O sociólogo Max Webber dizia que o homem moderno vive numa “jaula de ferro”, porque retirou toda a vocação espiritual do seu trabalho e vive apenas para a obtenção de lucro. Não será este o caso de Adelino Pires, 60 anos, o único alfarrabista de Torres Novas e um dos dois profissionais desta atividade que existem no Médio Tejo. A sua loja não é o ebay, a amazon ou o wook, nem tão pouco um espaço de velharias, como os mercados específicos de rua. Também não é uma simples livraria. O alfarrabista é uma das últimas profissões que conferem nobreza ao livro e a um conteúdo específico que, para o cliente certo, pode valer milhões. Mas o valor, tantas vezes espiritual, deste negócio está a retirar-lhe espaço e pureza. Nunca perderá, no entanto, a sua capacidade de proporcionar uma grande descoberta.
A palavra “alfarrábio” provém de um filósofo árabe chamado Al-Farabi. Significa “livro velho, de pouca estimação ou leitura enfadonha”, tendo o conceito generalizado para livros e papéis antigos, por vezes raros. O alfarrabista é portanto aquele que adquire e vende alfarrábios.
A explicação é uma das primeira crónicas de um livro da autoria de Adelino Pires, “Crónicas com Preguiça”, que no texto “Alfarrábios e Alfarrobas” constata as várias confusões que o termo suscita a alguns dos que passam pela sua loja de alfarrabismo e antiguidades, “d’outro tempo”, no centro histórico de Torres Novas. Crónicas publicadas em alguns dos jornais da região, que reuniu numa edição de autor. Textos curtos, simples e diretos, muito francos, o seu estilo particular, como de resto é a conversa que se desenrola com o mediotejo.net.
Adelino Pires nasceu em Portalegre, tendo ido viver com oito anos para o Tramagal, no concelho de Abrantes. No seu percurso chegou a iniciar um curso de medicina e estava no Largo do Carmo no 25 de abril de 1974, adianta. Considera-se alfarrabista desde 2008, mas o espaço em Torres Novas, onde vive atualmente, existe há apenas seis anos. “Sou mais monge que missionário”, vai comentando de forma enigmática, “sou um não alinhado militante”. “Acho que há aqui uma componente de interioridade”, comenta, “há um afeto pelo objeto. Eu acredito no livro!”.
Ali passáramos anos antes e demos conta do inusitado espaço, tão raro de nascer na província, lugar onde o proprietário admite viver esta sua paixão pelo alfarrabismo. Adelino Pires explica-nos que é um dos únicos alfarrabistas do distrito de Santarém, havendo apenas mais um em Tomar. Ao longo das décadas e do crescimento das plataformas digitais e dos mercados de rua, muitos dos que viviam deste culto do livro antigo – o bom livro – foram fechando portas. Há muito mais pessoas a querer vender bibliotecas que a querer comprar livros antigos, reflete a dado instante Adelino Pires, sendo que os tempos modernos pouco deixam espaço à leitura.
No entanto, salienta, nem todo o livro é do interesse do alfarrabista. Este procura o inusitado, o único, a descoberta, o raro, o artigo específico que sabe ir interessar a determinado cliente. É este o âmbito do seu ofício, que pode ir desde livros de bordados a grandes clássicos da literatura. De uma forma resumida, o alfarrabista está fora do mercado das massas.

“O alfarrábio alimenta o espírito”, procura explicar. “Quando eu digo que é importante o momento de pesquisa e da descoberta e fazer chegar o livro ao bibliófilo certo. Isso para mim é um alfarrabista. Não é comprar de manhã e vender à tarde. Isto tem que ser feito com paixão”, afirma.
Adelino é, neste aspeto, também um grande colecionador de cartas, escritas à mão por grandes figuras, como Reis e Rainhas de Portugal ou Presidente da República. Tem vendido muitas na sua loja, autênticos documentos históricos, que vai adquirindo em leilões ou em compras a particulares. Nestes textos descobrimos episódios da vida dos monarcas e pormenores que deixariam em êxtase qualquer apaixonado por História, que o próprio Adelino Pires se confessa um grande interessado.
A sua loja possui um mercado específico e não interessa a qualquer pessoa. “Isto não é um supermercado”, constata, “as pessoas vêm aqui também para descobrir, também para conversar”. “Sinto-me um privilegiado por poder ouvir tanta história de vida”, confessa, de pessoas que vão até ao seu espaço, se sentam no sofá e entre livros antigos e o cheiro a memória vão narrando episódios de vida. “Este é sobretudo um local de partilha”, frisa. “Eu sei histórias de políticos, de escritores, de figuras. Há coisas que não têm preço. Eu podia escrever um livro de memórias das pessoas que passam por cá”.

