Tejo teve pico de caudal de 9.057 m³/s em Almourol em segunda maior cheia do século XXI. Foto: João Tavares

Após dias consecutivos de chuva intensa, inseridos num “comboio” sucessivo de depressões – com a tempestade Kristin pelo meio – o rio subiu de forma rápida, obrigando a acelerar procedimentos de emergência. O Tejo mantém a tendência de descida e as autoridades aguardam que, nas próximas horas, o nível regresse à normalidade em toda a sua extensão, permitindo a equipas de emergência, empresas, municípios e populações entrar nas áreas afetadas e iniciar a limpeza, adiantou o comandante sub-regional da Proteção Civil do Médio Tejo, David Lobato, que fez a leitura da fita do tempo.

No dia 5 de fevereiro, perante a previsão de descargas significativas das barragens espanholas e precipitação persistente, a Proteção Civil decidiu passar diretamente do aviso amarelo para o vermelho, sem transitar pelo nível laranja, por princípio de precaução.

Segundo o comandante sub-regional da Proteção Civil do Médio Tejo, David Lobato, o valor inicialmente apontado de cerca de 8.600 m³/s foi entretanto confirmado oficialmente pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

“O pico da cheia foi no dia 6 [de fevereiro], à 01:00, com 9.057 metros cúbicos por segundo (m3/s) na estação de Almourol. A partir daí foi sempre a gerir caudais altos, mas a baixar, com oscilações”, explicou, sendo, assim, a segunda maior cheia do século XXI e só suplantada pela de 2013.

Segundo os dados do SNIRH, a 2 de abril daquele ano foram registados em Almourol 9.873,87 m³/s.

Já em aviso amarelo desde 24 de janeiro, entre o aviso de subida abrupta dos caudais – resultante das descargas a montante – e a chegada do pico à sub-região houve uma janela de cerca de 12 horas.

“É o tempo que demora a água das barragens espanholas a chegar ao nosso território. Tivemos 12 horas para preparar e foi isso que fizemos”, afirmou, destacando evacuações preventivas em zonas vulneráveis, todas antes de a água atingir as habitações.

Comandante sub-regional da Proteção Civil do Médio Tejo, David Lobato. Foto: CIM

ÁUDIO | DAVID LOBATO, COMANDANTE PROTEÇÃO CIVIL MÉDIO TEJO:

Apesar de o plano prever a passagem ao nível laranja a partir dos 5.000 m³/s e ao vermelho apenas a partir dos 10.000 m³/s, a decisão foi antecipada.

“Nunca tivemos critério técnico que obrigasse ao vermelho, mas pelo princípio da precaução optámos por ativar o nível máximo e todas as medidas previstas”, justificou.

A gestão articulada das descargas das barragens portuguesas e espanholas foi considerada determinante para evitar um cenário mais grave.

“Aquilo que choveu cá, choveu em Espanha. Eles também estavam sob pressão e foram obrigados a largar água. Foi uma gestão concertada e as coisas correram muito bem”, afirmou.

Durante vários dias, as zonas baixas de concelhos como Mação, Abrantes, Constância e Vila Nova da Barquinha, no Médio Tejo, permaneceram submersas, com estradas cortadas e danos em infraestruturas e comércio. Não há registo de vítimas diretamente associadas à cheia.

O plano de alerta para cheias no Tejo está ativo desde 24 de janeiro, no seu nível amarelo, o segundo de uma escala de quatro, e a Proteção Civil monitorizava a evolução dos caudais, antecipando a subida dos caudais e que levaria à declaração do aviso vermelho em 5 de fevereiro.

Com o regresso do sol, os caudais começaram a baixar lentamente e multiplicam-se operações de limpeza nas zonas ribeirinhas, com reabertura gradual de cafés, restaurantes e outros espaços comerciais.

O comandante da Proteção Civil precisou, no domingo, dia 15, que, “na parte norte, o rio já se encontra todo dentro do seu leito”, mas falta a parte sul do distrito, onde ainda não regressou totalmente ao seu curso normal. A tendência para os próximos dias é de “normalização” do curso do rio, “primeiro, mais a norte” e, “para o final do mês, na Lezíria”.

“O rio está a descer bastante e amanhã [segunda-feira] faremos uma reunião, de manhã, da comissão distrital [da Proteção Civil de Santarém] e iremos possivelmente baixar para o amarelo” o nível do alerta, que atualmente se encontra no vermelho, antecipou, em informação que se viria a confirmar.

O nível de alerta para cheias na bacia do Rio Tejo baixou na manhã de segunda-feira de vermelho para amarelo, após a descida sustentada dos caudais e o regresso gradual do rio ao seu leito normal.

Com o alerta agora em nível amarelo, as autoridades mantêm vigilância permanente e apelam à prudência.

Enquadramento histórico

Ao longo dos últimos dois séculos, o Tejo tem registado cheias que marcaram a memória coletiva. Em 1876 (século XIX), antes da construção das grandes barragens, estimam-se caudais superiores a 14.000 m³/s, num dos maiores episódios de inundação de que há registo nos últimos três séculos.

Já em fevereiro de 1979, considerada a maior cheia do século XX, as descargas nas barragens de Fratel e Belver ultrapassaram os 11.000 m³/s — cerca de 11.720 m³/s em Fratel e 11.430 m³/s em Belver — provocando inundações extensas em todo o vale do Tejo.

A estação hidrométrica de Almourol – hoje o principal ponto de referência para a medição dos caudais que chegam ao Médio Tejo, Lezíria do Tejo e à região de Lisboa, concentrando as descargas de Castelo do Bode, Pracana, Fratel e Belver, bem como os contributos do Tejo e do Zêzere – mantém registos regulares desde meados do século XX.

Contudo, em 1979 os sistemas de monitorização ainda não dispunham da atual série automática digital, razão pela qual os valores comparativos dessa cheia são habitualmente referidos a partir das medições em Fratel, Belver ou Santarém.

Na cheia de fevereiro de 2026, os caudais máximos registados nas barragens a montante ficaram significativamente abaixo dos valores históricos de 1979 – em Fratel e Pracana os picos situaram-se na ordem dos 3.000 a 4.000 m³/s – refletindo uma gestão articulada das descargas e o efeito regulador das albufeiras.

Ainda assim, o pico de 9.057 m³/s medido em Almourol constitui o segundo maior valor registado naquele ponto no século XXI, só suplantado pela de 2013. Segundo os dados do SNIRH, a 2 de abril daquele ano foram registados em Almourol 9.873,87 m³/s.

Deste modo, a cheia de 2026 junta-se às grandes cheias de 1876, 1979 e 2013- três episódios registado em três séculos – ilustrando a dimensão cíclica das grandes cheias do Tejo e a importância da monitorização hidrológica na gestão do risco.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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