Foto arquivo: mediotejo.net

Na manhã de sexta-feira, dia 2 de agosto, cerca de 40 pessoas partiram à descoberta dos vestígios romanos que se escondem por entre as ruínas de Villa Cardílio, no concelho de Torres Novas, numa visita guiada organizada pela Câmara Municipal de Torres Novas a um dos 28 sítios onde foram encontrados artefactos e marcas da ocupação romana nesta região.

As ruínas romanas de Villa Cardílio são hoje um dos maiores exemplos da presença romana no território do Médio Tejo. Situado no concelho de Torres Novas, o local classificado como Monumento Nacional em janeiro de 1967 esconde vestígios que os trabalhos arqueológicos vieram revelar e que permitem documentar este período da história.

Situadas a cerca de cinco quilómetros de Torres Novas, as ruínas foram postas a descoberto pelas escavações a cargo do coronel Afonso do Paço, a partir de 1963, começou por explicou Victor Filipe, investigador da UNIARQ e arqueólogo responsável pelo projeto que decorre nas ruínas de Villa Cardílio.

De acordo com o responsável, que guiou os participantes pelo espaço arqueológico, as escavações realizadas por Afonso do Paço permitiram trazer a público um conjunto de alicerces, bases de colunas e pavimentos ornamentados com diversos padrões de “tesselas” pertencentes a uma antiga quinta romana composta por três elementos principais: entrada, peristilo e exedra.

Do espólio recolhido aquando das escavações destacam-se moedas dos séculos II a IV d. C., cerâmicas, bronzes, ferros e uma estátua de Eros em mármore de Carrara.

“Vamos ver as ruínas que estão expostas (…) e que correspondem à casa do proprietário de uma grande quinta que existia aqui, na época romana. Vamos também ter a possibilidade de visitar o último dia de escavações e ver os trabalhos que estão a ser executados no novo projeto de escavação”, começou por explicar o arqueólogo.

As escavações que se encontravam a decorrer, no momento da visita, “não se direcionam tanto para o estudo da casa do proprietário (…), mas mais para a parte produtiva da villa, onde estariam instalados os fornos, as adegas, os lagares, etc”, acrescenta Victor Filipe.

Durante a visita às ruínas de Villa Cardílio, os participantes tiveram a oportunidade de ficar a conhecer um dos exemplos que resiste, até aos dias de hoje, de uma villa do período romano e que foi descrita, pelo arqueólogo, como um “núcleo habitacional rural” que povoava a “paisagem rural na Lusitânia e não só”.

Estes núcleos eram, habitualmente, constituídos por três partes, nomeadamente a pars urbana, onde residia o proprietário da villa; a pars rustica, onde residiam os trabalhadores e escravos da villa, e ainda a pars fructuaria, que correspondia à parte produtiva, onde se situavam adegas, lagares, estábulos, etc.

Victor Filipe, arqueólogo e investigador da UNIARQ. Foto: mediotejo.net

A investigação realizada no espaço romano recua à década de 30, com a descoberta de um mosaico, embora em “meados do século XVIII haja uma notícia sobre um sítio que chamavam, na altura, as Ferrarias, onde existiam vários fragmentos de cerâmica à superfície, mas que poderá ser Cardílio ou nas Ferrarias, aqui ao lado”, afirma Victor Filipe.

“Tudo isto eram campos agrícolas, divididos em vários talhões. Por volta de 1936, é descoberto o primeiro mosaico e aí, o município de Torres Novas tomou a iniciativa de chamar o diretor do Museu Nacional de Arqueologia, que veio ao sítio e agendou escavações para o ano seguinte”.

No entanto, as escavações nunca chegaram a acontecer, tendo o local voltado à sua “função inicial”, no setor agrícola. “Pior do que isso, serviu como pedreira. Os proprietários vendiam ou ofereciam pedra para a construção de casas. Essa pedra provinha precisamente do desmonte das estruturas que se encontravam, na altura, bastante melhor preservadas, com toda a certeza”, explicou.

