Susana Carrolo volta a inovar e a receber um prémio nacional para a sua marca Brejo da Gaia. Foto: BG

A Queijaria Brejo da Gaia, do Tramagal, concelho de Abrantes, venceu o primeiro prémio nacional da categoria Novo Ciclo da 10.ª edição do Prémio Intermarché Produção Nacional, com a Capra Power, uma bebida proteica criada a partir do soro de leite de cabra.

A distinção, atribuída na Feira Nacional de Agricultura, em Santarém, reconheceu o projeto de aproveitamento de um subproduto resultante do fabrico de queijo e representa também um apoio financeiro à concretização de investimentos da queijaria.

A produtora Susana Carrolo, engenheira zootécnica, manteve, contudo, alguma reserva sobre a nova bebida enquanto esta não estava protegida. Agora, com o produto patenteado, decidiu falar mais abertamente sobre um projeto que começou por responder a um problema concreto da própria atividade: o destino a dar ao soro.

“Há aqui um problema nas queijarias, que é o soro”, explica Susana Carrolo, que começou a trabalhar na ideia no início de abril e passou cerca de três meses entre pesquisa e experiências até chegar à formulação atual.

Transformar um excedente numa nova receita

Segundo a produtora, cerca de 80% do leite utilizado numa queijaria transforma-se em soro, tornando a sua gestão particularmente relevante para pequenas unidades que não dispõem de meios para suportar os custos associados à recolha e tratamento.

O soro não pode ser simplesmente encaminhado para os esgotos ou lançado diretamente nos solos, sendo necessário assegurar o seu tratamento ou encontrar soluções para a sua valorização.

Para pequenas queijarias, o investimento uma ETAR ou a recolha por empresas especializadas pode representar um custo difícil de suportar, explica Susana.

Foi neste contexto que surgiu a Capra Power. “Se uma queijaria aproveitar o soro para fazer uma bebida, é mais uma receita que vem e é menos um gasto que têm para a recolha do soro ou para o tratamento”, resume.

A ideia não nasceu diretamente de um concurso, mas do conhecimento da própria produtora sobre a composição do soro e do potencial que identificou para criar uma bebida rica em proteína.

Susana começou a estudar os seus constituintes e a testar formulações, procurando desenvolver um produto natural.

A fórmula inclui soro de leite de cabra, alfarroba, cacau puro, stevia e colagénio. O resultado é uma bebida de consistência semelhante à de um iogurte líquido e com sabor adocicado, conseguido através da utilização de stevia e alfarroba.

A intenção foi desde o início evitar conservantes e outros ingredientes que descaracterizassem o produto. Para chegar à formulação atual, Susana teve de experimentar diferentes técnicas de fabrico até conseguir que os ingredientes se mantivessem misturados e a bebida apresentasse uma textura homogénea.

Produto pronto, mercado por conquistar

A Capra Power está concluída, mas ainda não entrou no circuito comercial. A produtora está a estudar a possibilidade de prolongar a validade, atualmente de cerca de um mês, mantendo as características de uma bebida natural que não é ultrapasteurizada e não contém conservantes.

Queijaria Brejo da Gaia vence primeiro prémio nacional com bebida feita de soro de leite de cabra. Fotos: BG

Susana Carrolo admite que o produto possa vir a ser comercializado através da rede Intermarché, mas sublinha que não existe um acordo de exclusividade e que está aberta a outros clientes e parceiros.

A produtora já recebeu manifestações de interesse e admite inclusivamente produzir pequenas quantidades para quem queira experimentar a bebida. A Capra Power é um produto fresco que pode ser produzido semanalmente, aproveitando o soro resultante da produção de queijo.

A patente representa, por isso, um passo importante antes de avançar para uma divulgação mais ampla. Susana explica que tinha receio de falar demasiado sobre o produto enquanto este não estava protegido, nomeadamente pelo risco de perder a proteção do nome e da ideia.

Prémio aplicado na própria queijaria

A vitória no Prémio Intermarché aconteceu depois de a Brejo da Gaia ter sido selecionada entre os finalistas da categoria Novo Ciclo. A empresa chegou ainda à final noutra categoria, com um leite de cabra com cacau e stevia, embora sem vencer.

