Num momento em que assinala 30 anos de carreira, Flávio Tomé revela a dimensão humana por detrás do figurino. Entre a fundação de novas associações culturais e a preparação de cinco estreias para este ano, o artista explica como a família e a comunidade são os pilares que o mantêm a sonhar “descansado” depois de um dia de trabalho na função pública.

“Onde mora um ator tem de haver teatro”: A nova etapa de Flávio Tomé em Constância
Flávio Tomé nasceu em Tomar, em 1980, e desde cedo transformou o quotidiano em cenário: dos vestidos que fazia para as bonecas com a caixa de costura da avó aos espetáculos improvisados no atrelado de um trator. Com formação na INIMPETUS e no Politeama, a sua “escola” principal foi a televisão, onde durante seis anos integrou projetos icónicos da TVI como o Batatoon e o Mix Max.
Ao longo de 30 anos, consolidou-se como um artista multifacetado: foi membro fundador de companhias como a Lua Singular e a Ermidas & Brumas, trabalhou 13 anos na Quinta da Regaleira com o grupo Tapafuros e tornou-se um nome de referência com o seu trabalho como figurinista e cenógrafo que ao Teatro Nacional D. Maria II e ao cinema participando em grandes produções da RTP e da Netflix.
Atualmente a residir em Santa Margarida da Coutada, concilia o cargo de assistente operacional na Câmara de Constância com uma agenda cultural vibrante e com a direção artística de projetos comunitários que visam preservar a identidade e a “portugalidade”, provando que ser artista é, acima de tudo, uma questão de sobrevivência, paixão e verdade.
Entrevista – 30 Anos de Palcos e Afetos: O Percurso Singular de Flávio Tomé

Pode contar-nos um pouco sobre a sua família? Teve sempre apoio nas suas escolhas profissionais?
Minha mãe Madalena Henriques, 65 anos, natural de Oleiros, Castelo Branco, técnica de análises clínicas. Meu pai Francisco Cabeças, 67 anos, funcionário público, natural de Pias, Ferreira do Zêzere. Fui uma criança feliz e afortunada, sempre brinquei e desenvolvi os meus gostos sem ser reprimido de maneira nenhuma, fui livre de crescer por inteiro sem me esconder em momento algum. Digo por graça que já nasci para o que era: brinquei com a caixa da costura da minha avó Fernanda e fazia vestidos para as bonecas, adorava pentear bonecas. No toucador do quarto da minha mãe havia um espelho com luzes de lado e eu brincava aos teatros; abria uns livros pop up para fazer cenários e com figuras de PVC passava horas a brincar aos teatros e a inventar histórias. Da parte da minha família sempre houve uma certa admiração: quando cantava e brincava ao festival da canção com os meus primos no atrelado de um trator; quando atuava no Canto Firme em Tomar (fiz aulas de canto e flauta) e quando fazia roupas e brincava aos programas de rádio onde gravava K7 dos programas durante horas… Daí a seguir o curso de artes no Liceu em Tomar, Santa Maria do Olival, foi um instante e o meu percurso começou a desenhar-se naturalmente. A família sempre me apoiou e incentivou em todos os projetos e até aos dias de hoje.
Como equilibra a vida pessoal, familiar e artística?
Quando se decide ser artista e viver disso embarcamos numa aventura surpreendente, numa experiência muito densa e a vida pessoal tem seu espaço tal como a família, mas na verdade parece que tudo acontece ao mesmo tempo; rara e dificilmente estamos só numa coisa. Ser artista é tramado: é uma profissão, é um hobby, é um vício, é uma paixão. Domesticar todos estes imaginários, dar-lhes vida é como ter a cabeça sempre em algum sítio: um texto, uma música, imaginar uma cena, estar na oficina a fazer roupa ou um adereço… a família e os amantes são um pilar muito importante mas neste ofício acabam sempre por ser traídos de vez em quando.

Que formação académica ou artística teve? Foi um caminho mais académico ou feito sobretudo na prática?
Nasci e vivi em Tomar até aos 18 anos, estudei na ESSMO/liceu desde o 7º ao 12º ano. Em 1998/99 fui para Lisboa e estudei na Maria Amália Vaz de Carvalho para completar o 12º (matemática) e fazer melhoria a História das Artes e Português. Ainda nesse ano fiz um curso de Teatro na INIMPETUS – Escola de atores e um curso de artes e ofícios no Politeama (guarda-roupa e figurinos). Em 99, quando estava a concorrer à Escola Superior de Teatro e Cinema, entrei para a TVI onde vivi/trabalhei intensamente durante 6 anos. Fiquei parte do programa infantil BATATOON e 3 meses depois fiquei com o programa das manhãs MIX MAX. Uma aventura de 6 anos com diretos, espetáculos ao vivo nos coliseus, CDs e DVDs foram a minha escola.
Onde e como surgiu o seu primeiro contacto com o teatro ou outras artes?
Em 1996, ainda no Liceu em Tomar, juntamente com o professor José Carlos Morgado, criámos o grupo de teatro; já fazia parte da TUNA SABES (grupo coral de pais, alunos, funcionários e professores). Foi no primeiro espetáculo de teatro que fizemos, “O FABULOSO CIRCO ALLEGRO”, que senti essa adrenalina, essa emoção forte; foi decisiva essa primeira vez num palco a cantar e a atuar… um arrepio, uma febre de energia. Nesse mesmo ano comecei a trabalhar com os FATIAS DE CÁ como aderecista.
Houve alguém – na família, escola ou fora – que tenha sido decisivo para despertar a sua vocação artística?
Na família não, na escola sim. Tenho no meu coração e na minha génese artística a influência e orientação, mais inspiração, de 3 professores: Natália Cardoso, minha professora durante 6 anos em Educação Visual e depois Geometria Descritiva; Helena Cardoso, professora de oficina de artes; e José Morgado, professor de teatro e maestro da tuna. Receberam-me, inspiraram-me e todos me admiraram na medida certa.