Décadas depois, nos anos 60, os trabalhos foram retomados, por iniciativa do município, que “convidou o arqueólogo Afonso do Paço”, tendo sido realizadas as primeiras escavações.

“Na altura tinha metodologias bastante distintas das que utilizamos hoje, com muita mão de obra não especializada. Escavou a maior parte da casa do proprietário e colocou à vista quase tudo do que se pode observar”.

Estavam dados os primeiros passos na descoberta dos vestígios que viriam a documentar a presença romana no concelho de Torres Novas. “Só em 1980 se retomaram novas escavações, já com outra equipa, a convite da autarquia”.

António Monteiro viria para Villa Cardílio, onde foi o responsável por realizar escavações com “metodologias mais modernas e precisas. Fez inclusivamente alguns trabalhos que eram pouco utilizados em Portugal”, explica Victor Filipe.

Excetuando-se alguns “trabalhos pontuais”, a Villa Cardílio só voltou a ser escavada em 2021, no âmbito do projeto que ainda se encontra a decorrer, da Câmara Municipal de Torres Novas e da UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, para a valorização do local.

Elvira Sequeira, vereadora na Câmara de Torres Novas, com o pelouro da rede museológica, cultura e património cultural, acompanhou a visita ao monumento, património do Estado, mas que é gerido pela autarquia torrejana.

“Sendo nossa gestão (…) achámos que tínhamos de fazer algo mais por aquilo que estava presente”. Nesse sentido, afirmou que era necessário voltar a colocar a valorização e a conservação do espaço na lista de prioridades, o que foi feito com através do trabalho desenvolvido em parceria com a UNIARQ.

“Para nós também é muito interessante e prioritário ver se este património, como outros do município, continuam a ser valorizados, para conseguir também que os visitantes tenham noção daquilo que estamos a fazer e daquilo que temos em Torres Novas”, afirma a vereadora.

Elvira Sequeira, vereadora na CMTN. Foto: mediotejo.net

Em termos arqueológicos, Elvira Sequeira destacou uma “presença forte” e um trabalho intenso que tem vindo a ser realizado “para contar a história”.

“Contamos a história em Torres Novas, uma história que é mundial e que aqui se conta, com referências de todos os momentos da presença humana neste território. As ruínas de Cardílio são também esse marco histórico que queremos preservar e valorizar”.

Para o futuro, a vereadora sublinhou a vontade de “continuar a contar a história, de uma outra forma” para os visitantes, através da abertura de um “espaço de interpretação” e que permitirá uma ligação “com outros sítios romanos”.

“Nós fazemos parte do conjunto de municípios que têm o Portugal Romano. Vamos fazer uma musealização diferente neste espaço, para que o visitante possa ter noção concreta do que temos aqui”, concluiu.

Recorde-se que em maio de 2022, a Câmara de Torres Novas adjudicou a empreitada para a valorização das ruínas romanas de Villa Cardílio, pelo valor de 217.437 euros.

As obras de conservação do sítio resultaram de um acordo celebrado entre a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) e o município torrejano, tendo sido implementado, na envolvente das ruínas, um caminho principal, em redor, e de dois caminhos secundários que permitem aos visitantes percorrer o local, a partir do evoluir das escavações, e fazer a ligação ao extremo poente do sítio arqueológico.

A intervenção incluiu, ainda, a colocação de seis bancos em madeira ao longo do percurso, “com vista privilegiada sobre as ruínas”, e, no extremo sul, a selagem da área com areia e posterior modelação do terreno, “de modo a salvaguardar o local e promover a integração da zona na paisagem envolvente”.

As ruínas romanas de Villa Cardílio situam-se na Estrada Municipal de Santo António da Caveira, em Torres Novas, e podem ser visitadas no horário de terça a domingo entre as 10h00 e as 13h00 e entre as 14h00 e as 18h00, até ao mês de setembro. No Inverno (outubro a março) o horário é de terça a domingo 09h00-13h00 e 14h00-17h00. As entradas são gratuitas.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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