Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço todas as segundas-feiras, de forma alternada. “Rosinha, Minha Canoa”, do escritor José Mauro de Vasconcelos, é o livro sugerido esta semana por Ana Rita Leitão, diretora da Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, em Vila de Rei.
Passe pela biblioteca… e boas leituras!
Foi a partir do seu sétimo livro publicado que o escritor brasileiro José Mauro de Vasconcelos (1920-1984) passou a ser reconhecido pelo grande público. Rosinha, Minha Canoa (1962) é o título dessa obra, que embora possa ser lida por todo o tipo de leitores, é mais direccionada para os jovens adolescentes. A narrativa que é apresentada ao longo das duas partes que compõem o livro é simples, a escrita é dada a conhecer em prosa poética, e as mensagens que o autor quis transmitir através da história são muitas e plenas de profundidade, relacionadas sempre com dualidades: Homem versus Natureza, normalidade versus patologia, etc.
A acção de cada uma das partes com que José Mauro de Vasconcelos dividiu o romance são completamente opostas. A primeira passa-se no sertão e rio Araguaia, na ilha do Bananal (a maior ilha fluvial do mundo), onde os homens respeitam e coexistem com a Mãe-Natureza. É neste habitat, onde a flora e fauna vivem em estado selvagem, que Zé Orocó passa os seus dias na lavoura, onde dialoga com os pássaros e as árvores, e vice-versa, e a remar pelo rio na sua Rosinha, a canoa que um dia um velho índio oferecera-lhe. Por entender-se melhor com os seres não-humanos, Zé é tido pelos habitantes da ilha como um homem misantropo: «De repente dá uma tristura nele que num caba mais. Num fala cum ninguém. Num come. Parece que num vê, num ove.»
Tudo muda quando um dia chega a Araguaia um doutor, que vem saber dos queixumes de todos os habitantes por aquelas bandas. Com reticência, o protagonista da história, embora não se queixe de absolutamente nada que o constringe, a nível de doença, é levado pelo médico para a cidade, para se “curar”. Nesse lugar Zé terá que aprender que «Uma árvore é uma árvore e as árvores não falam».
De ciclicidade, metamorfose e resistência, de amizade, ternura e sofrimento, fala este romance. Nos envolve, mexe com a nossa alma e faz-nos dar importância a coisas simples que por rotina passa-nos ao olhar, ao toque, à compreensão. Rosinha, Minha Canoa é um livro de linguagem simples e verdadeira, que mistura na dose certa dois mundos desiguais: o do sonho e o da realidade. Foi escrito por um autor sensível, um dos grandes nomes da literatura brasileira, para leitores sensíveis, independentemente das suas idades. O livro é um hino de amor e respeito à natureza, contando a trajetória de Zé Orocó, envolvido em “causos”, histórias fantásticas e lendas, bem como a sua amizade com uma canoa. José Mauro de Vasconcelos resgata assim o encontro das coisas singelas e verdadeiras da vida.
