O momento mais solene da manhã aconteceu logo na abertura. Na sede da junta de freguesia, o júri, num gesto de profunda amizade e respeito, levantou os copos para um brinde coletivo em memória de Octávio Oliveira, um dos grandes mentores e dinamizador destes encontros, falecido em 2025.
Paulo Mendes, membro do júri, recordou com emoção o homem que esteve na génese do evento: “O doutor Octávio Oliveira era um apaixonado; concorria sempre com vários vinhos, em seu nome e da família. Quisemos perpetuar a sua presença aqui, porque ele faz parte desta história.”

O grande vencedor da edição deste ano foi José Antunes, cuja história é o retrato vivo do amor ao ofício. Aos 73 anos, Antunes herdou do pai – que fazia “80 almudes de vinho” – a paixão que o leva à adega duas ou três vezes por dia durante a fermentação.
“É uma paixão que tenho entranhada. Não sou alcoólico, sou alguém que gosta de fazer, apreciar, e de repartir o vinho”, confessou o produtor, que no ano passado não concorreu por falta de uva, mas que este ano investiu na qualidade para apresentar um tinto “ao natural”.




“O segredo é deixá-lo ferver sozinho, sem misturas nem aguardentes. É o grau da uva e a sua qualidade que fazem o produto”, explicou José Antunes, que dedicou o prémio aos amigos do Tramagal que o ajudam na prova e na distribuição, com a humildade de quem sabe que o saber é partilhado: “O diploma não fui eu que o ganhei, foram as pessoas que mo entregaram. Enquanto puder, cá estaremos.”

Numa edição marcada pelo equilíbrio qualitativo, o primeiro lugar foi conquistado por José Antunes (amostra n.º 10), seguido de perto por António Pedro Moreira (amostra n.º 7) no segundo posto, e Nuno Leitão (amostra n.º 1) a fechar o pódio.
O rigor da prova cega, conduzida pelo júri presidido por Nuno Falcão Rodrigues – e composto ainda por Fernando Agostinho, José Casimiro, Nuno Leitão e Paulo Mendes -, levou ainda à atribuição de 10 menções honrosas, reconhecendo o trabalho de António Ferreira, Edmundo Ventura, Ezequiel Cardoso, Fernando Catarino, José Casimiro, José Esperto, José Rafael, Nuno Granja, Octávio Ricardo e Ricardo Lemos.




Apesar de um ligeiro decréscimo no número de participantes devido à seca rigorosa do ano passado, que dificultou a produção, a qualidade dos 13 vinhos tintos a concurso surpreendeu o júri pela sua regularidade.
Paulo Mendes destacou que este foi o ano com a avaliação mais equilibrada: “Foi preciso um desempate final porque houve dois produtores com a mesma pontuação máxima. Nota-se, ano após ano, uma melhoria clara nos vinhos destes produtores locais”, destacou.
António José Carvalho, presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, reiterou que o verdadeiro prémio é a atitude de quem não deixa morrer a tradição.
“O vinho também é cultura. Temos referências a vinhas de qualidade no Tramagal com mais de 700 anos. Manter este culto é passar o saber às novas gerações”, afirmou o autarca, visivelmente satisfeito com o espírito de solidariedade dos produtores, que ofereceram os seus vinhos para o convívio gastronómico organizado pela associação de pais, em momento que decorreu no mercado da vila, palco da entrega dos prémios aos produtores participantes.

Para o presidente da Junta, o trabalho da vinha, desde a poda à colheita, é um ato de entrega que merece ser celebrado.
O evento, que começou de forma quase informal em casas particulares e passou pelo centenário do TSU antes de se fixar no Mercado com o apoio da autarquia, consolidou-se como um pilar da freguesia.
No final da manhã, entre o cheiro das sopas e o tilintar dos copos, o Tramagal provou que, mais do que premiar o melhor tinto, o que ali se celebra é a continuidade de uma linhagem de homens e mulheres que, tal como José Antunes, veem na adega um lugar de culto e na partilha de um copo de vinho a forma mais pura de amizade. O brinde fez-se à tradição, ao convívio, à amizade e à memória de Octávio Oliveira.

Boa iniciativa devia ser mais divulgada com mais antecedencia