“Fui para África e um dia, estava lá na caserna, e havia um rapaz de Castelo Branco que era muito meu amigo, infelizmente já faleceu, e tinha lá uma revista… dessas revistas da Maria, e havia lá aquelas direções, aquelas ruas de Castelo Branco, e eu digo assim para ele: eh pa conheces lá esta Rua João de Deus? E ele disse que conhecia. E eu: aquilo há lá sempre assim umas miúdas e tal? Então não há! Vou escrever uma carta! E, claro, pensei naquilo e escrevi a carta”, lembrou Tiago Rosa, hoje com 78 anos, reformado, com uma quinta em Tramagal. Mas a resposta tardou.
“Depois estive uns dias… a tipa nunca mais me escreve porquê? Não gostou de mim ou não gostou da minha cara? Passado oito dias escreveu-me a dizer que não se importava e tal… mas antes dela já eu tinha 18 madrinhas de guerra, com ela era 19”. Mas Zaida seria a tal.
“Foi uma coisa que ele… quis escrever e escrevia-me, mas nem pensei. Foi tão rápido que eu comecei a escrever. Ele mandava aerogramas muito bonitos e, com as fotografias, acabou por me cativar”, lembra Zaida, numa amizade que começou aos 18 anos e que acabou por redundar em casamento.

“As cartas eram mesmo bonitas, eram aquelas cartas bonitas, sem maldade nenhuma, a dizer o que é que ele passava. Se calhar essa humildade e essa dor que eu via que eles podiam lá passar… porque era um tempo muito ruim. Antes do 25 de abril era um tempo difícil. Se calhar talvez isso. Foi uma amizade até que deu nisto, em casamento”, conta Zaida, entre sorrisos.
VIDEO: A PRIMEIRA CARTA:
Tiago e Zaida retratam uma época particular da história portuguesa, em que as madrinhas de guerra trocavam correspondência com os soldados que combatiam em África, uma forma de atenuar a distância os horrores da guerra e aquecer os corações dos militares deslocados.
“Eles chegavam a dizer-me nas cartas que era o momento, dos dias que passavam nas matas e na guerra, que ver chegar o correio era o único momento em que tinham alguma alegria”, lembra Maria da Luz Lourenço, de Alferrarede, madrinha de guerra de 25 militares.
As amizades fizeram-se em Alferrarede, no restaurante do seu pai, o Brasa, onde os militares que prestavam serviço nos quartéis de Abrantes, mas também de Santa Margarida e de Tancos, se juntavam nas horas livres ou em jantares de despedida de camaradas que partiam a guerra. Marilú, a irmã Melita, e a mãe, Francelina, estabeleceram logo ali fortes laços de amizade, que se consolidariam na troca de correspondência com militares deslocados para Angola, Guiné, Moçambique, mas também para Timor e para Macau.

Não chegou a casar com nenhum dos 25 afilhados, embora houvesse “propostas”, mas “fizeram-se amizades para a vida”, conta Maria da Luz, hoje com 80 anos.
“Era um espetáculo [receber as cartas]. Assim que ouvíamos o avião, ia tudo a fugir para a parada, ver se vinha o correio, E era assim, a rotina era esta”, lembra Tiago, para quem aquele era o momento que alegrava os corações dos militares.
“As cartas eram a coisa melhor que lá podíamos receber, tanto da família como de madrinhas de guerra… aquilo era uma alegria. Era a coisa melhor. Melhor até do que o prato da sopa e do peixe”, lembra, bem-disposto e de paz com a vida e com a madrinha, hoje sua mulher.

Gosto muito do trabalho do Mário Rui Fonseca já o conheço há muiiiiiiiito tempo melhor dizendo desde miúdo.. Mais um trabalho magnifico sobre as madrinhas da maldita guerra este casal Zaida e Tiago que conheço muito bem.. Parabéns Mário Rui Fonseca…