Estes têm sido dias diferentes, com maior ausência provocada pelas restrições e imposição de distanciamento social, bem como proibição de qualquer tipo de festejo ou evento de índole cultural, religiosa, social ou económica. Mação, ali por alturas do mês de abril, seria o epicentro dos encontros e reencontros em tempo de celebrações pascais, muito enraizadas na identidade das gentes maçanicas. O feriado municipal assinala-se na segunda-feira após o Domingo de Páscoa. Ambos os momentos foram passados em confinamento, na casa de cada um, e provavelmente a recordar as memórias, usos e costumes, de tempos idos e desde os quais sempre se fez para manter viva a tradição. Sem procissões, rituais e cerimónias religiosas, serve de consolo o facto do Terço da Farinheira estar nomeado para as “7 Maravilhas da Cultura Popular”. Este domingo, 7 de junho, o painel de especialistas da iniciativa “7 Maravilhas da Cultura Popular” divulga os nomes dos candidatos que passam à próxima fase do programa.
Nos 15 dias que antecedem a Páscoa e no próprio Domingo de Páscoa, a vila de Mação vestir-se-ia de fé e devoção, com grupos da sociedade a organizar todos os momentos e procissões, e a participar para cumprir em mais um ano aquela que é a tradição e cultura de um povo.
Aconteceria a Celebração Mariana, e no domingo a seguir a Procissão do Senhor dos Passos, considerada um dos acontecimentos mais importantes do panorama religioso de Mação por representar, em quadros as figuras que intervieram no julgamento, condenação e morte de Jesus, o “Senhor dos Passos” que levaria a cruz às costas, atravessando as ruas de Mação como outrora percorreu as de Jerusalém.
A procissão marca ainda o Encontro com a Sua Mãe e sobe habitualmente até ao Alto do Calvário, onde tem lugar o Sermão do Calvário junto à Capela de S. Pedro e S. Paulo. À noite tem lugar a Procissão e Sermão da Senhora da Soledade.

Por outro lado, faz parte da tradição maçaense cantar um Terço a cada domingo, durante a Quaresma, compondo cerca de 7 Terços cantados de madrugada apenas por homens, segundo dizem os antigos e conforme informação divulgada pelo Município de Mação.
Entre o primeiro e o quarto Domingo da Quaresma eram cantados os Terços da Boca Aberta, cerca das 2h30, alertando as pessoas para o facto de já se ter entrado na Quaresma, mas há algumas décadas que se começou a cantar apenas o primeiro.
Já no quinto Domingo da Quaresma teria lugar o Terço da Paixão, calhando no Domingo de Ramos, dia em que a vila acolheria a tradicional Feira dos Ramos.
Entra-se depois na Semana Santa, sendo que no Sábado da Aleluia à noite, depois da missa, acontece a Procissão da Ressurreição em que se leva a imagem do Senhor da Igreja Matriz para a Igreja da Misericórdia. Após a procissão, a única que percorre a vila sem a presença do padre, dá-se a Ceia Pascal, em que é oferecida uma ceia a quem vai, de madrugada, cantar o Terço da Farinheira, chegada a madrugada do Domingo de Páscoa. Cantadas as Alvíssaras a quem oferece a ceia, é cantado o Terço da Farinheira (Ressurreição) cerca das 3 da manhã, por se crer ser essa a hora em que Jesus terá ressuscitado.
Segundo a autarquia, desconhece-se o porquê do nome Terço da Farinheira, mas o povo acredita que tal se deve ao facto de não se poder comer carne por altura da Quaresma e por se optar por comer farinheira na Ceia Pascal, por ser barata.
“No livro do maçaense Francisco Serrano, “Romances e Canções Populares da Minha Terra”, de 1921, encontramos uma descrição minuciosa com as pautas e onde é explicado que nos 4 primeiros se canta a Avé Maria em adagio, segue-se o Terço da Encarnação, o Terço do Domingo de Lázaro, o Terço do Domingo de Ramos e da Sexta-feira da Paixão. Estes Terços são cantados com lentidão e dolentemente entoados. Por fim, o Terço do Domingo de “Paschoa”, que é o Terço da Farinheira. Esta música, cantada em Allegro, contrasta com as anteriores, traduzindo a alegria da Ressurreição, cantada alegremente e com rapidez”, lê-se em levantamento feito pelo município.
Outra curiosidade prende-se com o facto de, antigamente, as pessoas terem de se ajoelhar à passagem dos Terços, pois quem não o fizesse levava “uma cacetada” com uma moca.

Esta tradição maçaense, pela sua peculiaridade, rigor e envolvência comunitária e religiosa, como ato de fé e devoção, encontra-se nomeada para o concurso nacional “7 Maravilhas da Cultura Popular”, na Categoria “Rituais e Costumes”.
Este ano não pôde ser cumprido, por força da pandemia de covid-19 e da necessidade de confinamento e distanciamento social, mas fazendo parte da história e identidade do povo maçaense, não foi certamente esquecido, e para o ano serão feitas as celebrações pascais com maior fervor e devoção.
A região do Médio Tejo tem 32 patrimónios nomeados e candidatos às 7 Maravilhas da Cultura Popular entre o total de 471 nomeados de norte a sul do país e das ilhas. Com usos, costumes e tradições candidatos a esta edição do concurso estão representados os concelhos de Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Sardoal, Sertã, Tomar, Torres Novas e Vila de Rei. Nos concelhos limítrofes também Chamusca e Ponte de Sor apresentaram candidaturas. Este domingo, dia 7 de junho, serão apresentados num programa em direto, na RTP1, os sete patrimónios eleitos de cada região, no total de 140 finalistas regionais, que irão participar nas eliminatórias seguintes.
