“Por onde maio passou tudo espigou”, diz-nos a sabedoria popular, que também guardou na nossa memória coletiva a ideia de que “quem tem trigo de Ascensão, todo o ano terá pão”.
O Dia da Espiga, celebrado na Quinta-Feira da Ascensão, é “um dia especialmente significativo para as sociedades agrárias tradicionais, como até há pouco tempo foi a nossa, que tanto dependiam da agricultura, da fertilidade da terra, da cadência das chuvas, do favor dos deuses”, explica o historiador António Matias Coelho. “Para os conseguir, sempre os agricultores praticaram rituais, fossem quais fossem as divindades invocadas. A apanha da espiga, em Quinta-feira de Ascensão, é um sinal que resta desse gesto antigo que tinha por intenção providenciar, simbolicamente, a fartura de pão para o ano inteiro.”

Apesar da crescente descaracterização do mundo rural, continua a ser um dos dias mais sagrados do calendário de quem vive no interior do país.
“É um dia fasto, um dia favorável, como o são também, por exemplo, a Segunda-feira de Páscoa (dia da Senhora da Boa Viagem em Constância), a Segunda-feira de Pascoela (dia de sestas na freguesia da Chamusca) ou o 1.º de maio que, muito antes de ser Dia do Trabalhador, já era dia de levantar cedo para não deixar entrar o maio, que seria sinal de sono e mau presságio para todo o ano. Todos eles são dias de ir passear ao campo, festejar a primavera e louvar a natureza”, lembra António Matias Coelho.
“Em muitos sítios do país, mas em especial no sul, que é zona de mais vastos trigais e de mais vincadas tradições mediterrânicas, o povo chama ao dia da Ascensão a Quinta-feira da Espiga – e este nome assenta-lhe bem. De facto, mais do que a festa religiosa da ascensão de Cristo, o que o povo espontaneamente celebra é o amadurecimento das searas, colhendo espigas e outros elementos vegetais para compor um ramo que, guardado em casa, há de dar fartura de pão e outras importantes venturas até à Ascensão que vier.”
