Joel Catarino, 16 anos, conseguiu recentemente obter a pontuação necessária para integrar a seleção nacional de ginástica. A conquista vai valer-lhe mais apoios, mais estágios, por forma a poder competir entre os melhores do mundo. O próximo desafio é o Campeonato Europeu de Ginástica. O objetivo final: os Jogos Olímpicos de 2020. Numa modalidade onde é o setor feminino que mais se destaca, a ginástica artística masculina também tem uma palavra a dizer. É necessária força, agilidade, sacrifício e, acima de tudo, resiliência.

À semelhança dos seus colegas, Joel Catarino começou com seis anos na ginástica artística. No início, recorda o treinador Diogo Soares, eram 12 os rapazes que chegaram ao seu treino para integrar a modalidade. Hoje restam apenas três. Num desporto exigente e que possui a sua boa dose de compromisso, não é fácil passar os primeiros 10 anos de formação. Joel Catarino está agora a entrar na fase de competição sénior, sendo por tal a entrada na Seleção Nacional, por poucos pontos do limite, uma grande conquista para o jovem atleta da União Desportiva e Recreativa da Zona Alta (UDRZA)
Natural de Torres Novas, Joel estuda na Escola Secundária do Entroncamento, no curso de técnico de desporto. “Quando era mais novo estava sempre a fazer cambalhotas”, recorda, agilidade que chamou a atenção de uma tia que praticara ginástica. Ainda tentou a natação, mas a modalidade não o cativou. No mundo da ginástica masculina tem encontrado o seu lugar e é com evidente satisfação que treina, ainda que sozinho, no ginásio de Torres Novas.
A entrada na seleção deu-se por 1,5 pontos, a partir de um elemento que já não treinava há algum tempo. “Não estava à espera”, admite, referindo que não concede só à sorte esta oportunidade, mas também ao seu trabalho ao longo dos anos. Agora o objetivo é competir no Campeonato da Europa. No horizonte estão os Jogos Olímpicos, onde todos os ginastas querem chegar. No seu caminho espera-o “muito trabalho, muita dedicação, tentar gerir com a escola”, reconhece.
Quer entrar no ensino superior em Lisboa, em fisioterapia, para poder treinar com os selecionadores nacionais nos clubes lisboetas. Admite que quando começou na modalidade o fez apenas por recreio, mas foi ganhando gosto no desporto. O ponto de viragem foi uma boa crítica de um selecionador, que lhe admirou a dedicação. “Disse que eu tinha jeito e que gostava de pessoas dedicadas. Pensei que poderia ter futuro”, reconhece.

Se a ginástica artística tem fama de ser um desporto de meninas, Joel já leva com sacrifício e esforço suficiente para que certos comentários não o afetem. “Não me influencia, é o que eu gosto de fazer”, salienta. A par da grande exigência em termos de força, concentração e flexibilidade, um bom ginasta tem que ter uma alimentação equilibrada. Doces não fazem parte da ementa.
Olhando para trás, recorda que pensou em desistir quando o treinador Diogo Soares se mudou para Tomar, o que lhe exigia viagens longas para treinar. “Era muito cansativo”, recorda. Mas “os meus pais não me deixaram desistir” e entretanto a situação voltou a reorganizar-se. Agora é na ginástica que aposta o seu futuro.
Uma modalidade onde os pais também entram
Depois do atletismo, a ginástica artística é a modalidade mais vista nos Jogos Olímpicos. A competir estão equipas de todo o mundo, sendo que este é um desporto que é praticado a alto nível em quase todos os 200 países do planeta. Se na vertente masculina há menos concorrência, na feminina a disputa é de tal ordem que só as verdadeiramente extraordinárias conseguem chegar ao pódio. Em termos gerais, este é o cenário da ginástica artística, traçado em algumas ideias chave por Diogo Soares.
O treinador e professor de Educação Física é de Lisboa, tendo chegado a Torres Novas devido à carreira docente. Foi em torno deste que se criou a equipa de ginástica masculina, que conta atualmente com 50 rapazes, com muitas crianças de 2/3 anos (variante de ginástica para bebés, que o próprio criou). Ainda que o tema seja polémico, Diogo Soares explica que a especialização precoce é necessária devido à flexibilidade, que facilmente se perde com o crescimento. “O ideal é iniciar aos seis anos”, refere.
O treinador e também selecionador distrital não poupa elogios às condições existentes em Torres Novas, destacando que na seleção o Joel Catarino é atualmente o único atleta que não vem de Lisboa ou Porto. “A Câmara Municipal fez este investimento e está a retirar os frutos”, salienta, apesar do pavilhão padecer já de alguns problemas de isolamento. Mas se o melhor centro de alto rendimento se encontra em Anadia, Torres Novas não fica atrás de outras estruturas preparadas para a modalidade. A razão, constata, poderá estar no facto do concelho ter alguma tradição na prática de ginástica.

Dos 12 atletas com que começou há 10 anos, restam apenas três, sendo que o Joel é o único que compete a um nível de 1ª divisão. A entrada na seleção coloca o atleta no alto rendimento, com apoios e mais estágios, a nível nacional e internacional. O objetivo é ir ao Campeonato da Europa em Glasgow já em agosto, mas o percurso ainda é longo, admite.
O ginasta masculino tem que dominar seis aparelhos, todos com biomecânicas diferentes, adianta. Entre os homens são os japoneses que mais se destacam a nível internacional. “Isto não tem nada a ver com futebol, é preciso força”, explica o treinador, tentando salientar as diferenças. Joel treina às terças, quintas e sábados, com dois treinos à quinta-feira, um antes das aulas, pela manhã.
“É um miúdo muito trabalhador, muito focado. Sei que está aqui com um objetivo”, salienta o treinador. Mas é mesmo necessário este tipo de compromisso para se obterem resultados num desporto como a ginástica. Os pais, constata o treinador, também têm que fazer parte da equação. São 10 anos de formação para finalmente competir a alto nível. Treinar para alcançar um objetivo e, conforme afirmou Joel Catarino, gostar do que se está a fazer.