Como foram os primeiros anos de carreira? Enfrentou dificuldades ou momentos de dúvida sobre seguir esta vida artística?
Ainda com 18 anos e já em Lisboa vi um anúncio no jornal Ocasião: “precisa-se aderecista para programa de televisão”. Liguei para o número e fui a uma entrevista em Queluz de Baixo com o Sr. António Branco, o BATATINHA. Fiquei no programa e como estava a fazer curso de ator aproveitaram-me para personagens como HONÓRIO, SAPO XIXI e PROF. EUGÉNIO. Foi um início de carreira maravilhoso e muito enriquecedor e formei-me assim nos meus ofícios de ator, cenógrafo e figurinista. Nunca tive dúvidas, não me imagino a ser outra coisa.
Quais foram os primeiros projetos ou companhias que integrou, e que experiências mais o marcaram?
Depois de 6 anos na TVI, tive um percurso muito rico e variado: trabalhei 5 anos nos VALDEVINOS TEATRO DE MARIONETAS, 13 anos com TEATRO TAPAFUROS na Quinta da Regaleira, com a BYFURCAÇÃO TEATRO em Sintra e Lisboa, e fui membro fundador da ETER CULTURAL e da CRIARTE TEATRO MUSICAL. Desenvolvi o meu trabalho de ator mas também de oficinas de cenografia e figurinos em centenas de espetáculos e projetos. Marcou-me muito a passagem no grupo TAPAFUROS, com espetáculos em lugares mágicos como a Quinta da Regaleira; peças como HAMLET ou A TEMPESTADE com plateias de 300 pessoas foram uma experiência avassaladora.

Ao longo destes 30 anos, que tipos de projetos desenvolveu (teatro, recriações históricas, animação, formação)?
Em 2009 criei o meu próprio grupo de trabalho, LUA SINGULAR – ASSOCIAÇÃO CULTURAL, sediada em Sintra. Temos um protocolo com os Parques de Sintra – Monte da Lua, onde desenvolvemos atividades escolares, programas de família e aniversários na Quintinha de Monserrate, Palácio de Monserrate, Convento dos Capuchos e Palácio da Pena. Faço parte da equipa CÂMARA DOS OFÍCIOS ANIMAÇÃO E ARQUITETURA de Sintra para eventos como a Feira Setecentista de Queluz, Reino do Natal e recriações no Palácio Nacional de Mafra. Em 2020 integrei a produtora MARGINAL FILMES como figurinista numa produção de 23 filmes para a RTP. Fundei em 2024 a ERMIDAS & BRUMAS ASSOCIAÇÃO CULTURAL em Constância, da qual faz parte o grupo SANTA MARGARIDA TEATRO.
Há peças ou trabalhos que considere marcos fundamentais no seu percurso? Quais e porquê?
A televisão; entre 2007 e 2009 fui chefe costureiro e figurinista do TEATRO NACIONAL TRINDADE (Memorial do Convento, 1755 Terramoto). O meu primeiro trabalho em cinema, na equipa de arte e depois em guarda-roupa, no filme FÁTIMA (2020), que lançou a minha carreira no cinema onde participei em várias séries e filmes, incluindo ABÓBADA, SÍTIO DA MULHER MORTA, FRONTEIRA e o recente DAMSEL da Netflix.

Por onde já passou enquanto artista que territórios, públicos ou experiências o marcaram mais?
As salas a norte tendem a ser mais vibrantes e genuínas. Em termos de público, é fundamental passar pelo público escolar para deslumbrar e incutir valores. Marcou-me muito o espetáculo PEDRO E INÊS na Quinta da Regaleira; eu fazia de bobo da corte e numa cena chegava com o cesto com a cabeça da rainha decapitada… o processo foi difícil e chorei pela primeira vez em palco, eu e os 300 espectadores. Ali entendi o poder das nossas raízes e decidi que queria contar a nossa história.
Como nasce um espetáculo seu – do conceito à apresentação?
Para mim é magia; vejo imagens na minha cabeça como se fosse um filme. A partir do local (palco, castelo ou jardim), olho fixamente e tudo acontece: cenários, atores e figurinos ao pormenor. É um processo vivo e orgânico que se vai alterando até ao fim.

