetuou recolhas junto de pessoas idosas, nas quais baseou todo o seu trabalho, enquanto esteve ativo.

O Passo Lento, “um Fado Beirão que foi transmitido ao Grupo Etnográfico nos anos 70 por um octogenário que o tinha aprendido em Ortiga, nos anos 40 do século XIX”, está entre as danças do Rancho que incluíam Modas de Roda, Saias, Dois Passos, Verde Gaio, Fado Batido, entre outras, demonstrativas de como se trajava e bailava no início do século XX.

“Quando o Rancho se federou percebeu ter aquela moda a particularidade de ser o único fado das beiras acompanhado por instrumentos de cordas, todos os outros acompanhavam com acordeão. É bastante incomum, particularmente por ser acompanhado pelo banjo e bandolim, não considerados instrumentos próprios de um Grupo Etnográfico”, lê-se.

Refere o município que, nas várias saídas do Rancho do Grupo Etnográfico, esta dança sempre mereceu rasgados elogios, no país e no estrangeiro, pela sua particularidade e por ser uma dança lenta e peculiar, apenas tocada.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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