Neil deGrasse Tyson em Constância. Foto: EuRoC

Neil deGrasse Tyson, uma das figuras mais mediáticas da divulgação científica mundial, foi recebido com entusiasmo e prolongados aplausos por centenas de estudantes universitários de diferentes nacionalidades, na sexta-feira, 16 de outubro, na abertura da 7.ª edição do European Rocketry Challenge (EuRoC), em Constância, uma competição organizada pela Agência Espacial Portuguesa.

O astrofísico norte-americano, autor best-seller de livros sobre o Espaço e apresentador do podcast StarTalk, com 20 milhões de seguidores, desafiou os jovens presentes a testar os limites do conhecimento e a prosseguir a exploração espacial, numa intervenção marcada pelo humor que o caracteriza, pela importância de conhecer a história da ciência e por uma reflexão sobre o futuro da Humanidade.

Uma verdadeira “estrela Roc”

Pode dizer-se que a presença de Neil deGrasse Tyson na abertura do EuRoC se deveu a um feliz alinhamento dos astros.

O astrofísico norte-americano iria estar em Portugal para um “espetáculo” no MEO Arena, a 15 de outubro: uma sessão ao vivo de StarTalk. Foi aproveitando a sua passagem por Lisboa que a Agência Espacial Portuguesa, em articulação com o Turismo de Portugal, conseguiu assegurar a sua ida a Constância.

Se dúvidas houvesse sobre a popularidade de Tyson no nosso país, ficaram desfeitas assim que ele aterrou. Na quarta-feira passada foi entrevistado nas manhãs da Rádio Comercial e teve longas filas de fãs à sua espera na Bertrand do Chiado. O astrofísico tem um novo livro, “Lost in Space”, mas como ainda não há versão portuguesa a livraria precaveu-se com 30 exemplares em inglês – esgotaram ainda antes de ele chegar.

A seguir voaram das estantes os livros anteriores, como “Levem-me ao Vosso Líder – Perspectivas Acerca do Primeiro Encontro com um Extraterrestre (editado pela Casa das Letras). Sempre bem disposto, passou mais de duas horas a tirar selfies e a dar autógrafos.

Neil deGrasse Tyson com o presidente da Agência Espacial Portuguesa e o Presidente da Câmara de Constância. Foto: EuRoC

A presença de Tyson em Constância foi o ponto alto do primeiro dia do EuRoC, com os estudantes presos a cada palavra da sua intervenção e a terem depois a possibilidade de conversar com ele, durante a visita que fez aos espaços de exposição dos foguetes desenvolvidos pelas equipas da competição.

Tyson revelou aos participantes que acolheu “com satisfação” a possibilidade de estar na cerimónia de abertura do EuRoC, mas, sempre com uma simplicidade desarmante, relativizou a importância da sua presença, dizendo que o fundamental era o trabalho desenvolvido pelos jovens cientistas.

Da saída da gruta à exploração do universo

Numa intervenção que percorreu milhares de anos de História, Tyson começou por recordar que a vontade de explorar o desconhecido sempre existiu, desde os primórdios da Humanidade, e que as novas ideias surgem frequentemente entre os mais jovens.

Para ilustrar essa visão, convidou o público a imaginar uma comunidade que vivia numa gruta, há milhares de anos, onde os jovens, movidos pela curiosidade, queriam sair para descobrir o que existia para lá das montanhas, dos vales e dos rios que conheciam. Os mais velhos, porém, procuravam travá-los, argumentando que havia problemas na gruta que precisavam de ser resolvidos antes de qualquer aventura.

“Quem diz que não devemos ir ao espaço porque temos problemas aqui na Terra soa exatamente como aqueles anciãos da gruta”, afirmou o astrofísico, defendendo que a exploração não deve ser interrompida pelas dificuldades do presente.

Neil deGrasse Tyson na cerimónia de abertura do EuRoC, em Constância. Foto: mediotejo.net

A mensagem serviu de ponto de partida para uma viagem pela evolução dos transportes, desde a deslocação a pé e a cavalo até aos comboios, automóveis e aviões, demonstrando como as conquistas tecnológicas sucessivas transformaram os limites do que parecia possível.