O prémio incluiu um apoio de 25 mil euros, valor que Susana pretende aplicar num investimento concreto na exploração e na queijaria: a instalação de um motor numa segunda câmara de cura.

A nova câmara, mais pequena, permitirá reduzir o consumo energético associado à cura dos queijos. Numa fase posterior, a produtora pretende ainda recorrer a painéis solares para poder colocar a câmara de maior dimensão em funcionamento e aumentar a capacidade de transformação do leite produzido na exploração.

Um projeto construído durante mais de duas décadas

A Capra Power é o mais recente capítulo de um projeto iniciado por Susana e Pedro Carrolo há cerca de 22 anos, quando os dois irmãos, ambos com formação em Zootecnia, decidiram dedicar-se à produção de leite de cabra, sem terem herdado uma exploração ou tradição familiar ligada à atividade.

Em 2019, o mediotejo.locais.net/ acompanhou o percurso dos irmãos na Quinta da Beata, no Tramagal, então com cerca de 600 animais e uma produção diária que rondava os 600 litros de leite. O projeto tinha começado muitos anos antes com apenas 120 cabras e com ordenhas feitas manualmente pelos dois irmãos.

A queijaria Brejo da Gaia nasceu posteriormente, em 2012, permitindo aos irmãos transformar parte do leite produzido na própria exploração. A aposta sempre passou pela produção artesanal e pela diferenciação dos queijos, num percurso marcado por sucessivos prémios nacionais e internacionais.

Em 2016, um queijo de cabra curado com pimentão e piripiri conquistou uma medalha de prata no Concurso Nacional de Queijos Tradicionais Portugueses. Na altura, Susana Carrolo sublinhava que os produtos eram feitos exclusivamente com leite de cabra da própria exploração e através de processos artesanais.

Dois anos depois, a Brejo da Gaia voltou a vencer o Prémio Intermarché, então na categoria Inovação, com um queijo de kefir de leite de cabra. A distinção agora conquistada no Novo Ciclo mantém, assim, uma ligação de vários anos entre a queijaria do Tramagal e o concurso.

Mais recentemente, em 2024, os queijos Brejo da Gaia conquistaram sete medalhas no World Cheese Awards, incluindo uma medalha de ouro para o queijo de cabra curado, produzido com leite de cabra da própria exploração.

A aposta em novos produtos continuou em 2025, quando Susana Carrolo venceu a categoria Degustação do Prémio Food Fab Lab com um leite de cabra com cacau e stevia. Na ocasião, destacou ao mediotejo.locais.net/ a importância de criar novas formas de valorizar o leite produzido na própria exploração.

“Primeiro que tudo sou cabreira”

Apesar do reconhecimento alcançado pela queijaria, Susana Carrolo continua a colocar a produção de leite e a criação de cabras no centro do projeto.

A exploração conta atualmente com cerca de 600 cabras Murciano-Granadinas em produção, além dos 200 animais em recria, e a produtora diz querer aproveitar a visibilidade conquistada para chamar também a atenção para a caprinicultura, atividade que considera pouco valorizada em Portugal.

“Primeiro que tudo sou cabreira”, afirma Susana, para quem a queijaria surge como uma forma de valorizar a matéria-prima produzida na própria exploração.

A nova bebida segue essa mesma lógica: aproveitar melhor o que já existe, reduzir desperdícios e criar valor a partir de uma matéria-prima que, neste caso, resulta diretamente da produção de queijo.

Exploração de cabras murciana-granadina na Quinta da Beata em Tramagal, onde nasceu o queijo Brejo da Gaia

Depois do reconhecimento nacional e da patente, o desafio passa agora por fazer a Capra Power chegar aos consumidores e provar que uma solução encontrada para um problema das pequenas queijarias pode transformar-se num produto com futuro.

“Eu queria que este produto vingasse”, admite Susana Carrolo, determinada a acrescentar valor ao leite produzido na exploração e a dar uma nova vida ao soro que resulta do fabrico dos seus queijos.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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