Um açude similar ao açude Insuflável no rio Tejo, em Abrantes, pode vir a ser replicado a jusante, na zona de Praia do Ribatejo. Foto arquivo:: CMA

O Programa de Avaliação da Transponibilidade do Açude Insuflável de Abrantes à Migração Piscícola já está a avançar, tendo sido informado em reunião de câmara que os investigadores procederam à marcação dos peixes com antenas PIT, para que se proceda ao rastreamento entre fevereiro e maio, para efeitos de realização de censos visuais com contagem à unidade e radiotelemetria.

Segundo a presidente da CM Abrantes, já foi colocado um dispositivo numa amostra de peixes “para percebermos em concreto que tipo de alteração é que eventualmente será necessário fazer na escada passa-peixe, não só para melhorar a sua passagem – se for caso disso – mas essencialmente, aquilo que nós pretendemos é instalar um sistema de monitorização da passagem dos peixes para podermos a todo o tempo criar condições para intervir, se for caso disso”, referiu, exemplificando com situações de “diminuições de caudal, problemas de poluição, como temos vindo infelizmente a assistir”.

Maria do Céu Albuquerque espera ainda que o sistema de monitorização fique instalado no ParqueTejo, e que funcione à semelhança do sistema instalado em Coimbra, sendo “mais um fator de atração e distinção para podermos conhecer as espécies autóctones que constituem o acervo natural do nosso rio”.

Mais informou a autarca que, quanto à manutenção do açude, a CMA tem um plano para instalar um sistema contínuo de monitorização do açude, encontrando-se a autarquia à espera de uma proposta que permita, numa primeira fase, corrigir aquilo que aconteceu depois de o açude ter sido vandalizado e após se verificar um problema numa das comportas insufláveis.

Porém, a empresa japonesa Bridgestone, responsável pela conceção e execução daquele equipamento não trabalha mais nesta área, o que levou a CMA a encontrar outro parceiro que resolvesse a questão. “Estamos neste momento à espera da proposta para fazer a intervenção, recuperando essa comporta que foi vandalizada e que se encontra com problemas, para de seguida avançarmos com um sistema de monitorização e manutenção contínua deste equipamento, tendo por base que já decorreu o prazo de garantia da obra e portanto está a nosso encargo”, justificou a autarca.

No âmbito das Cidades Inteligentes, a autarquia instalou ainda câmaras que “permitem verificar questões como a que se verificou com o ato de vandalismo. Lembro que essas câmaras estão ligadas 24h ao Comando dos Bombeiros Voluntários de Abrantes”, podendo haver um “registo do que se passa no local, mas também poder intervir em tempo útil no caso de se verificar algum tipo de anomalia, sejam decorrentes do funcionamento da infraestrutura, sejam provocadas por atos ilícitos que ali sejam praticados”.

Segundo Maria do Céu Albuquerque a proposta deve chegar entretanto, pelo que o município espera que haja novidades brevemente.

Mas, em que consiste este projeto de investigação?

Carlos Alexandre, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, faz parte da equipa responsável pela avaliação de transponibilidade do açude insuflável de Abrantes, processo que decorre entre 2016 e 2017. Participou no ciclo de conversas Tejo, Logo Existo, na Semana da Cultura Científica, que decorreu entre 21 e 25 de novembro no ParqueTEJO – Centro de Acolhimento e Interpretação do Tejo, em Rossio, Abrantes.

Na altura, o investigador referiu que o caso do açude de Abrantes é idêntico ao do Açude-Ponte de Coimbra, no rio Mondego, e como tal são apontadas como causas da interferência na migração de peixes os obstáculos à conetividade e a regularização do caudal com acumulação de barragens ao longo do rio Tejo.

Carlos Alexandre apresentou projetos que envolvem o estudo da ictiofauna (conjunto dos peixes existentes numa região), com destaque para o que foi executado no rio Mondego, precisamente o Programa de mitigação – Reabilitação da Conectividade Longitudinal no rio Mondego.

Entre 2011 e 2016, tem foi efetuado um programa de monitorização integrada e abrangente na bacia do rio Mondego, com colaboração dos pescadores profissionais (através de inquéritos), amostragem de lampreias e enguias, marcas e antenas PIT, censos visuais com contagem à unidade e radiotelemetria. “A abundância de lampreia aumentou 30 vezes a montante”, referiu o investigador.

O mesmo programa está a ser implementado no Açude de Abrantes, desde setembro de 2016 e que se prevê concluir-se em 2017. Está a ser executado um Programa de Avaliação da Transponibilidade do Açude Insuflável de Abrantes à Migração Piscícola.

Começou em setembro, com amostragem de lampreias e enguias, tendo em vista o estudo da transponibilidade do açude para a lampreia marinha e radiotelemetria da mesma espécie, com tracking quinzenal que ocorrerá de fevereiro a maio.

Na amostragem de lampreia que foi feita no açude, em setembro, a equipa de investigação detetou que “o Tejo está cheio de exóticos”, desde achigã, abletes, perca-sol.

“Relativamente às lampreias, a abundância não foi assim tão vaga e é sobretudo a jusante do açude (…) Os animais que apanhámos a montante, são imediatamente a montante do açude (…) agora só com a radiotelemetria vamos perceber”, assumiu.

Diante do estudo de ictiofauna da Bacia do Tejo, o investigador apresentou dados que permitem criar um perfil global sobre as espécies existentes. De 39 espécies piscícolas, 25 são espécies nativas (65%) e 14 são exóticas (35%).

Carlos Alexandre salientou que 14 espécies têm elevado estatuto de ameaça, caso da lampreia-de-rio, sável, savelha e enguia.

Leia a reportagem completa.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *