Os dados não são precisos e no Memorial digital aos Mortos da Grande Guerra faltará o recenseamento de algumas freguesias. Com o apoio do historiador António Alpalhão, o mediotejo.net conseguiu contabilizar 128 soldados da região do Médio Tejo caídos em combate ou de causa de morte desconhecida, 12 precisamente a 9 de abril de 1918 em França, dia da batalha de La Lys. O município de Ourém, a título de exemplo, dá conta de pelo menos 50 pessoas falecidas na Grande Guerra, quando os dados recenseados neste portal apontam apenas 17 de cinco freguesias.
As condições do Corpo Expedicionário Português (CEP) na Flandres, França, entre 1917 e 1918 são conhecidas: preparação pouco adequada para a guerra moderna, fardamento impróprio, mau calçado, soldados analfabetos e provenientes do meio rural, muitos partiram já doentes, outros depressa ficaram.
Colocados na frente de guerra, nas trincheiras húmidas e enlameadas da Flandres, onde as ratazanas e as larvas eram o maior perigo, foram essencialmente “carne para canhão”, apoiando na reparação da estrutura da defesa quando não estavam a ser bombardeados.
Foi por isso, constata uma reportagem de 2009 da Visão História (edição realizada em parceria com o Museu da Presidência), que a 9 de abril de 1918 o ataque alemão incidiu precisamente naquele ponto da linha de defesa dos Aliados. O CEP era o elo mais fraco.
Historiador que se tem debruçado sobre a I Guerra Mundial na região, António Alpalhão ajudou o mediotejo.net a fazer uma contagem tão real quanto possível do número de mortos. Admite, porém, que faltarão alguns dados ao registo oficial disponível no Memorial digital aos Mortos da Grande Guerra.
Assim, o total do esforço de guerra no atual Médio Tejo resumiu-se oficialmente a 128 mortos em França, Angola, Moçambique e no mar. A guerra em África, de recordar, foi mais mortífera que em França, embora a maioria dos soldados da região pareça ter morrido na Europa.
O CEP enviou para Flandres cerca de 20 mil homens, instruídos em três meses em Tancos. Mas a 9 de abril de 1918, a 2ª divisão do CEP, cerca de 16 mil soldados, estava há mais de oito meses nas trincheiras de Flandres, com o sentimento de que havia sido esquecida pelo país, em crise política, o que acicatou a desordem e as insubordinações.
Muitos dos que haviam saído de licença recusaram-se voltar, enumera a Visão História. A divisão estava desfalcada: faltavam 37% de oficiais e 24% de praças, nas tropas de infantaria a redução abrangia 42% de oficiais e 28,8% de praças, e nas de artilharia menos 34,4% de oficiais e 13,2% de praças.
Cinco dias antes um batalhão português que deveria regressar às trincheiras recusara-se a cumprir a ordem e fora levado para um campo disciplinar. Aquando a batalha de La Lys, os portugueses estavam finalmente a aguardar pela rendição por tropas inglesas.
Os números que ficaram desta batalha, um dos maiores desastres militares da história de Portugal, também não são precisos. Embora os dados iniciais falassem em 1.341 mortos, 4.629 feridos, 1.932 desaparecidos e 7.440 prisioneiros (dados Infopédia), estudos posteriores dão conta da inflação do número de mortos, que se ficaria pelos 400 e cerca de 6 mil feitos prisioneiros pelos alemães. Estes últimos, constata também a Visão História, foram posteriormente marginalizados.
No vale da ribeira de La Lys, em plena Flandres Francesa, num ataque violento das tropas alemãs, já em desespero, que teve início às 04h15 de 9 de abril de 1918 e durou várias horas, morreram 12 homens da região: José António (Ourém), Manuel Gaspar (Torres Novas, Riachos), José Fernando (Tomar, Sabacheira), José António (Tomar, Casais), José da Silva (Tomar, Olalhas), Joaquim Vicente Delgado (Ferreira do Zêzere, Dornes), Manuel Cunha (Ferreira do Zêzere, Paio Mendes), Manuel dos Santos (Ferreira do Zêzere, Pias), José Antunes (Ferreira do Zêzere, Beco), Luís Gil da Silva Freire (Abrantes, Alvega), José Mendes (Sertã, Cernache de Bonjardim) e Manuel Mendes (Sertã, Cernache de Bonjardim).
