Livro. Foto: DR

A Sertã é um dos 11 concelhos onde o FLII – Palavras de Fogo arranca em simultâneo esta sexta-feira, dia 15, com o objetivo de não deixar esquecer as vítimas dos incêndios florestais de 2017. A primeira edição do festival literário tem mais de 30 autores nacionais e estrangeiros confirmados e 8 passam pela vila até dia 18, como nos confirmou a escritora Ana Filomena Amaral, elemento da equipa coordenadora que quer criar “nova alma” na região afetada. Causa que deve ser vivida “por todos os portugueses” e à qual Marcelo Rebelo de Sousa já se associou.

“Palavras de Fogo”. A escolha do mote para o Festival Literário Internacional do Interior (FLII) revela a força do projeto iniciado pela Cooperativa Artística e Editorial Arte-Via, sediada da Lousã, pouco depois das imagens dos incêndios florestais de outubro do ano passado terem adensado o luto surgido a 17 de junho. Dois dias antes de se cumprir um ano da data em que as chamas começaram em Pedrógão Grande, distrito de Leiria, o FLII arranca em simultâneo em 11 concelhos afetados para apoiar as vítimas.

A causa é “muito maior que nós”, diz-nos a escritora Ana Filomena Amaral, elemento da equipa coordenadora que integra os escritores José Luís Peixoto, Pedro Mexia e Fátima Cabral, a última pertencente aos órgãos sociais da associação sem fins lucrativos fundada em 1999. Tudo começou com a ideia da entrevistada em “fazer qualquer coisa que chamasse a atenção para a região que não fosse tragédia”, à qual se juntou a intenção de potenciar tudo aquilo que estes concelhos têm para oferecer”.

Yao Feng é um dos autores estrangeiros que passam pela Sertã. Foto: DR

Como? Através de um festival com iniciativas ligadas pelos livros, mas enriquecidas com momentos protagonizados por artistas locais e realizados em lugares inusitados. Na Sertã, por exemplo, o público cruza-se com o escritor Yao Feng (China), às 18h00 de domingo, na Praia Fluvial do Troviscal, onde também assiste à atuação do Grupo Instrumental do Centro Cultura e Desporto do Pessoal da Câmara Municipal da Sertã.

Outra estreia é a sessão de poesia com o poeta Miguel-Manso e o Clube de Leitura Oral da Sertã, às 15h00 de segunda-feira, na Fábrica de Confeções Viviana, em Cernache do Bonjardim, com a participação da Filarmónica União Sertaginense. Ainda na última data, às 17h00, sobe-se ao Monte da Senhora da Confiança para um encontro com Natalia Porta López, diretora da Fundação Mempo Giardinelli (Argentina) e o poeta Miguel-Manso. À conversa juntam-se as letras do Clube de Leitura Oral da Sertã e da banda de rock PopXula.

Fora de portas, está igualmente previsto concerto da Orquestra de Sopros da Filarmónica União Sertaginense, às 21h00 de domingo, no Castelo da Sertã e Ana Filomena Amaral destaca que o objetivo do FLII passa por “levar os livros a sair do sítio e irem ao encontro do público”. Confirma-se, mas existem outros momentos em que os livros preferem ficar perto das estantes da Biblioteca Municipal Padre Antunes, como a mini-maratona de leitura que decorre entre as 10h30 e as 14h30 de sexta-feira e as apresentações dos livros de José Luís Peixoto e Joana Lopes.

Os livros de Joana Lopes e José Luís Peixoto são apresentados pelos autores na biblioteca municipal. Fotos: DR

José Luís Peixoto “viaja” com os leitores pelo mundo através do livro “O Caminho Imperfeito”, a partir das 14h30 de dia 15 e Joana Lopes dá a conhecer a obra de literatura infantil “Corações aos Milhões”, ilustrada por Catarina Correia Marques, às 11h00 de dia 16. Os livros voltam a sair à rua às 17h30 de sábado e rumam até ao Cineteatro Tasso do Clube da Sertã para uma tertúlia sobre a afirmação da arte e da cultura “como reanimadores de uma região e de um povo”, segundo Ana Filomena Amaral.

O tema faz pensar sobre a forma como ambas podem ser “trampolins para a regeneração”, acrescenta a escritora, e é transversal aos diversos painéis de oradores da programação global que junta os concelhos de Arganil, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Lousã, Miranda do Corvo, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, Pedrógão Grande, Penela, Sertã e Tábua. Na Sertã, a reflexão começa com as intervenções dos escritores Rafique-um-Munir Chowdhury (Bangladesh) e Miguel-Manso e Pedro Mexia.

O FLII – Palavras de Fogo continua a dar o seu contributo no concelho para apoiar as vítimas dos incêndios florestais durante o domingo com dança em estado puro durante o espetáculo dos alunos da Escola de Ballet da Associação d’Artes Túllio Victorino, às 16h00 na Casa da Cultura da Sertã. Juntam-se os saberes e os sabores locais com a exposição e venda de Produtos da Terra, entre as 10h00 e as 17h00, na Alameda da Carvalha.

A Escola de Ballet da Associação d’Artes Túllio Victorino atua na Casa da Cultura da Sertã. Foto: CM Sertã

Ao longo dos quatro dias, o NUMOAS – Núcleo Museológico e Oficina de Artesanato da Sertã recebe a Feira do Livro e de produtos regionais e a Biblioteca Municipal Padre Manuel Antunes a exposição “Vamos sempre a tempo de aprender”, do Centro Qualifica da Sertã. Literatura, dança, música, hortícolas, gastronomia e artesanato. Tudo ajuda a “não deixar cair a memória” no festival que começou com contactos com autarquias e associações de vítimas.

O trabalho dos voluntários da associação e dos técnicos das bibliotecas municipais ajudou a que ganhasse forma. A dedicação “inexcedível” da equipa é sublinhada por Ana Filomena Amaral e entre os resultados está a obtenção do Alto Patrocínio da Presidência da República.

Marcelo Rebelo de Sousa associou-se à causa da Arte-Via e participa na sessão solene que se realiza na Praia das Rocas, em Castanheira de Pera, no dia 16. A abertura oficial tem lugar na Biblioteca Municipal da Lousã, no dia anterior, e conta com a presença de Silvestre de Almeida Lacerda, responsável pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), uma das muitas entidades nacionais que apoiam esta iniciativa.

* artigo atualizado a 13 de junho de 2018

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

Deixe um comentário

Leave a Reply