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“A frontalidade, sem as regras do decoro, torna-se grosseria.”
– Confúcio

“Eu cá sou muito frontal!”, ouve-se amiúde de quem, de dedo em riste, gosta de acrescentar “o que eu tenho a dizer, digo logo, na cara, não deixo para depois nem mando recados!”. Este é o verdadeiro frontal, o gabarolas que gosta de ser “muito directo” e de, na sua fanfarronice, “atirar à cara, para aprender!”. Tem uma coisa boa, à partida, que é a sinceridade mas, em tudo o resto, o apreciador da [muita] frontalidade pode estar completamente errado.

Esta é a grande diferença entre frontalidade e assertividade. Ambas prezam a franqueza ou sinceridade, mas distinguem-se no cuidado que têm com a estratégia e a forma de comunicação, visando dois objectivos fundamentais: por um lado, ser persuasiva, i.e., levar o receptor a aceitar a mensagem e, por outro lado, fazê-lo com empatia e com decoro ou respeito pelo interlocutor. O comunicador frontal não revela empatia nem se preocupa em ter respeito pelo outro, apenas por si próprio e pela sua basófia.

Se a agressividade significa que decidimos por outros e a passividade que deixamos outros decidir por nós, a frontalidade  e a assertividade significam que decidimos por nós próprios. Mas, enquanto nesta nos importamos com os outros, naquela os outros pouco ou nada nos importam. Há, na frontalidade, uma atitude implícita de distância e confronto, ao invés de aproximação e integração. E, frequentemente, muita ofensa e má-educação.

A empatia está na base do comportamento de comunicação assertivo. Quem possui fraca empatia, não percebe o impacto da sua frontalidade no interlocutor. Ilustração de Shutterstock

A assertividade cuida da estratégia de comunicação, a qual assenta em pelo menos quatro dimensões: espaço, tempo, meio e expressão. Por espaço entende-se o lugar onde transmitir a mensagem, designadamente se em público ou em privado. O tempo refere-se ao momento em que ela deve ser transmitida – ou compreendida e aceite –, se de imediato ou mais tarde (diferida). O meio é o canal a usar, se directo ou por interposta pessoa (intermediário). Finalmente, a expressão ditará se a mensagem deve ser explícita ou implícita (subentendida) e que palavras usar.

Tudo deve ser dito de forma apropriada, ou seja, pensando previamente na melhor forma de o fazer. Dizer em público o que deve ser dito em privado, ou dizer algo fora de tempo (demasiado cedo ou tarde demais) e querer que seja imediatamente compreendido e aceite, pode revelar-se altamente inconveniente e contraproducente. Do mesmo modo, dizer “cara-a-cara” sem olhar p.e. à relação de poder e às características e situação do outro, ou dizer “com todas as letras” o que bem apetece, como se o outro fosse insensível ou néscio – tal como fazer tudo isto de modo contrário – pode alterar completamente o significado da mensagem e comprometer a sua eficácia.

Comunicar centrando-se em si próprio e não no outro, pode levar à incompreensão e rejeição da mensagem e dos impactos com ela pretendidos. Creio que não é preciso dar exemplos, todos os temos em abundância. Quem comunica, deve começar por asumir que o outro é inteligente, sensível e bem-intencionado. Se não for, a estratégia de comunicação poderá mudar, mas sempre respeitando os limites da dignidade humana e da deontologia profissional (se for o caso).

No programa da TVI “Pesadelo na Cozinha” (11.11.2018), o Chef Ljubomir Stanisic visitou o restaurante “Alameda”, em Sines, tendo mantido o seguinte “diálogo frontal” com o proprietário do estabelecimento

– Chef: «Não quero ter a preocupação de andar nas calmas ou com falinhas mansas. Não sou uma pessoa mansa, nem quero ser. Isto vai dar conflitos e eu quero prevenir-me disso».

– Proprietário: «Você é uma besta? Você é uma besta para as pessoas? Não é, pois não? É um ser humano. […] Diz que é um alentejano? É um alentejano o c******. Um alentejano não é assim, um alentejano é um gajo humilde».

Preocupa-me quem diz admirar a frontalidade e gabar-se de ser muito frontal, sobretudo quando exerce cargos públicos. Quem diz a primeira coisa que lhe vem à mente, demonstra que não está a usar a mente (ainda que use a cabeça para dar cabeçadas). Não há processamento mental, os impulsos ou emoções primárias saltam da amígdala (cerebral) directamente para a boca, sem passar pela mente racional. Não passando pela “estação de tratamento” moral, as ideias e sentimentos espúrios escorrem “a céu aberto”, ainda por cima com uma tabuleta a ostentar o título falacioso de “sinceridade”.

Enquanto a frontalidade não se importa de parecer agressiva e gerar medo, a assertividade preza o respeito e a confiança mútuos, favorecendo a relação e as interacções sociais. Geralmente, a frontalidade diminui ou anula a disposição para o contraditório e a criatividade, enquanto a assertividade promove o diálogo e a crítica construtiva, produzindo inovação. A frontalidade é própria das posições individualistas, a assertividade das relações cooperativas e integrativas.

Há muita gente que se diz frontal mas, em rigor, é mais assertiva do que frontal. O verdadeiro frontal, aquele que se gaba de o ser e não respeita o seu semelhante – seja ou não subordinado ou dependente – comporta-se, de facto, como uma alimária. Herman José caricaturizou-o como ninguém no episódio de Monólogos Secretos em que ”Baptista Bastos” entrevista ”Orlando Barata”: «[…] ao fim e ao cabo, eu acho que tu és uma besta, não é? Há que dizer isto com frontalidade, és uma besta e digo-to com o respeito que me mereces!».

Herman José no papel de “Baptista Bastos”, em Monólogos Secretos. O personagem permite-se insultar o entrevistado, com o argumento desculpabilizador da frontalidade, demonstrando ser aquilo de que acusa o outro

Moralmente condenável e comunicacionalmente inábil, ineficiente e ineficaz, a frontalidade torna-se verdadeiramente explosiva em situações de conflito expresso ou latente. O verdadeiro frontal tem muita dificuldade em detectar os sinais de potencial descontrolo e explosão emocional no outro, apesar de evidentes. Ao ser inconvenientemente frontal, pode detonar um conflito indesejável que se sabe como começa, mas não se sabe como terminará.

A psicóloga Fela Moscovici fala numa onda de choque descontrolada que, de modo instantâneo, atinge todo o organismo e em que o pior pode acontecer, incluindo situações dramáticas ou trágicas. O vilão da história, afirma a especialista, não é o sujeito em si mesmo, mas a perda da sua capacidade de raciocinar claramente sobre o que está a acontecer. Por outras palavras, ainda que a culpa seja atribuída a quem escala o conflito, a responsabilidade deverá ser também imputada a quem o ateia e inflama ou, pelo menos, não procura suavizá-lo e superá-lo.

Por mais admirada que seja, a genuína frontalidade tenderá sempre a ser uma manifestação autoritária, violenta, dominadora, javarda e marialva.  Do mesmo modo que o fisiculturismo satisfaz a obsessão pelo corpo perfeito, secundarizando a inteligência e a bondade, a frontalidade impressiona à vista mas ignora os efeitos morais e comportamentais produzidos sobre o outro. Ora estes constituem, ao fim e ao cabo, a essência da comunicação eficaz e das relações sociais saudáveis, as quais carecem, há que dizê-lo, de mais assertividade e menos frontalidade.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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