Desde meados do século XIX que as cheias do Tejo entraram na memória coletiva das populações ribeirinhas, deixando marcas visíveis no território e na vida das comunidades. Antes da construção das grandes barragens, quando o rio corria sem regulação, as inundações eram mais frequentes e envolviam valores de água que hoje soam extraordinários.
Entre 18 e 20 de fevereiro de 1855, um episódio de cheia inundou completamente o Rossio ao Sul do Tejo, chegando a 22,5 metros na escala de Ródão e cerca de 16 metros em Abrantes, destruindo casas e estruturas e causando perdas agrícolas consideráveis.
Em dezembro de 1876, a maior cheia de que há registo na região atingiu 25,4 metros na escala de Ródão e 16,27 metros em Abrantes, submergindo habitações, matando animais e impondo uma resposta comunitária imediata, incluindo comissões de socorro e beneficência para apoio às vítimas.
O século XX e a maior cheia após a regulação
Com a construção de barragens e o desenvolvimento de sistemas de monitorização ao longo do século XX, a dinâmica de cheias começou a ser medida com maior rigor, e o impacto das descargas passou a ser mais conhecido e estudado.
Apesar de vários episódios significativos ao longo do século passado – como as cheias de 1900, 1940 e 1989 – foi em fevereiro de 1979 que ocorreu o maior evento de cheia do século XX.
Segundo relatos históricos e levantamentos locais, a água chegou a aproximar‑se dos 16 metros no Rossio ao Sul do Tejo, levando cerca de 6.000 pessoas a tornarem‑se desalojadas no concelho de Abrantes e provocando extensas inundações em localidades como Rio de Moinhos e Alvega.

Os efeitos foram sentidos por vários dias e exigiram uma resposta de socorro abrangente, com mobilização de forças públicas e presença de altos dignitários do Estado na região.
A literatura científica indica que esta cheia foi, no século XX, uma das mais intensas de que há registo em termos de área inundada e número de pessoas afetadas, com milhares de desalojados e interrupções significativas de comunicações e abastecimento de água.
Cheias no Tejo: os dez maiores registos dos séculos XX e XXI
As maiores cheias registadas no rio Tejo nos séculos XX e XXI ocorreram sobretudo entre o final da década de 1970 e o início da de 1990, mantendo-se episódios significativos já no século XXI. A maior cheia histórica conhecida terá ocorrido em 1876, num período anterior à construção e gestão coordenada das barragens, não existindo, contudo, registos hidrométricos comparáveis aos atuais.
De acordo com os dados disponíveis, o topo da lista pertence à cheia de 1978/79, que atingiu 15,45 metros e um caudal de 13.853,07 m³/s, com pico a 11 de fevereiro de 1979. Segue-se a cheia de 1977/78, com 14,55 metros e 10.521,00 m³/s, registada a 3 de março de 1978. Em terceiro lugar surge o episódio de 1989/90, com 14,19 metros e 10.062,64 m³/s, cujo máximo foi alcançado a 26 de dezembro de 1989.
A cheia de 2012/13 ocupa a quarta posição, com 14,75 metros e 9.873,87 m³/s, atingindo o pico a 2 de abril de 2013. Já no inverno de 2025/26, o Tejo registou 11,62 metros e 9.057,12 m³/s, com o valor máximo observado a 6 de fevereiro de 2026, posicionando-se entre os cinco maiores episódios dos dois últimos séculos.
Seguem-se as cheias de 1995/96, com 12,06 metros e 7.073,37 m³/s (9 de janeiro de 1996), e de 2000/01, com 11,56 metros e 6.017,27 m³/s (28 de janeiro de 2001). A cheia de 1976/77 atingiu 11,53 metros e 5.586,00 m³/s, com pico a 24 de fevereiro de 1977, enquanto a de 2006/07 chegou aos 11,35 metros e 5.469,68 m³/s, a 25 de novembro de 2006. Fecha o “top 10” o episódio de 1997/98, com 10,34 metros e 4.996,44 m³/s, registado a 22 de dezembro de 1997.
2026: o segundo maior pico do século XXI
Com dados de monitorização automáticos e uma rede hidrométrica mais desenvolvida, a cheia de 2026 foi medida com precisão no ponto de referência de Almourol, onde o caudal chegou aos 9.057 m³/s, o segundo maior valor registado naquele local no século XXI. Este valor só foi ultrapassado em abril de 2013, quando foram registados em Almourol 9.873,87 m³/s.
Este episódio inscreve‑se entre os mais marcantes das últimas décadas, mesmo que o contexto de regulação e gestão de barragens atual atenue de certa forma os picos máximos de caudal em comparação com o passado.
A memória das margens e a experiência das comunidades
Relatos e memórias de moradores confirmam que as cheias sempre foram mais que números ou gráficos – são experiências que moldam territórios e vidas.
Moradores do Rossio ao Sul do Tejo recordam que, em 1979, a água chegou a atravessar ruas e a inundar habitações até ao primeiro andar, levando à evacuação de lares e à fuga de pessoas para locais mais altos da vila, com medo do desbordar do rio.
Em Rio de Moinhos, associações locais já celebraram exposições com fotografias e relatos desse evento, evocando a memória de quando “o Tejo galgou as suas margens” e inundou a aldeia durante cerca de uma semana.
Por que estas cheias permanecem na história
As cheias centenárias de 1876, 1979, 2013 e 2026 marcam não apenas valores extremos de água, mas também momentos em que o comportamento do Tejo confrontou limitações humanas e infraestrutura, deixando marcas no território, na economia e nas memórias das populações ribeirinhas.
A análise histórica mostra que a combinação de fenómenos meteorológicos intensos, configuração geográfica da bacia e intervenção humana no rio tem moldado eventos de cheia com impactos muito distintos ao longo do tempo – desde as inundações antes das barragens até à monitorização precisa dos nossos dias.
O valor contemporâneo do passado
Compreender a história das cheias é hoje mais do que um exercício de memória – é uma ferramenta para a gestão do risco, planeamento urbano e definição de políticas de adaptação.
Os episódios de 1876 e 1979, mesmo com metodologias e dados diferentes, oferecem parâmetros de comparação que ajudam a interpretar a magnitude dos eventos atuais, como as cheias de 2013 e a de 2026, e a planear respostas mais eficazes para o futuro.