Tyson recordou o primeiro voo dos irmãos Wright, em 1903, e o aparecimento da aviação comercial a jato, poucas décadas depois, para sublinhar a importância de uma sociedade que apoie a inovação e dê espaço às novas gerações. O progresso, disse, não depende apenas do conhecimento científico, mas também da engenharia, das instituições e da existência de condições para que novas ideias possam ser desenvolvidas.

Prosseguindo a viagem pela história da exploração, evocou o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, e o início da era espacial.

“O espaço não é a fronteira final; é apenas a próxima fronteira”, afirmou, contrariando a ideia de que a exploração espacial representa o limite das possibilidades humanas. Dirigindo-se aos jovens engenheiros que participam no EuRoC, Tyson lembrou que a Humanidade já colocou milhares de satélites em órbita, mas que existe um universo muito vasto por explorar.

“O que quero ver é esta próxima geração a apontar para lá da órbita baixa. Há um universo inteiro lá fora”, desafiou.

“Fomos à Lua e descobrimos a Terra“

Um dos momentos altos da intervenção de Neil deGrasse Tyson foi a evocação das primeiras imagens da Terra observada a partir do espaço, e o impacto que estas tiveram na consciência coletiva da Humanidade.

O cientista recordou que, durante as missões espaciais, os astronautas passaram a observar o planeta de uma perspetiva até então desconhecida, sem as fronteiras políticas e territoriais que marcam as relações entre os países. Referindo-se à viagem da Apollo 8, em dezembro de 1968, que permitiu obter a célebre fotografia “Earth Rising” (com a Terra a surgir sobre o horizonte lunar), Tyson sublinhou que a exploração espacial acabou por proporcionar também uma nova descoberta do planeta onde vivemos.

“Enviámos astronautas à Lua para explorar a Lua. Mas eles olharam por cima do ombro e descobriram a Terra pela primeira vez”.

O Pavilhão Desportivo Municipal de Constância encheu-se para ouvir o astrofísico norte-americano. Foto: mediotejo.net

O astrofísico destacou a forma como essa fotografia contribuiu para transformar a perceção humana sobre a fragilidade do nosso planeta e para reforçar a consciência ambiental e a responsabilidade coletiva – um efeito cognitivo designado como “overview effect” (ou “efeito perspectiva”).

Observar a Terra e constatar que habitamos um espaço único, um pequeno “ponto azul” rodeado pela negra imensidão do espaço, leva-nos a relativizar os conflitos e as divisões políticas e culturais que dominam a vida quotidiana.

“O espaço muda-nos”, sintetizou, frisando que a exploração do universo tem o poder de alterar a forma como os humanos se compreendem a si próprios. Evocou, a esse propósito, um poema de T. S. Eliot, que sintetiza essa ideia de que a exploração permite regressar a casa e compreender, finalmente, o lugar de onde se partiu.

“Não cessaremos de explorar
E no fim, a maior exploração
Será chegar ao ponto de partida
E conhecer esse lugar pela primeira vez.”

O astrofísico Neil deGrasse Tyson provou em Constância porque é um dos mais populares comunicadores de Ciência do mundo. Foto: EuRoC

A intervenção incluiu ainda uma referência especial à História portuguesa, fazendo um paralelismo entre as grandes viagens marítimas de há 500 anos e os desafios que hoje enfrentam os jovens engenheiros espaciais.

O astrofísico evocou Fernão de Magalhães e a expedição da primeira circum-navegação do planeta, concluída pela tripulação do navegador português após a sua morte. Para Tyson, o espírito de descoberta que impulsionou essas viagens permanece presente na exploração espacial contemporânea.

Dirigindo-se à Agência Espacial Portuguesa, desafiou os responsáveis a imaginarem como reagiria Magalhães aos avanços tecnológicos que hoje permitem construir foguetes e explorar o universo. Na sua opinião, o navegador teria motivos para sentir orgulho por ver essa tradição de exploração continuar, embora a descoberta de novos mundos não deva constituir uma ambição exclusiva de um país: “Somos todos seres humanos nesta Terra, a viver no mesmo espaço.”

Entre estudantes, foguetes, selfies e autógrafos

Neil deGrasse Tyson percorreu, um a um, os espaços de exposição das equipas universitárias, onde estavam expostos os foguetes desenvolvidos para a competição europeia. Rodeado de estudantes, observou os projetos, ouviu explicações técnicas, fez perguntas e conversou demoradamente com os jovens engenheiros, num ambiente de genuíno entusiasmo e proximidade.

