Esta semana o Prof. Doutor Galopim de Carvalho foi homenageado na sua Faculdade de Ciências de Lisboa e recebeu da Câmara Municipal de Lisboa a distinção municipal por mérito científico.
A sua carreira científica fica associada à geologia, aos dinossáurios e ao Museu Nacional de História Natural.
Por coincidência estes reconhecimentos honoríficos coincidem com a passagem de mais um aniversário da descoberta das Pegadas de Dinossáurio da Serra de Aire o que me leva, a este propósito, a revisitar memórias escritas.
Há 22 anos atrás era impossível imaginar-se que a ação destrutiva da exploração de pedra iria pôr a descoberto valores paleontológicos de grande relevância para o mundo.
O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros onde se situa a Pedreira do Galinha, é conhecido pela beleza das suas paisagens calcárias e de um vasto conjunto de valores patrimoniais que justificaram diversos estatutos de classificação nacional e internacional.
É também uma referência pela conflitualidade presente nas inúmeras pedreiras que, apesar da sua importância socio-económica, são um potencial de ameaça sobre os valores naturais presentes.
A Pedreira do Galinha instalada na Serra de Aire, nos limites dos concelhos de Ourém e Torres Novas, era mais uma dessas explorações industriais de onde saiam diariamente dezenas de camiões de brita para a construção civil, sobretudo estradas e diversas outras obras públicas.
A sua gestão era acompanhada pelos técnicos do Parque Natural que de acordo com os objectivos da Área Protegida tentavam garantir o difícil equilíbrio entre a exploração mineral e a conservação da natureza.
No entanto em 4 de Julho de 1994 os olhares atentos de João Carvalho e de outros colegas da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia identificaram registos soberbos de pegadas de dinossáurio, organizadas em cerca de 20 trilhos diferentes e esse facto alterou radicalmente o percurso daquela pedreira.
Naquela manhã, o acaso fortuito de uma luminosidade particular, num ângulo pouco inclinado do sol, associado ao conhecimento daqueles exploradores da natureza, proporcionou a observação e descoberta de registos singulares para o mundo da ciência e da conservação da natureza.
A mudança de governo em Outubro do ano seguinte criou as condições políticas necessárias para que essa descoberta fosse devidamente protegida, num processo similar ao das gravuras de Foz Côa, e a sensibilidade do Eng.º António Guterres a estas questões resolveu o impasse que se instalara entre o concessionário da exploração e o Estado Português.
A ação militante do então Director do Museu Nacional de História Natural Prof. Doutor Galopim de Carvalho, liderou um movimento que apoiado por diversas Organizações Não Governamentais, Câmaras Municipais de Ourém e Torres Novas e cientistas nacionais e estrangeiros garantiu, numa luta de muitos meses a pressão necessária à sua protecção e salvaguarda.
A Prof. Doutora Vanda Santos, enquanto investigadora do Museu Nacional de História Natural, dirigiu o seu esforço de investigação para esses registos conferindo o suporte científico necessário à equipa que coordenou a transformação da Pedreira num local de visitação e aprendizagem.
A antiga pedreira transformou-se no nosso “ Parque Jurássico “, como começou a ser familiarmente conhecido o Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire atualmente sob a gestão do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas.
Estaríamos perante um caso de final feliz que expressa simbolicamente como é possível garantir equilíbrios entre os valores naturais, a economia e as pessoas, não fosse o caso do desinvestimento a que tem estado sujeito nos últimos anos!
Em momento de aniversário fica o desejo de que o valor simbólico deste caso não esmoreça por falta de meios.
