A sessão solene, que decorreu no Salão Nobre dos Paços do Concelho, teve início ao final da tarde de quinta-feira, dia 8 de maio, momento onde os diferentes grupos partidários recordaram a história do concelho e destacaram projetos em curso e ambições para o futuro de Alcanena.
Rui Anastácio começou por agradecer aos colaboradores do município e à população pela confiança e empenho na implementação de projetos que considerou fundamentais para o concelho.
“O agradecimento que sinto não é apenas um estado de alma, mas uma gratidão sincera pela oportunidade de implementar políticas que realmente farão a diferença em nosso território”, afirmou.

O autarca destacou que, ao assumir a Câmara Municipal, o executivo deparou-se com uma série de dificuldades, incluindo projetos paralisados e sem financiamento. No entanto, hoje, a Câmara conta com mais de 60 projetos em andamento, “financiamento assegurado e devidamente enquadrados numa estratégia global”, declarou.
O edil salientou uma “taxa de execução orçamental recorde” de 98,5% em 2024, além do orçamento de 2025, que mais que triplicou em relação ao de 2022. “Temos contas equilibradas e um bom prazo de pagamento a fornecedores”, disse ainda o presidente do município.
Rui Anastácio sublinhou os esforços do executivo no setor da habitação, com o lançamento de um projeto de habitação para jovens, que inclui 145 casas em construção, 36 em concurso e 27 de um último lote em fase final de projeto.


“Estamos a mais que duplicar as nossas vagas de creche, ao mesmo tempo que reabilitamos a nossa Escola Secundária e temos concurso lançado para reabilitar a Escola de 2º e 3º Ciclo de Minde. Recordo que já este mandato reconstruímos a Escola Básica Professor Abílio Madeira Martins, em Minde (…) e reabrimos a antiga Escola Primária de Alcanena, com mais 4 salas de pré-escolar”, destacou o autarca.
Quanto ao desenvolvimento económico, Anastácio informou que o município está a trabalhar na criação de um parque empresarial, cujas obras devem iniciar-se brevemente. Este projeto, iniciado em 2018 e concretizado sob a sua liderança, visa a criação zona industrial do concelho, a primeira a nível nacional com certificação ambiental.
“Agora temos pernas para voar. Podemos sonhar com um território verdadeiramente inovador (…). Agora, sim, temos motivos para acreditar que o futuro de Alcanena será promissor”, finalizou Rui Anastácio.

Perante uma sala cheia, Isabel Luís, representando a Assembleia Municipal, realizou um discurso que combinou memória histórica, análise crítica da atualidade e apelo à participação cívica. Durante a sua intervenção, recordou os fundadores do concelho e todos os que, ao longo de 111 anos, contribuíram para o seu desenvolvimento, tendo destacado o papel dos alcanenenses republicanos que, a 8 de maio de 1914, viabilizaram a autonomia administrativa deste concelho.
Entre os marcos do progresso local, recordou “a construção de escolas, sedes de junta, redes de saneamento, infraestruturas culturais e desportivas”, bem como a criação de serviços públicos de proximidade, “como extensões de saúde e estações de correio”.
Contudo, lembrou também as perdas e desafios. “A reorganização de 2013 que nos retirou o tribunal”, a fusão de freguesias e a crescente dificuldade em manter serviços essenciais no território.
Referindo-se aos problemas estruturais que afetam Alcanena, como o envelhecimento da população, a falta de médicos, a escassez habitacional e a fragilidade do tecido empresarial, apontou também algumas soluções e iniciativas recentes.
Entre elas, a revisão do Plano Diretor Municipal (2021), a criação do Parque Empresarial de Alcanena e o regulamento municipal para arrendamento acessível.

A representante da Assembleia Municipal enfatizou ainda a importância da cidadania ativa, lamentando o afastamento progressivo da população da vida política. “Não podemos conformar-nos com a letárgica ausência do público nas sessões da Assembleia Municipal”, alertou, apelando à participação nas decisões locais, sobretudo num ano marcado por atos eleitorais.
Citando Miguel Torga, reforçou que “o cidadão acomodado e resignado traça o caminho para que outros decidam por si”, lembrando que a democracia se sustenta na crítica, na pluralidade e no envolvimento da comunidade.
António Magro, representante da CDU, prestou homenagem aos republicanos de 1914, mas centrou a sua intervenção na crítica à atual situação do poder local e às políticas de descentralização promovidas pelos governos sucessivos.
“Começamos naturalmente por prestar a maior homenagem aos republicanos que conquistaram a autonomia administrativa deste território, assim como a todos aqueles que, em democracia, lutaram pelo seu desenvolvimento”, afirmou António Magro, da CDU, sublinhando o valor do poder local democrático como herança direta de abril.