A visita foi também marcada por sucessivos pedidos de fotografias e autógrafos, aos quais o cientista correspondeu, enquanto continuava a conhecer os projetos em preparação para os lançamentos no Campo Militar de Santa Margarida.

Foto: mediotejo.net

Foi neste ambiente informal, entre os jovens e os foguetes, que Tyson respondeu às perguntas dos jornalistas, destacando a energia dos participantes e a importância de a colocar ao serviço da ciência.

Questionado sobre se era a primeira vez que visitava Portugal, o astrofísico confirmou que sim, explicando que o convite para trazer o seu podcast coincidiu com a realização do EuRoC.

“Fiquei feliz por ter a oportunidade de estar aqui, apesar de vir apenas dizer umas palavras de abertura. Mas não é isso que importa. O que importa é tudo o resto que está a acontecer aqui”, afirmou, brincando depois com a diferença de idades em relação aos estudantes: “Toda a gente aqui tem um terço da minha idade. E isso é um bom facto”.

Questionado sobre o que sentiu ao observar os foguetes desenvolvidos pelas equipas universitárias, destacou a energia dos participantes. “Senti primeiro a energia jovem. E ver essa energia dirigida para a engenharia aeroespacial… então há esperança para o futuro”, afirmou.

Foto: EuRoC

O astrofísico foi desafiado a explicar por que razão os foguetes não seguem uma trajetória vertical quando são lançados para o espaço. Tyson explicou é preciso fazer uma subida a direito, a velocidades próximas dos 30 mil quilómetros por hora, mas depois há que fazer um desvio para leste, a acompanhar a curvatura da Terra, para poder entrar em órbita.

Deu ainda o exemplo das missões a Marte, explicando que uma nave não poderia simplesmente viajar sempre em linha reta até ao planeta vermelho. “É necessário calcular onde é que Marte estará quando a nave lá chegar”, lembrou, pois há que ter em conta o tempo de viagem e o movimento dos planetas.

Além disso, existem as “assistências gravitacionais”, uma técnica que permite aproveitar a gravidade e o movimento orbital dos planetas para alterar a velocidade e a trajetória, reduzindo as necessidades de combustível. Por isso, o caminho raramente é a direito – tem, na verdade, muitas voltas.

Sobre a mensagem que gostaria de deixar à próxima geração de cientistas, destacou a importância de preservar a curiosidade, considerando que esta se vai perdendo à medida que as pessoas envelhecem e se acomodam às ideias que já conhecem. Para Tyson, é fundamental manter a curiosidade para imaginar novas possibilidades e desbravar outros futuros.

“O mundo será aquilo que as novas gerações quiserem fazer dele. Estou confiante de que vai ser muito melhor do que aquele que lhes estamos a deixar.”

EuRoC: há sete anos a impulsionar os sonhos dos futuros engenheiros espaciais

Foto: EuRoC

Constância recebe pela sétima vez o European Rocketry Challenge (EuRoC) e durante uma semana será a base para todos os sonhos de 690 estudantes universitários de 13 países, integrados nas 21 equipas em competição. O evento, organizado pela Agência Espacial Portuguesa, proporciona a oportunidade de desenvolver, construir e testar foguetes com as exigências técnicas e de segurança próximas das encontradas na indústria aeroespacial.

Este ano registou-se um máximo histórico de 64 candidaturas, de 26 países, com Portugal a estar representado na fase final pelas equipas RED, do Instituto Superior Técnico, e MAST, da Universidade do Minho.

Na cerimónia de abertura, Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, destacou os resultados alcançados ao longo dos sete anos do evento, com antigos participantes a trabalhar hoje com sucesso na indústria espacial, enquanto outros engenheiros criaram as suas próprias empresas.

A sessão contou também com intervenções do chefe do Estado-Maior do Exército, general Eduardo Mendes Ferrão, de Alexander Kinnaird, da ESA Academy, e do presidente da Câmara Municipal de Constância, Sérgio Oliveira, que destacaram a importância da formação, da inovação e das parcerias para o desenvolvimento do setor espacial europeu.

Os lançamentos decorrem a partir deste sábado, 17 de outubro, no Campo Militar de Santa Margarida, com os foguetes preparados para atingir altitudes de três ou nove quilómetros. Na quarta-feira, 21 de outubro, serão conhecidos os vencedores.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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