Quarta-feira, 4 de fevereiro. Árvores tombadas nas bermas das estradas, telhados com coberturas improvisadas com lonas e rastos de telhas partidas pelo chão saltam à vista assim que chegamos à freguesia de Carvalhal, no norte do concelho de Abrantes. Uma semana depois da passagem da tempestade Kristin, os sinais da destruição permanecem bem visíveis e refletem os dias difíceis vividos pela população, sobretudo devido à falta de energia elétrica e de comunicações.
Em algumas zonas, como contaram hoje moradores ao mediotejo.net, a E-Redes só começou a repor a eletricidade na segunda-feira, 2 de fevereiro, e ainda há locais sem luz, oito dias depois da intempérie – uma resposta que é sentida como lenta e insuficiente.


Silvino Frade, residente em Massamá, mas com casa em Carvalhal – que visita com frequência e onde espera viver a sua reforma – não esconde a frustração perante a demora na reposição da energia. “A minha situação só foi resolvida na segunda-feira, já ao fim do dia. E há um poste [naquela rua] que só hoje é que andam a trabalhar nele, para desobstruir a via. Isto é devagar, devagarinho…”, lamenta.
“Tantos dias depois, nem iluminação pública temos… e eu também não tenho televisão, mas seja da NOS ou da MEO, anda tudo avariado”, diz, acrescentando que ouviu na rádio críticas à fragilidade da rede elétrica, e concorda que alguma coisa terá de mudar: “Eles têm de arranjar sistemas para não estarmos quase oito dias sem luz…”




A indignação cresce quando se fala de custos e responsabilidades. “Isto é uma pouca vergonha, é um país de terceiro mundo ou quê? Levam o preço que querem e ainda havemos de ter de pagar isto tudo. Não tenha dúvidas, pela energia havemos de ter de pagar isto tudo!”
Esta semana foi vivida como um regresso forçado a outros tempos, que julgava definitivamente ultrapassados. “Andar aqui oito dias à luz do candeeiro a petróleo… isso era quando eu nasci, há 76 anos.”
A juntar ao incómodo da vida sem eletricidade e sem comunicações, havia que meter mãos à obra para resolver os estragos materiais provocados pela tempestade. Telhas arrancadas pelo vento deixaram desprotegidas muitas habitações, mas também causaram danos em veículos e estabelecimentos comerciais
“Destas casas voou uma telha que foi partir ali ao fundo um vidro da mercearia… Veja lá a velocidade! Doutra, caiu uma telha em cima de um carro estacionado, e partiu-lhe o vidro”, exemplifica, sublinhando que há moradores que terão de aguardar melhores condições meteorológicas para avançar com reparações. “Com este tempo, quem é que vai fazer obras? É preciso vir uma semana sem chover para começarem a mexer alguma coisa.”


A falta de energia teve grandes impactos na conservação de alimentos. “Aqui a mercearia tinha um gerador que lhe emprestaram para manter as câmaras frigoríficas em funcionamento, para aquilo não descongelar. Eu tive de tirar o que tinha no frigorífico e numa arca e levar tudo para casa de um cunhado”, explica, apontando como causa da falha elétrica no Carvalhal a queda de pinheiros sobre linhas da rede. Mas muitos postes foram também quebrados pela força do vento – partidos ao meio como se fossem fósforos.




Quando o mediotejo.net chegou ao supermercado da freguesia, propriedade de José de Jesus Passarinho, o comerciante mostrou-se “tão desanimado” que nem tinha vontade de falar. Ainda assim, acabou por relatar que esteve “três dias sem luz”, entre quarta e sexta-feira, dia em conseguiu pôr a funcionar um gerador, por volta das 16h00.
“Aqui os impactos foram muito grandes, não tínhamos luz para conseguir sequer fazer contas. A caixa registadora não abria e as arcas… foi aguentar até poder”, explica, acrescentando que teve alguma sorte porque estavam com muito gelo. “Se demorasse mais 24 horas a ter luz, já não se salvava grande coisa.”

No seu caso, foi possível ter eletricidade graças a um gerador, mas noutros locais da freguesia a situação prolongou-se. “Há casas que só tiveram mesmo luz na segunda-feira, e para alguns foi só ontem [terça-feira]”. Apesar das dificuldades, diz que não se verificou ali uma corrida aos bens essenciais. “Talvez levassem um bocadinho de água a mais, mas também não foi um exagero”, refere.
Ao nível dos danos, fala apenas em “algumas telhas”, mas alerta para um novo problema: “Agora é a cheia… lá em baixo, na garagem, está a aparecer água. Mesmo por baixo de onde estamos.”

