Guardo, ainda que de forma difusa nas profundezas da minha memória, o peso ideológico que este dia representava na sociedade portuguesa há muitos anos atrás. Se essa memória não me atraiçoa penso poder afirmar que o primeiro de Maio tinha inclusivamente mais força que o próprio 25 de Abril.
Apesar de ter demorado quase um século a chegar a Portugal, pelo menos para que fosse comemorado ou celebrado de uma forma livre, recordo a agitação inquieta que era vivida no dia do trabalhador, sendo este um dia que marcava a agenda para se passar uma mensagem, onde se gritavam palavras de ordem e onde se aproveitava para promover a cultura, ou pelo menos, uma determinada cultura!
Apesar de tudo e de terem sido tempos difíceis, aqueles eram tempos mais honestos que estes que vivemos nos dias de hoje. Desenganem-se se sentem algum tipo de saudosismo nas minhas palavras, aquilo que sinto é que eram tempos mais honestos porque todos sabíamos com o que o podíamos contar, mesmo que isso quisesse dizer que não podíamos contar com grande coisa!
As cores eram mais garridas, mas também eram mais nítidas porque não se esbatiam nos meandros dos jogos subterrâneos dos interesses individuais ou do cinismo coletivo e a verdade é que se analisarmos com alguma atenção, muito daquilo que foi conquistado, foi entretanto perdido. E se aqueles tempos eram difíceis, os de hoje, numa outra perspetiva, não são mais fáceis.
Ao longo dos anos tem-se vindo a perder o peso ideológico deste dia, mas talvez faça sentido que ele seja recuperado, não com a conotação dos fantasmas do passado mas como uma determinação de impor uma vontade e mudar uma filosofia. Aquela vontade que tantas vezes nos falta para assumir as rédeas do nosso destino a que culturalmente nos habituámos a apelidar de fado.
E este fado miserabilista, devidamente acompanhado por um culto de mediocridade, talvez seja o nosso principal adversário ou o principal responsável pelo estado a que chegámos, porque há povos que nos mostraram que é possível encontrar a solução para o seu problema enquanto nós teimamos em ser o problema para a nossa solução!