“Nos tempos de hoje quem se senta para ler é um resistente”, argumenta. “Os tempos que vivemos hoje têm que mudar, temos que andar mais devagar. O tempo é fundamental. Temos que ter mais tempo para nós, para as pessoas com quem vivemos, para ler, para ler em voz alta”. “A minha forma de cidadania é partilhar a minha paixão e escrevinhar o que escrevo”, confessa.
Admite que vai saltando entre livros e que praticamente não lê a nova literatura. “Já passei a fase dos romances de 600 páginas” e hoje vai fazendo sobretudo alguma pesquisa, essencial ao seu trabalho. “Ser-se alfarrabista e bibliófilo é incompatível”, admite, “porque eles querem o melhor. Eu quero proporcionar a descoberta, pelo que não posso ser colecionador”. A sua última aquisição foi parte do espólio do Doutor Guimarães Amora, médico e bibliófilo de Torres Novas, que está ainda a estudar o conteúdo.
Tem porém na sua loja algumas coisas que não vendaria, como um busto de Eça de Queirós que adorna a sua secretária. “Comprei-o a um amigo alfarrabista que fechou recentemente. Não me queria vender (sorri). Foi o alfarrabista na casa de quem dormiu Zeca Afonso na noite de 24 para 25 de abril”, confessa. Mas um dos objetos mais valiosos que possui é mesmo um quadro a carvão, da autoria do artista torrejano Carlos Reis, de Alfredo Bensaude, fundador do Instituto Superior Técnico. O quadro tem uma dedicatória à filha Matilde.
Adelino Pires possui ainda exemplares antigos de vários jornais, tendo todos os que saíram a 25 de abril de 1974 e nos anos subsequentes. Pelo seu percurso já foi vendendo algumas raridades: um exemplar da primeira constituição dos EUA, uma carta manuscrita da Rainha Isabel II de Inglaterra, uma primeira edição, em francês, do livro “Os Miseráveis”, de Vítor Hugo, ou uma primeira edição dos estatutos da Ordem de Cristo. Documentos, admite, por vezes difíceis de encontrar.
Mas é tudo isto que é um alfarrabista: um profissional, especialista no antigo, alguém que consegue encontrar valor onde outros só vêem papel velho. “A credibilidade e a confiança são essenciais” no negócio, frisa, aconselhando a que quem deseje vender uma biblioteca antiga contacte um destes profissionais. Ele, Adelino Pires, não poderá sempre adquirir, mas pode encaminhar para a pessoa certa.

“Não sei se a minha geração é a última. Quero acreditar que não. O mundo mudou, o modelo terá que se adaptar”, reconhece. “Cada vez mais vamos ter uma procura de nicho”. “Isto não é para pescadores de rede, é para pescadores de linha”, comenta. O olho terá que ser mais clínico, mais especializado, acompanhando as tendências, e procurando sempre o raro e o invulgar.
Para quem gosta de arte, a loja de Adelino Pires recebe também a artista Ana Paula Lopes, que aí pinta duas vezes por semana e expõe algumas das suas obras. É ainda um bom espaço para estudantes encontrarem livros menos vulgares, que nem sempre estão disponíveis nas livrarias. Investigadores e historiados têm muito que procurar entre os arquivos e espólio de Adelino Pires. Uma biblioteca com mais de um milhar de livros, que ainda não desistiu de proporcionar a um mundo desencantado o sabor de uma inesperada e livresca descoberta.

Bom dia,
Pretendo vender a minha biblioteca, composta de enciclopédias, romance, poesia, viagens, técnicos, esotéricos, dicionários, etc, tenho entre 300 e 400 todos em óptimo estado.
Caso seja do seu interesse agradecia me informe da intenção de os adquirir ou informar onde os posso vender, resido em Abrantes e estou para mudar de casa este mês, por essa razão teria alguma urgência.
Melhores cumprimentos,
Gonçalves Martins