No interior do estabelecimento comercial fazia-se esta manhã a reposição de stock nas arcas. “Foi uma semana em que não comprámos nada, os iogurtes tiveram de ir para trás, a carne, os queijos-frescos… uma série de coisas. Foram praticamente quatro dias parados, sem negócio. Foi muito mau.”
No café, Manuel Passarinho, natural e residente em Carvalhal, aponta para os sinais mais evidentes da tempestade: a queda de muitas árvores, quer em cima de habitações e de carros, quer no meio de estradas e caminhos, numa zona do concelho marcada por uma grande mancha florestal. Na sua habitação os danos foram evitados “por pouco”, diz. Voltou a ter eletricidade primeiro que outros locais da freguesia, mas afiança que “há certos lados onde ainda não há luz”.

A solidariedade entre vizinhos e familiares foi fundamental. “Tive de ir buscar às minhas irmãs material das arcas para meter nas minhas, porque eu tinha luz e elas não. Orientámo-nos todos à mesma, não se estragou nada”.
Ainda assim, sublinha o impacto emocional da situação: “Uma pessoa sem luz é uma tristeza… Houve pessoas que foram comprar rádios para ouvirem as notícias, porque não tinham televisão”.
Na Junta de Freguesia, reconhece-se a multiplicidade de problemas que a passagem da tempestade provocou. “Aqui houve falta de luz, de comunicações e de televisão em todas as localidades”, refere a presidente da Junta, Elisabete Jorge. No Carvalhal os danos nos telhados foram mais pontuais, diz, explicando que a pior situação é a vivida na localidade de Matagosa, onde “houve muitos estragos em termos de telhados e algumas chaminés caíram”.

Relativamente à eletricidade, Elisabete Jorge afirma que as últimas situações ficaram resolvidas entre segunda e terça-feira. “Era a maior reclamação das pessoas… os bens que tinham nas arcas, nos frigoríficos… mas o que fazer com respeito a isso? Eu lamento profundamente, mas não conseguimos resolver tudo. Temos estado atentos, constantemente a pedir ajuda… e agradeço, porque têm realmente feito tudo para nos ajudar”.
A Câmara de Abrantes “colocou o pessoal da ação social e militares a tentarem ajudar as pessoas que vivem mais sozinhas e que precisam de ajuda”, diz. A Junta “tem procurado abordar os idosos mais vulneráveis e que vivem mais distantes”.
“Ainda hoje fomos ajudar uma senhora a mudar uma garrafa de gás e um fogão porque estava a chover em cima. Estamos atentos e preocupados com tudo isto”, frisa.
“Esperemos que o pior, de facto, já tenha passado e que no futuro se possa ajudar estas famílias um bocadinho mais… e que os órgãos que nos orientam estejam mais atentos e olhem melhor para determinadas situações mais vulneráveis que temos no interior”, acrescenta.



Não há desalojados na freguesia, embora uma família permaneça em situação delicada, porque recusou sair da sua habitação.
Questionada sobre medidas futuras, Elisabete Jorge aponta os limites da sua atuação. “Em termos económicos, as Juntas de Freguesia não têm capacidade para dar resposta a tantas necessidades. O que podemos, e estamos a fazer, é encaminhar e acompanhar as pessoas junto dos órgãos competentes, para tentar resolver o mais breve possível certas situações. O importante sempre é nós colocarmo-nos no lugar dos outros. Se fizermos isso, conseguimos muita coisa.”
No Carvalhal, enquanto se pede aos céus uns “dias de bonança” para avançar com reparações nas casas, a chuva que continua a cair intensamente mantém viva a memória de uma tempestade que expôs muitas fragilidades, mas que também revelou as redes de entreajuda que permitiram superar os dias mais difíceis.

Dizer também que o mais belo Monumento da Freguesia de Carvalhal, Monumento do Cristo Rei na Matagosa, também foi destruído pela tempestade Kristin, todo o caminho de acesso ficou intransitável, com grandes pinheiros e eucaliptos deitados no chão, muitos são os estragos.