O seu trabalho tem uma forte componente coletiva e comunitária. O que o atrai nesse tipo de criação?
As pessoas a participarem ativamente na sua história e identidade. O objeto artístico da comunidade para a comunidade mantém a nossa história em movimento.
Que desafios encontra ao coordenar atores, músicos, voluntários e artesãos em projetos complexos, como a Feira Mourisca?
O desafio maior é receber pessoas que querem experimentar e entender o que gostam de fazer. O segredo é misturar voluntários com atores de forma simples para que se divirtam e “façam de conta”.
Como tem sido conciliar a paixão pelo teatro com outros trabalhos, como caixa de supermercado ou assistente operacional na Câmara de Constância? Que desafios e aprendizagens surgem ao não depender exclusivamente da cultura?
As artes e o artista são efémeros; quando surge uma crise, temos de nos reinventar. Venho de uma família humilde; com a crise da Troika fui trabalhar para a Brisa (linha de apoio na autoestrada) durante 2 anos. Com a pandemia, decidi voltar para Tomar. Quando comprei casa em Santa Margarida, nova crise e tudo parou; trabalhei no Intermarché do Tramagal durante 2 anos para assegurar o dia a dia. Decidi mudar para conquistar dignidade: um contrato, subsídio de refeição, férias e Natal. Concorri à Câmara para assistente operacional e consegui. Agora das 8h00 às 16h00 trabalho na Câmara e das 16h00 em diante já posso sonhar descansado.

Quais foram os momentos mais difíceis ou desafiantes da sua carreira?
Como dizer a um ator que atuou no coliseu para 8000 pessoas: “agora vais varrer ruas!?”. Chorei nas ruas com uma vassoura na mão, sentindo uma falência nos meus objetivos. Mas a resposta foi simples: estás a trabalhar para poderes ser tu mesmo e fazeres o que gostas. Encontrei uma nova família na Câmara que me acolheu e admira.
E, pelo contrário, quais foram os momentos de maior realização, alegria ou orgulho? Alguma vez pensou desistir?
Já me reinventei várias vezes mas desistir nunca.
Que conselho daria a quem quer seguir uma vida nas artes?
Força, coragem, perseverança e ser verdadeiro às suas convicções; humildade para ouvir e absorver é fundamental.
O que o levou a mudar-se para Santa Margarida da Coutada e criar, a partir dali, novos projetos artísticos?
A qualidade de vida e custos fizeram-me assentar arraiais aqui; uma boa oportunidade de negócio revelou-me esta zona calma. Onde mora um ator tem de haver teatro. Convidaram-me para as marchas e foi a oportunidade de conhecer a comunidade.

Que importância tem para si trabalhar com comunidades locais, envolvendo pessoas da terra nos espetáculos?
A massa humana é essencial; mais importante do que representar é as pessoas estarem juntas a rir e a preservar as raízes.
Que aprendizagens retirou do trabalho com públicos diversos e do envolvimento da comunidade nos seus projetos?
As pessoas estão ávidas de eventos singulares. Quando as vontades se juntam, são imparáveis.
Que projetos tem atualmente em mãos ou planeados para os próximos tempos?
Vamos ter 5 estreias de teatro: BACALHAU COM TODOS, AMAR CAMÕES, ENTRE RIOS, LIXO-UMA HISTÓRIA DE AMOR e A CASA DE BERNARDA ALBA. Teremos a FEIRA MOURISCA, ALDEIA DA CRIANÇA, MERCADO DO ESMOLER, CARTA RÉGIA DE PUNHETE e o CONCURSO DOS VESTIDOS DE CHITA.
Olhando para estes 30 anos de carreira, que sentimentos o acompanham e que projetos ainda quer realizar?
Um sereno sentimento de realização pessoal. Gostaria de realizar um projeto “MOSTRA” para apresentar projetos portugueses e desmontar processos criativos.
O que continua a motivá-lo a criar e inovar? Estar numa oficina e construir algo do nada; enquanto houver alguém para ouvir a tua história, haverá algo a dizer.
O espetáculo de dia 27 já esgotou (mas também o de dia 28 e haverá mais uma sessão extra no domingo, dia 29…) Que significado tem para si este interesse?
Confirma que o grupo tem características agregadoras e que as pessoas querem rir e descontrair. Dias difíceis têm de ser temperados com teatro.

Que mensagem gostaria de deixar a quem sente o apelo das artes (…) mas enfrenta receios?
Tens de responder honestamente: Quem sou? O que gosto de fazer?. O arrependimento será sempre pior; um dia estás na ribalta e no outro podes varrer ruas, mas encontras-te e sabes quem és. Ao adormecer estarás mais realizado.
Fotos: Ricardo Escada/mediotejo.net
