Os alunos da escola Luís de Camões, em Constância, representaram alguns momentos fundamentais de "Os Lusíadas". Fotografia: Ricardo Escada

“Vinde ver!”, apela a cicerone do Concílio dos Deuses, Carolina Oliveira. “Vede bem este quadro. Os deuses estão prontos a decidir o destino dos portugueses. Eles tudo podem e tudo sabem. Chegarão ou não os portugueses à Índia?”, interroga. “Os deuses têm grandes decisões a tomar. Por favor deem passagem aos grandes deuses do Olimpo”.

De ‘Os Lusíadas’ numa mão, de telemóvel na outra, para sintonizar com as colunas portáveis que transmitem a música ambiente, com adereços na cintura ou na cabeça, os alunos do Agrupamento de Escolas de Constância ensaiam antes de subirem ao palco, que na verdade é a rua (ou seis ruas) da vila. Sabem que a partir das 21h00 ficam entregues as si próprios, terão de se orientar com o princípio, o meio e o fim do “quadro vivo” que lhes cabe representar. Os professores que os orientam estarão por perto mas sem desempenhar qualquer papel na hora da dramatização.

O professor Paulo Moura coordenou a representação dos alunos. Fotografia: Ricardo Escada

No dia anterior ao de Portugal, 52 alunos, após três meses de preparação, foram ao encontro de Camões e a partir da sua obra ‘Os Lusíadas’, explorando a intemporalidade do poema de forma leve e divertida, encenando 12 cantos em seis pontos da vila de Constância.

O público assistiu à dramatização em quatro minutos de Inês de Castro, O Velho do Restelo, a Chegada à Índia, o Concílio dos Deuses, a Ilha dos Amores e o Adamastor.

Sónia Vieira, professora de História, desafiou vários alunos para integrarem o projeto das Pomonas. Fotografia: Ricardo Escada

Tratou-se de um projeto performativo – a maioria dos alunos permaneceu estático em cena, cabendo apenas ao cicerone contar a história – extra-curricular, unindo alunos do 6º, 7º, 8º, 9º e 11º anos à volta do teatro, no papel de jovens aprendizes de artistas, àquela que é considerada a obra maior de Luís Vaz de Camões e, claro, também aos professores Paulo Moura (orientador), Angelina Fernandes (criadora e coordenadora de todo o guarda roupa quinhentista desde a origem das Pomonas Camonianas), Maria Clara, Paula Malheiro e Sónia Vieira.

O objetivo passou por “enaltecer a obra de Camões, porque em cada quadro os alunos citam Camões” explica Sónia Vieira ao nosso jornal. O trabalho também exigiu “a escolha de músicas adequadas, que encaixassem nestes quadros, todos eles começam e terminam com a mesma música, sendo a música central diferente para todas as cenas, consoante aquilo que vai ser apresentado”, acrescenta.

Fotografia: Rucardo Escada

Durante três meses de preparação da ‘Comemoração da I edição de Os Lusíadas 1572-2022’ “cada grupo de alunos – que se voluntariaram para estes quadros vivos, trabalhando desde o início no grupo de teatro da escola – estava com os professores em horários diferentes, tendo em conta a disponibilidade” isto porque foi um trabalho “fora da sala de aula, fora do estudo” refere Sónia Vieira.

Nos ensaios levou-se os alunos “para este espaço que eles conhecem e que sabem o que representa”. No fundo, há também neste projeto “um trabalho de integração dos alunos”, porque a escola “ultrapassa a sala de aula”, diz a professora. Ou seja, a escola torna-se pública na rua, sendo algo presente no quotidiano da comunidade, ontem especificamente no laranjal, na Casa-Memória de Camões, em dois locais da Rua do Arco, junto à Igreja da Misericórdia e na Torre do Relógio, em seis momentos diferentes.

Sónia Vieira abraçou o projeto do grupo de teatro e depois de dois anos de interregno das Pomonas Camonianas, “surgiu a ideia, fazia sentido a música, a dança” no evento sugerido originalmente pela jornalista Manuela de Azevedo, como exposição-venda das flores e dos frutos referidos por Camões na sua obra, como complemento ao Jardim-Horto onde se encontram as plantas vindas de locais longínquos, e que o poeta cantou. A Câmara Municipal de Constância deu forma a essa ideia e depois as escolas do concelho e a comunidade em geral deram-lhe a dimensão que tem hoje.

Fotografia: Ricardo Escada

Paulo Moura refere-se ao projeto como sendo de “animação”, um “brincar ao teatro”. Afirma ter “mais graça trazer o teatro para a rua”, porque “afinal, é na rua que o povo está”.

Explica que os cantos de ‘Os Lusíadas’ foram escolha dos professores, “os mais representativos dentro do espírito da atividade”, sendo que os alunos “gostam de brincar ao teatro. É uma nova experiência”. E na verdade, quem assiste, percebe o gosto de executar para se divertir. Apesar de ser inevitável que um professor pense de forma académica, “não há nenhum sentido pedagógico”, diz. Mas, “se ‘Os Lusíadas’ puderem ser uma coisa divertida, faz-se!”, garante o professor.

