A população de três aldeias de Torres Novas marcou presença na reunião de executivo da Câmara de Torres Novas para contestar o corte com postes e correntes de alguns caminhos em torno da Quinta do Marquês, reivindicando a passagem por “caminhos públicos milenares”, situação que já havia sido denunciada pelos habitantes.
Margarida Manteiga, residente no lugar de Casais Sebes, interviu na sessão tendo recordado que os novos proprietários da quinta “bloquearam com correntes os acessos aos dois caminhos públicos, a estrada romana e a estrada que passa por dentro da quinta, impedindo até ao dia de hoje a livre circulação de pessoas e veículos”.
Os habitantes contestam o corte dos caminhos “utilizados há séculos e de forma livre, sem barreiras, que são públicos e de serventia às propriedades circundantes”.
“Apesar disso, ao longos dos tempos registaram-se várias tentativas para retirarem esses direitos de passagem que encontraram sempre oposição das populações”, acrescenta.

“Chegámos aos dias de hoje e novamente vemos esse direito de passagem ameaçado. Se no passado esses caminhos eram a forma mais rápida para chegar a Torres Novas, para o trabalho ou para estudar, agora representam um acesso a um estilo de vida saudável, à liberdade de caminhar, desfrutar da natureza e de uma alternativa à estrada de alcatrão”.
A habitante de Casais de Sebes informou que a aldeia se encontra “verdadeiramente enclausurada no meio do campo”. “O lugar está quase cercado por um olival vedado e a sua única estrada de acesso é estreita, sem passeios e perigosa para quem quiser caminhar”.
“Ficámos alarmados com o facto de que, em caso de um incêndio ou outro tipo de emergência, só tenhamos uma saída alcatroada e outra em terra batida que só é acessível por veículos de todo o terreno. É com ironia que constatamos que um morador no centro da cidade de Torres Novas tenha mais mobilidade e liberdade de movimentos do que aqueles que vivem no meio do campo”, sublinha Margarida Manteiga.

Quanto ao projeto anunciado para a Quinta do Marquês, que irá ser transformada num hotel, a habitante esclarece que a população “nada tem contra e recebe-o de bom grado”.
“Ninguém mais estima aquele lugar e o quer ver valorizado e a recuperar para o desenvolvimento do concelho do que nós”. No entanto, citando o projeto que “promete aos hóspedes a possibilidade de fazerem caminhos e trilhos para explorar e desfrutarem do meio circundante”, Margarida Manteiga afirma ser uma ironia, uma vez que “esses caminhos estão a ser retirados ao usufruto de todos para passar a ser uso exclusivo daqueles que podem pagar a estadia num hotel de 5 estrelas”.
O autarca torrejano, Pedro Ferreira (PS), informou ter reunido com os projetista e um casal que não será o proprietário, mas que “são responsáveis ou terão alguma parte associativa ligada ao projeto”.
“Em relação as caminhos, que foi a questão que nós metemos logo em primeiro lugar, eles disseram que na escritura que tinham realizado, não constavam caminhos nenhuns. (…) Nós voltámos sempre a falar na questão dos caminhos, dizendo que há aldeias limítrofes com ligações à quinta”, acrescentou.

“O que eu transmiti é que a Câmara ia aprofundar, em termos da legalidade dos caminhos, sem por em causa a questão da importância para o concelho de poder acontecer um hotel cinco estrelas numa quinta que todos, certamente, gostaremos de ver reabilitada e não degradada”.
De acordo com Pedro Ferreira, as “limitações impostas pelos proprietárias” terão de ser esclarecidas de “forma razoável” e, em última análise, recorrendo “à figura jurídica”.
“O serviço de património foi à conservatória, consultou que nas escrituras realmente não consta nenhum caminho público. Mas no cadastro de propriedade, constam caminhos públicos dentro da Quinta do Marquês (…). São dois caminhos que estão com as correntes”, notou.

Quando o trabalho jurídico e técnico da divisão do património estiver resolvido, Pedro Ferreira afirma procurar realizar nova reunião com os proprietários “para procurar a melhor solução e para ouvir da parte deles se vão continuar a teimar em ter as correntes onde puseram”.
“Neste momento está neste pé e, como digo, numa fase final que se calhar ninguém quereria ir por esse caminho, há figuras jurídicas que podem ser exploradas. Era bom que não fosse necessário”.
Para o futuro, espera que surjam “duas boas soluções” que permitissem à população “ficar agradada” e que se desenvolvesse, na Quinta do Marquês, um “bom negócio quer para o concelho de Torres Novas, no todo, mas, em especial também, para as aldeias ali limítrofes”.

“O que me disseram é que irão ter cerca de 100 postos de trabalho, dos mais diversos, desde graduados a não graduados e, certamente, se houver resposta nas aldeias à volta, não vão esperar por imigrantes ou pessoas de outro lado”, acrescenta.
António Rodrigues, por sua vez, ex-presidente da autarquia torrejana e hoje vereador, eleito pelo Movimento P’la Nossa Terra (MPNT), disse que as “estradas deviam estar abertas desde agora”.
“Se eu fosse presidente da Câmara aquilo era aberto hoje, não era ontem nem amanhã. Porque há um direito adquirido sobre uma passagem… aquilo não tem 10 anos nem 20. Aquilo é vosso, é do povo, há direitos adquiridos”, vincou.

“Aquela estrada é pública há muitos anos. Em último caso, faz-se uma expropriação. Não me passa pela cabeça que a Câmara sequer equacione a estrada não ficar aberta”.
Referindo-se ao investimento projetado para o local, o vereador afirma que “é desejável” , reiterando que “tudo tem um preço. Quando o preço é prejudicar as pessoas que ali vivem, é impensável que as coisas assim sejam”.
Tiago Ferreira, vereador da coligação PSD/CDS-PP, dirigiu-se à população presente na sessão afirmando que estas “corporizam o sentimento das populações”, tendo agradecido a sua presença.
“Se nós temos caminhos históricos, a Câmara não pode vacilar. Da nossa parte, enquanto vereador da oposição não há muito que possamos fazer, a não ser colocar-nos ao vosso lado”, declarou.
O vereador acrescentou ainda que “é importante valorizar o património de Torres Novas”, mas este “não pode prejudicar os interesses das populações”, concluiu.

