Unidos pelo mote “hoje por eles, amanhã por nós”, a vila de Tramagal mobiliza-se para apoiar os afetados pela depressão Kristin. Entre o envio de equipas especializadas para o terreno e uma recolha massiva de bens, a comunidade reafirma os laços da fraternidade.
“Hoje eles, amanhã nós”, é mote de um movimento solidário que nasceu da vontade genuína de cidadãos que, através das redes sociais, decidiram não ficar indiferentes ao sofrimento dos seus conterrâneos na diáspora.
Elsa Ervideira, uma das voluntárias que integra e dinamiza a iniciativa, explica a motivação: “Isto foi uma iniciativa que partiu do nada. É aquela forma de nós dizermos: hoje eles, amanhã nós. Eu gostaria que me fizessem a mim o mesmo que hoje possamos fazer por eles.”
Segundo a voluntária, a situação é dramática: “Aquilo é um caos, é um cenário de guerra sem bombas. As pessoas precisam de tudo e o pouco é muito para quem não tem nada.”
Para Elsa Ervideira e para os muitos voluntários envolvidos, esta missão vai além da ajuda material; é um imperativo moral. “O pouco é muito para quem não tem nada”, recorda a voluntária, sublinhando que, embora o foco inicial fosse a comunidade tramagalense na diáspora, o braço está estendido a todos os marinhenses.




ÁUDIO | ELSA ERVIDEIRA, GRUPO DE APOIO DE TRAMAGAL À MARINHA GRANDE:
A primeira grande frente de ação acontece já esta segunda-feira, com uma recolha intensiva de bens na sede da Junta de Freguesia de Tramagal – que se associou prontamente à causa cedendo o espaço e logística.
As entregas podem ser feitas entre as 09h00 e as 12h30 e das 14h00 às 19h00, com a garantia de que os voluntários estarão presentes até mais tarde e também na terça-feira, se necessário, para acolher quem trabalha e também quer ajudar.
Quanto aos bens mais prementes, o grupo apela à doação de águas engarrafadas, dada a falta de água canalizada, e alimentos diversos como enlatados, comida para bebé, papas e sumos de fruta. No vestuário, a prioridade são roupas quentes de homem, senhora e criança, além de cobertores e edredons.
Pede-se ainda material de proteção e reconstrução, como lonas e telhas, fundamentais para quem viu os telhados destruídos pela fúria do vento.
A motivação deste grupo de voluntários tem um rosto familiar: a comunidade tramagalense na Marinha Grande, composta por mais de uma centena de pessoas entre emigrantes de primeira, segunda e terceira geração, mas também com apoio extensível a outras pessoas necessitadas ali de ajuda.
O feedback chega em tempo real através de Celeste Baião, conterrânea que trabalha na autarquia local, que relatou um cenário de catástrofe e publicou um agradecimento às gentes da sua terra natal pelo apoio e iniciativa deste sábado, que levou vários tramagalenses à Marinha Grande para ajudar a cortar árvores, desimpedir vias obstruídas, reparação de telhados e operações de limpeza.
“O nosso agradecimento ao presidente da Junta de Freguesia de Tramagal e aos seus colaboradores que vieram ajudar na limpeza da Marinha Grande. Um bem haja a todos. Hoje por nós amanhã por outros”, escreveu, reconhecida.
A gravidade é tal que, noutras zonas fustigadas como Pousos, as senhas para levantamento de lonas de proteção chegaram a ultrapassar o número três mil, indicou Elsa Ervideira.

A tempestade Kristin não trouxe apenas danos materiais; trouxe luto e desespero. Com mortes registadas na região devido a quedas de telhados, quedas de árvores e intoxicações, o encerramento de escolas e os cortes de energia e comunicações isolaram famílias.
Perante este rasto de destruição, a Junta de Freguesia de Tramagal solidarizou-se com o movimento civil e enviou no domingo funcionários especializados, máquinas e motosserras, acompanhados pelo Presidente da Junta e vários populares, para ajudar nas limpezas e reparações mais urgentes de habitações.
O apelo de Elsa Ervideira é final e direto ao coração da vila: “Quem quiser ajudar e contribuir com algo, é bem-vindo”. Numa altura em que o estado de calamidade foi prolongado, Tramagal mostra que os laços de sangue e de terra são mais fortes do que qualquer tormenta.
Para esclarecimentos e/ou informações sobre a iniciativa pode contactar a organização através do telemóvel: 926181124.
A União de Freguesias de Abrantes (S. Vicente e S. João) e Alferrarede também se juntou a este esforço coletivo, mobilizando os seus serviços para apoiar as populações do distrito de Leiria. A autarquia abrantina tem estado a colaborar na identificação e encaminhamento de bens, reforçando a cooperação com as zonas mais fustigadas pela Kristin.
Este auxílio soma-se a outras iniciativas regionais, como a da Câmara Municipal do Entroncamento, que ativou o pavilhão da antiga Escola das Tílias como centro logístico de emergência. Ali, a prioridade tem sido a concentração de equipamentos pesados e geradores, fundamentais para restabelecer a normalidade nos concelhos vizinhos onde a energia e as comunicações continuam precárias.
Estas ações, que se multiplicam um pouco por todo o país, demonstram como a proximidade geográfica se converte em socorro eficaz. Instituições como a Cáritas e grupos civis locais estão a unir recursos para mitigar os danos de uma intempérie que deixou um rasto de destruição por todo os distritos de Leiria, a par de Santarém, Coimbra, Castelo Branco e Portalegre, entre outros, provando que, perante a catástrofe, a rede de solidariedade não conhece fronteiras administrativas.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, causou pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho. No sábado, outros dois homens morreram ao caírem de um telhado que estavam a reparar, um no concelho da Batalha e outro em Alcobaça. Na madrugada de domingo, um homem morreu no concelho de Leiria por intoxicação com monóxido de carbono com origem num gerador.
Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
O Governo prolongou hoje situação de calamidade, que vigorava desde as 00:00 de quarta-feira, até dia 08 de fevereiro.