Paulo Moura referiu que, em todo o trabalho, “o que demorou mais tempo foi a compreensão da coisa”, por isso, “o grosso do tempo foi passado à mesa com os professores a construir” aquilo que viria a resultar na dramatização. Já os ensaios com os alunos, tiveram lugar “duas vezes” antes desta quinta-feira. “Eles percebem logo tudo”, garante.

A professora Sónia Vieira, apoiando nos últimos ensaios. Fotografia: Ricardo Escada

No ensaio final analisaram-se os locais escolhidos e conjeturou-se por onde o público iria entrar e ficar a assistir, alinharam-se os pensamentos em função do cenário, e orientou-se o aluno cicerone para o espaço onde iria contar a história dos dois cantos de ‘Os Lusíadas’ de sua responsabilidade.

Carolina Oliveira é aluna do 11º ano e desde o início andou a ensaiar outro papel de estátua viva, no caso Juno. Mas devido a uma mudança de planos, ontem foi a primeira vez que representou o papel de cicerone do Canto I da obra de Camões, o que a deixou “algo nervosa e com receio”, tendo em conta o único ensaio, confessou.

Nervos à parte, diz que “é uma experiência bastante interessante”, algo novo. “Nunca tivemos este tipo de projetos que nos envolve, é uma experiência engraçada”, disse.

O desafio foi lançado pela professora Sónia Vieira. “Nunca tive esta atividade extra-curricular e candidatei-se pela novidade”, sendo que “o teatro torna a obra bastante mais leve”, considera. “Esta é uma forma mais criativa, diferente, mais apelativa de estudar ‘Os Lusíadas’. Nestes pequenos momentos está a história essencial de cada canto”, considerou.

Por seu lado, Matilde Esteves, aluna do 9º ano, gosta da obra de Camões porque aprecia o místico. “Estudar Os Lusíadas foi interessante para mim”. Também Matilde é cicerone do Canto III, sobre Inês de Castro.

“Fazemos a parte da trágica morte de Dona Inês, de como morreu, com os filhos envolvidos. Sempre gostei de teatro e atuar à frente do público é excitante porque penso; será que vai correr bem? Será que vou acertar as falas? Mas gosto de adrenalina”, confessou.

Conta ter tido a primeira experiência semelhante, que envolveu “cantar em público” durante a sua Primeira Comunhão. “Uma experiência assustadora”, descreve, mas que “lhe abriu o caminho para estar à vontade em público”. Contudo, a representação não está nos seus planos futuros, uma vez que quer ser médica. Mas nem por isso hesitou perante o desafio. “Quis logo participar porque reconheço que os meus colegas são mais contidos neles próprios do que eu.”

Fotografia: Ricardo Escada

A antiga Cadeia Velha serviu da camarim improvisado. A sala fervilhava de agitação, com caixotes empilhados e sapatos e mochilas espalhados numa espécie de caos organizado perante a azáfama de vestir o guarda-roupa quinhentista. Segue-se a maquilhagem, centrada em base e pouco mais. Um “bafo de Júpiter” abafa os presentes, atira um aluno perante o calor da noite primaveril.

Modernos e coloridos telemóveis contrastam com as roupas de época, semelhantes aos figurinos de séculos passados. A professora Sónia Vieira dá indicações quanto à dosagem das pétalas das flores a utilizar durante a representação, no sentido de durarem as duas horas em cena.

Às 21h00 os quadros vivos estavam a postos nos diferentes locais da vila para contar a história a quem passava. “Os Lusíadas contados de uma forma gira”, insiste o professor Paulo Moura. E era ver marinheiros e ninfas e até o Cupido na paragem pela ilha viçosa, cheia de rumores.

Fotografia: Ricardo Escada

Após a primeira representação, multiplicavam-se os elogios. “Achei muito giro. Uma iniciativa que deveria ser feita mais vezes”, opina Amilcar Dias. No entanto, lamentou que “as atuações dos miúdos que se esforçaram por isto, adquirindo conhecimento com os professores, não sejam acompanhadas por mais público”.

Umas ruas acima, contava-se a história de amor impossível de Pedro e Inês e a morte à qual sucumbiu o triste destino da galega. Sílvia assistiu ao Canto III considerando ser esta “uma iniciativa produtiva”. Ela própria já havia participado em algo semelhante há uns anos. “É uma história bonita, sobre o tema, sobre Camões e sobre ‘Os Lusíadas’. Apoio e aprovo que os alunos estejam integrados nas festividades”, disse.

Para o Canto VI lá estavam, perante o público e as luzes que iluminavam a noite, os marinheiros e o comandante Vasco da Gama. Finalmente chegaram à Índia, enquanto os alunos da Escola Luís de Camões continuavam a divertir-se e a entreter quem passava.

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comment

  1. Fantástica peça jornalística, que faz um retrato fiel dos bastidores de um trabalho árduo, mas muito enriquecedor para alunos e professores! Parabéns!

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