As duas unidades militares de Abrantes encontravam-se já na retaguarda e o regimento de Infantaria 15 de Tomar encontrava-se em apoio.
Não obstante o desastre militar, a resistência das forças portuguesas, personificada para a posteridade pelo soldado “Milhões”, permitiu estancar a ofensiva até chegar o apoio dos Aliados.
Em França, no geral, morreram mais de 2 mil portugueses, desde que chegaram a 30 de janeiro de 1917 até à partida em 1919. Portugal enviou para a Grande Guerra, refere a página do Memorial digital, cerca de 105 mil homens, 7700 dos quais morreram, a maioria em Angola e Moçambique. O fator principal de morte foi a doença, bem distante do número de mortos em combate.
O impacto da Grande Guerra no Médio Tejo
Para além do centro de instrução dos soldados que partiram para Flandres ter funcionado em Tancos – o “milagre de Tancos”, como ficou conhecido – atual concelho da Barquinha, a ligação do Médio Tejo à guerra encontra-se sobretudo em Ourém. As aparições de Fátima de 1917 tiveram a sua narrativa da época constituída sobre a temática do confronto mundial.
Após o milagre do sol de 13 de outubro, refere a edição de 17 de outubro de 1917 do jornal O Século, pela mão do jornalista Avelino de Almeida, a vidente Lúcia dos Santos anunciou para a multidão na Cova da Iria “com ademanes teatraes, ao colo de um homem, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminára e que os nossos soldados iam regressar…”.
A I Guerra Mundial terminou a 11 de novembro de 1918. O registo do Memorial digital refere que morreram 17 soldados de Ourém, dois de Alcanena, 22 de Torres Novas (na época ainda com o território do Entroncamento, mas sem registo específico), 20 de Tomar, quatro de Constância, cinco da Barquinha, dois do Sardoal, oito de Mação, 19 de Abrantes, 10 de Ferreira do Zêzere, cinco de Vila de Rei e 14 da Sertã.
O município de Ourém, numa solicitação de dados do mediotejo.net, refere terem falecido cerca de 50 soldados do concelho. Esta autarquia possui uma ligação particular ao pós- I Guerra, uma vez que foi da freguesia de Espite que partiram os primeiros emigrantes ilegais para França, para trabalhar na reconstrução, tendo o município sido profundamente marcado pela emigração para este país ao longo do século XX, com efeitos até aos dias de hoje.
António Alpalhão constata que “em termos demográficos, a guerra não afetou sobremaneira” a região. “Registaram-se cerca de 7 mil mortes, de todo o continente, ilhas e territórios ultramarinos, pelo que o seu efeito se diluiu bastante. A isso haverá que juntar os também cerca de 7 mil jovens combatentes que se domiciliaram em França, como emigrantes (pormenor quase sempre esquecido)”.
Ainda para relativizar os números, “bastará lembrar que, no mesmo período, se registaram pandemias várias (tifo, febre tifóide, pneumónica). Só a pneumónica, em 1918/19, terá causado 60 mil mortes”.
Já em termos económicos, sociais e políticos, salienta, “as consequências foram fortíssimas”. “A dívida contraída ao Reino Unido só acabou de ser paga no final dos anos 50. O país sofreu penúria alimentar e racionamentos, sem divisas para proceder a importações. O custo de vida subiu e o poder de compra baixou, sobretudo entre as camadas mais desfavorecidas”, relata.
“Ora, o descontentamento popular acabou por roubar à 1ª República grande parte da sua base social de apoio, o que explicará, alguns anos mais tarde, o 28 de Maio de 1926 e a instauração da ditadura militar”, refere.
Por outro lado, “a população praticamente estagnou, na região, entre os censos de 1911 e de 1920. Assistiu-se até, nalguns concelhos, a um regresso à terra, como foi o caso de Abrantes, em que as freguesias mais rurais cresceram e as mais urbanas diminuíram de habitantes”.