Durante o seu discurso, realizou uma crítica às políticas dos últimos anos, tendo afirmando que os governos do PS, PSD e CDS promoveram uma “ofensiva contra o poder local democrático”, denunciando “os ataques sistemáticos à autonomia das autarquias”, como o processo de extinção e não reposição plena das freguesias.
Defendeu que a “chamada descentralização”, apresentada como reforço da autonomia, não passa de uma “falsa exibição” que esconde a “transferência de encargos” para os municípios sem os devidos meios financeiros. Para a CDU, “descentralizar não é apenas transferir responsabilidades”, mas implica uma verdadeira regionalização e a recuperação da autonomia administrativa e financeira das autarquias.
António Magro fez ainda um diagnóstico da situação atual do concelho. “Confrontado com a realidade trágica de um concelho estagnado, empobrecido, esvaziado e envelhecido”, apontando a “falta de iniciativa política” das sucessivas gestões lideradas pelo Partido Socialista como responsável por décadas de atraso.
Apesar das críticas, reconheceu a importância de projetos em curso como o desenvolvimento do parque habitacional e empresarial, defendendo que “a diversidade da atividade económica é a principal via para o desenvolvimento do concelho”.
Alertou, porém, que o crescimento económico e demográfico exige “emprego com direitos”, habitação acessível, rede de transportes públicos e acesso a serviços essenciais como saúde e educação.
“A história da nossa terra, das nossas famílias, do nosso trabalho e da nossa identidade coletiva” foi o centro do discurso de Sónia Bento (PS), que relembrou o nascimento do concelho a 8 de maio de 1914 como “mais do que uma simples reorganização administrativa”, afirmando ter sido “o culminar de um sonho antigo”, alimentado por ideais republicanos e pelo forte sentimento de identidade das gentes de Alcanena, Minde, Bugalhos, Monsanto, Louriceira e Malhou.

A socialista destacou o papel da indústria de curtumes como motor histórico de desenvolvimento e enalteceu as potencialidades atuais do concelho, desde os recursos naturais, como o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, à força das suas gentes. Mas alertou ser “tempo de acrescentar novos pilares: sustentabilidade, inovação e, acima de tudo, proximidade e empatia com as pessoas.”
Na condição de oposição, afirmou que o PS “está atento, responsável e próximo das pessoas”. Rejeitando a crítica destrutiva, apresentou-se como uma alternativa “séria, construtiva e disponível para ouvir e agir”.
Fez questão de relembrar vários projetos com origem em mandatos socialistas, como o plano de pormenor do Parque Empresarial de Alcanena iniciado em 2018, a revisão do Plano Diretor Municipal em 2021 e a Estratégia Local de Habitação de 2020, que garantiu um investimento de 6,7 milhões de euros, sendo 3,2 milhões a fundo perdido. “Muito do que se faz hoje teve raízes nos nossos mandatos”, afirmou.

Para o PS, “é tempo de romper com a estagnação, com as promessas adiadas e com a falta de diálogo (…). Alcanena tem passado, mas merece mais no presente e precisa de um futuro construído com coragem, com competência e com verdade.”
Clara Batista, dos Cidadãos por Alcanena, destacou o momento como um “tempo de acreditar, sonhar e fazer acontecer”, reforçando o compromisso da atual maioria com “um concelho mais justo, inovador e próximo das pessoas”.
Na sua intervenção, Clara Batista afirmou que este aniversário representa uma celebração da identidade coletiva do território, construída “com luta, conquistas e amor a esta terra”.
A representante da coligação que governa o município há quatro anos recordou o estado em que encontraram o executivo. “Uma casa desarrumada, com dificuldades acumuladas e a esperança adormecida”, tendo acrescentado que, desde então, foi feito um trabalho “com espírito de missão e sentido de responsabilidade”, assente em “transparência, trabalho e dedicação”.

“Cumprimos os nossos compromissos com a população”, afirmou, reiterando que a prioridade foi sempre lançar bases sólidas e não procurar a “visibilidade mediática”. Segundo Clara Batista, a transformação é já visível. “Alcanena está mais viva, mais cuidada, mais próxima das pessoas. Alcanena está a mexer.”
“Alcanena não é o que se vê, é o que se sente”, afirmou, citando Alfredo Roque Gameiro, para reforçar a visão de um concelho feito de identidade, transformação e compromisso coletivo.
As celebrações do 111º aniversário iniciaram no período da manhã com uma alvorada descentralizada e o habitual içar da bandeira em várias freguesias do concelho. Seguiu-se, às 9h00, o momento solene na Praça 8 de Maio, onde decorreu o içar da bandeira acompanhado por uma guarda de honra dos Bombeiros Municipais de Alcanena e uma homenagem aos fundadores do município. Foi ainda realizada uma cerimónia no Cemitério Municipal, em memória dos autarcas já falecidos.
As comemorações continuam esta noite, 9 de maio, com um concerto do cantor Miguel Araújo, marcado para as 21h30 na Praça 8 de Maio. O espetáculo é de entrada livre.







